UOL Notícias Internacional
 

19/06/2006

O que importa em "O Diabo Veste Prada" não é a alta costura, mas os negócios

The New York Times
Ginia Bellafante
Em uma cena do novo filme "O Diabo Veste Prada", a heroína, Andy Sachs, que serve de escrava e cabide para sua chefe, Miranda Priestly recebe uma visita do pai, preocupado, do Centro-Oeste.

Ele chega a Nova York e enche sua filha de perguntas: quer saber por que fica freqüentemente no escritório até 2h da manhã, apesar de ser mera assistente; por que sua chefe liga na hora do jantar; por que ela escolheu a carreira de jornalismo, se foi aceita na Faculdade de Direito de Stanford; e por que agora nem isso está fazendo, já que a Runaway magazine, onde trabalha, não é, afinal, o American Prospect.

"O Diabo Veste Prada", que estréia no dia 30 de junho, baseia-se no romance campeão de vendas homônimo, escrito por Lauren Weisberger, que trabalhou de assistente da Vogue e usou a experiência para retratar as revistas de moda como caldeirões de egos inflados e administração peronista. Quando jovem, Andy (interpretada por Anne Hathaway) era idealista e talvez usasse o termo "crise" para descrever guerras e acidentes de carro. Mas ela fica tão hipnotizada por Miranda, a editora bruxa da Runway (Meryl Streep), que passa a usar o termo quando algo danifica um conjunto de acessórios.

Em tudo isso, seu pai encontra grande causa para lamento.

De 1999 a 2004, fui repórter e crítica de moda para este jornal. Quando liguei para minha mãe para contar a ela que sua única filha ia ganhar a vida analisando o significado das roupas, acho que ela pensou em adoção. Defendi minha decisão dizendo que era uma oportunidade para pensar instrutivamente sobre os sexos e as classes e produzir o tipo de crítica cultural ampla que passei a admirar mais. Outra oportunidade que a moda fornece é tempo suficiente na companhia dos integrantes do ramo, algo que varia entre o horripilante e o excitante.

Discípulos da tribo da moda certamente dirão que "O Diabo Veste Prada" exagera em suas maneiras e tendências. Não é exagero. O filme é facilmente o retrato mais verdadeiro da cultura da moda desde "Unzipped", documentário de 1995 sobre Isaac Mizrahi.

Mas "Unzipped" retratou a moda em outra era, antes de ser dominada por meia dúzia de marcas multibilionárias. "O Diabo Veste Prada" é o primeiro filme a ter uma visão da moda do século 21, e vai além do mito que seus praticantes são visionários, revelando-os em vez disso como os trabalhadores exigentes que são: que vivem e se vestem e pensam de acordo com os editais sazonais dos conglomerados globais.

No mundo da moda que o filme retrata, ninguém usa sapatos de bico quadrado na presença de alguém que possa reprovar sapatos assim. Uma editora de moda talvez não queira realmente a última novidade, mas se preocupe que será desvalorizada se não a tiver. Os produtores entendem que o pessoal da moda não possui alma de artista, e sim de contador, que tiram mais energia do medo do que do desejo.

"O Diabo Veste Prada" também entende que a turma da moda é ambiciosa, mas sua ambição é de um tipo que ninguém de fora reconhece. Andy -atraída ao jornalismo como forma de corrigir os males sociais- acha seus colegas vergonhosos. Entre eles há Emily (Emily Blunt), outra assistente de Miranda, que trabalha até ter um colapso, sempre a serviço de seu objetivo de um dia acompanhar Miranda aos shows da alta costura em Paris. Emily abdica completamente de sua vida pessoal por um trabalho que considera tão significativo quanto qualquer outro no Departamento de Segurança Nacional. Para ela, Andy não tem a força de vontade necessária, pois usa tênis de redes de sapatarias, tecidos sintéticos e saias que parecem saídas de "uma convenção de saias horrendas". Emily me lembrou várias jovens que conheci, que combinavam uma ética calvinista de trabalho com uma consciência de status tão intensa que choravam ou desmoronavam se seus assentos no desfile não fossem na primeira fila.

Quando os estilistas, editores e assistentes e publicitários que conheci não estavam falando de roupas bonitas, falavam de casas bonitas: a de Karl Lagerfeld em Biarritz, a de Ferragamo, na Toscana. Durante as coleções na Europa, eles comem nos mesmos três ou quatro restaurantes de Milão (da Giacomo) e Paris (Voltaire ou Costes). Todos vão ao mesmo lugar nas férias. Em um ano todo mundo vai para Capri, no próximo abriram seu Atlas e descobriram o Butão.

Em certa altura do filme, Nigel, diretor de arte da Runway (estrelado por Stanley Tucci como mentor insolente que vê Andy como uma coisa feia) castiga-a por não saber que a revista "publicou alguns dos maiores artistas do século 20, Halston! Oscar de la Renta!"

Isso pareceu exagerado, mas eu poderia facilmente imaginar um Nigel de verdade -duas ou três versões vivas dele- pronunciando que tinham publicado os grandes artistas do século 20, Damien Hirst e Damian Loeb.

Um agente publicitário de um famoso jovem designer de Nova York certa vez me disse que esperava que o desfile de seu cliente fosse "devastacional". Com isso queria dizer que seu impacto seria devastador como, digamos, Duchamp no Armory Show. No final, foi meramente devastador no sentido de fazer o público querer fazer compras em Lands' End.

"O Diabo Veste Prada", dirigido por David Frankel, não se curva ao clichê de que todo mundo na moda é avoado. De fato, o filme sugere que os habitantes desse mundo são mais como impressionantes fãs de beisebol, bancos de dados que conseguem se lembrar que o quarto "visual" a descer a passarela no desfile de Yves St. Laurent, na primavera de 1986, era um bolero com ombro amarrado e estampa de onça, apresentado por uma modelo chamada Hermonie, que mais tarde se mudou para a Suécia e entrou para o ramo de hidropônicos.

Desdenhosa a princípio, Andy eventualmente desenvolve um afeto pelas pessoas a sua volta. E ela se apaixona pelas roupas, um desdobramento que estou inclinada a considerar completamente realista, pois também aconteceu comigo. A moda não comporta facilmente a ambivalência. E Andy está com fome demais (metaforicamente, mas também literalmente, pois na Runway ninguém come) para ficar parada. No final, busca um emprego de jornalismo em uma publicação que parece o Village Voice na década de 90.

"O Diabo Veste Prada" é um dos poucos filmes sobre a moda que não nos pede para celebrá-la, mas desdenhá-la. Andy poderia ter sido Diana Vreeland, mas será Nat Hentoff -ou Nat Hentoff com botas melhores. Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,21
    3,129
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h05

    -0,09
    75.905,04
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host