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20/06/2006

Memórias de uma banda que poderia ser, mas não foi

The New York Times
David Carr
As reedições de discos são, por natureza, nada impressionantes. Talvez dêem algum conforto para colecionadores que buscam preencher uma lacuna em suas prateleiras de CDs, mas nada de demais em termos de revelações. Mesmo assim, as lojas e tribos de roqueiros estavam emocionadas na semana passada porque desta vez a retrospectiva em questão era da banda Replacements, de Minneapolis, que se tornou uma Pedra de Rosetta musical. "Don't You Know Who I Think I Was?" -uma coleção de 20 canções, inclui notavelmente duas novas faixas de uma banda que ficou em silêncio por 15 anos.

Mas Paul Westerberg, que escreveu e cantou todas as músicas, não demonstra muito entusiasmo com o disco. Ele é excessivamente cordial ao telefone -é de Minnesota, afinal- mas parece se perguntar por que tanto alvoroço.

"Provavelmente uma entrevista não deveria dizer isso, mas de fato nem ouvi o disco", disse ele. "Acho que você deve saber o que está dizendo, mas eu posso dizer que sei que há meia dúzia de boas canções ali e (o disco) pode apresentar o que fizemos a alguns jovens."

A banda nunca vendeu muitos discos durante sua carreira de sete álbuns, de 1979 a 1991, mas os Replacements conquistaram status mítico para seus shows e hinos indeléveis sobre correr para lugar nenhum em particular. "I Will Dare", "I'll Be You" e "Bastards of Young" são quase belas demais para um fã agüentar.

"Don't You Know Who I Think I Was?" é uma retrospectiva impressionante, se não completa, e recebeu nota 8,8 da Pitchfork, um site da Web
(www.pitchforkmedia.com) com experiência em música indie. O álbum destramente traça a viagem musical da banda, da anarquia à angustia e à dor.

Os críticos sempre tenderam a tropeçar em Mats, apelido de Placemats, que é, bem, apelido da banda. Faz sentido os maníacos terem endeusado os Replacements, apesar de nunca terem feito sucesso ou talvez justamente por isso.

A influência de Replacements é ampla, com ou sem a nova regravação.
Roqueiros sensíveis como Jeff Tweedy de Wilco, Kurt Cobain do Nirvana e Billy Joe Armstrong de Green Day pegaram na guitarra e fizeram discos importantes depois de ouvirem Westerberg dobrar a cabeça para o microfone e expulsar a tristeza enchendo a sala de possibilidades.

Westerberg, que se descreve como "rebelde perdido" prefere enaltecer seus talentos como técnico de beisebol de seu filho do que como cantor e compositor, mas admite brevemente que o trabalho que fez com os irmãos Stinson (Bob na guitarra e Tommy no baixo) e Chris Mars na bateria permaneceu muito tempo depois de destruírem seu palco.

"Talvez seja exagero dizer, mas quando ouço o rádio, não posso deixar de imaginar como seria se eu nunca tivesse aberto minha boca", disse ele. "Ouço partes da minha voz. Mas, eu também ouvia Mick Jagger antes de jamais cantar uma nota."

Da mesma forma que Bruce Springsteen derrotou os intelectuais do rock, os Replacements, a começar com o magistralmente intitulado e executado disco de 1984 "Let It Be", parecia não levantar muito o nível e sim cortá-lo ao meio. Em um livro sobre a banda a ser lançado no próximo ano, Jim Walsh, colunista da City Pages em Minneapolis, chama os Replacements de "a pequena banda operária que poderia- mas não foi".

"Ali estava um menino dando voz a dores de crescimento bastante complicadas", disse ele. "Havia sensibilidade junto com a fúria, o que dava permissão às pessoas de explorar o interior e deixá-lo cantar."

Grande parte da lenda foi construída em bares lotados em todo o país, mais freqüentemente em Minneapolis. Os shows ao vivo dos Replacements eram um verdadeiro risco, pois levavam as brincadeiras no palco ao nível da arte performática.

Westerberg, hoje com 46 anos, fez algumas turnês com seus discos solo. Ele não pareceu nem se opor nem se comprometer a reunir a banda. Bob Stinson se foi, teve uma morte de roqueiro em 1995, anos depois de ser expulso da banda. Tommy Stinson toca baixo no Guns N'Roses e recentemente excursionou com o Soul Asylum, e Mars é um artista plástico de sucesso.

As coisas não acabaram com um abraço. A canção chamada "Popular Creeps", de "Horseshoes and Hand Grenades", disco solo de Mars que saiu depois do rompimento, parecia ser precisamente contra Westerberg: "Setecentos tapas não ajudariam", diz a letra.

Westerberg diz que gostou muito de gravar as duas novas músicas para a reedição -"Message to the Boys" e "Pool & Dive"- com Stinson e Mars. Há muito ele nega tensões, dizendo: "Passado é passado". Ele está ocupado fazendo a trilha de um desenho animado, "Open Season", para a Sony Pictures Animation, mas admitiu que, se fosse pelas razões corretas, teria prazer em trabalhar com Stinson, apesar de duvidar que Mars pudesse afastar-se de sua arte.

Brianna Riplinger, crítica free-lance de Minneapolis que aos 24 nunca viu a banda, ficou tão excitada com a perspectiva de uma reunião do grupo que não se conteve de alegria. "Sempre ouvia dizer que o show era uma bagunça, que era uma lenda, que era espetacular", disse ela. "Você nunca ouve isso de outras bandas, então eu morreria para ver isso."

Minneapolis sempre teve orgulho dos Replacements, cuja canção "Color Me Impressed" parece descrever a banda presa entre duas costas. Mais do que Prince, os Replacements refletiram os lábios curvados de Minnesota.

"Acho que havia uma qualidade de rock em tudo que faziam, um elemento de surpresa e de aspereza. Sem mencionar que conseguiam fazer um rock pesado com quatro músicos que nem sempre estava em forma para tocar", disse Martin Keller, ex-crítico em Minneapolis.

Westerberg lembra-se dessa última parte muito bem. (Em uma faixa do novo disco, ouve-se a polícia entrando em um show em Minneapolis, no Seventh Street Entry, e Dave Pirner, cantor do Soul Asylum que era fã dos Replacements na época, dizer aos policiais para onde deveriam ir.)

A estrada, diz Westerberg, não é o lugar mais saudável para uma pessoa que não se controla. "Há caras que lêem livros e saem e visitam pontos turísticos", disse ele. "Eu nunca fui assim. Eu olhava para a parede e acabava ficando louco."

Durante o auge da banda, Westerberg costumava dar punhados de dinheiro de volta a fãs que não gostassem do show ou pular do palco com os meninos quando as coisas ficavam tranqüilas demais. Agora, ele tem dificuldades em imaginar uma reprise daquele caos espontâneo.

"Sou cantor-compositor, mas carrego muita bagagem", disse ele. "Saio por aí com uma guitarra e as pessoas querem me ver pendurado na luminária ou pulando da varanda. Algumas pessoas aparecem para me ver destruir o espaço." Deborah Weinberg

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