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20/06/2006

Política de guerra de classes

The New York Times
Paul Krugman
Caso não tenha notado, a política americana moderna é marcada por partidarismo vicioso, com grande parte da viciosidade vindo da direita. Está claro que o plano republicano para as eleições de 2006 é, novamente, questionar o patriotismo dos democratas.

Mas os líderes republicanos realmente acreditam que levam a sério o combate ao terrorismo enquanto os democratas não? Quando o presidente da Câmara declara que "nós deste Congresso devemos mostrar a mesma determinação dos homens e mulheres do Vôo 93 da United", é realmente desta forma que ele vê a si mesmo? (Dennis Hastert, Homem de Aço!) É claro que não.

Então, do que realmente se trata nosso partidarismo amargo? Em duas
palavras: guerra de classes. Esta é a lição de um importante novo livro, "Polarized America: The Dance of Ideology and Unequal Riches" (América Polarizada: A Dança da Ideologia e das Riquezas Desiguais), de Nolan McCarty, da Universidade de Princeton; Keith Poole, da Universidade da Califórnia, em San Diego; e de Howard Rosenthal, da Universidade de Nova York.

"Polarized America" é um livro técnico escrito por cientistas políticos. Mas é uma leitura essencial para qualquer um que queira entender o que está acontecendo nos Estados Unidos.

O que o livro mostra, usando uma análise sofisticada das votações no Congresso e outros dados, é que no último século, a polarização política e a desigualdade econômica têm andado de mãos dadas. A política durante a Era Dourada, uma era de imensas desigualdades de renda, era um negócio sujo -tão sujo quanto hoje. A era de bipartidarismo, que durou por quase uma geração após a Segunda Guerra Mundial, correspondeu à melhoria das condições para a classe média americana. Tal maré alta começou a recuar no final dos anos 70, enquanto a renda da classe média começou a crescer de forma mais lenta, quanto muito, enquanto a renda dos mais ricos disparava; e com a ampliação das desigualdades de renda, ressurgiu uma profunda divisão partidária.

Tanto o declínio do partidarismo após a Segunda Guerra Mundial e seu retorno nas últimas décadas refletem principalmente a mudança de posição do Partido Republicano sobre questões econômicas.

Antes dos anos 40, o Partido Republicano dependia financeiramente do apoio de uma elite rica, e a maioria dos políticos republicanos defendia firmemente os privilégios da elite. Mas os ricos ficaram muito mais pobres durante e após a Segunda Guerra Mundial, enquanto a classe média prosperava. E muitos republicanos se ajustaram à nova situação, aceitando a legitimidade e o desejo de instituições que ajudassem a limitar a desigualdade econômica, como um sistema tributário fortemente progressivo. (A alíquota mais alta nos anos Eisenhower era 91%.)

Mas quando a elite novamente se destacou da classe média, os republicanos deram as costas ao legado de Dwight Eisenhower e voltaram a se concentrar nos interesses dos ricos. Reduções de impostos no topo -incluindo a rejeição ao imposto de propriedade- se tornaram a maior prioridade do partido.

Mas se a verdadeira fonte do partidarismo amargo de hoje é o deslocamento republicano para a direita em questões econômicas, por que as últimas três eleições foram dominadas pela conversa de terrorismo, com um pouco de religião ao lado? Porque um partido cujas políticas econômicas favorecem uma pequena elite precisa concentrar a atenção do público em outra coisa. E não há nada melhor do que acusar o outro partido de ser não patriótico e sem religião.

Assim, em 2004, o presidente Bush basicamente concorreu como o defensor contra os terroristas do casamento gay. Ele esperou até depois da eleição para revelar o que realmente queria fazer, que era privatizar o Seguro Social.

Os agentes republicanos pré-New Deal seguiam a mesma estratégia. Os políticos republicanos venciam eleições "acenando a camisa ensangüentada" -invocando a lembrança da Guerra Civil- muito tempo depois do Partido Republicano ter deixado de ser o partido de Lincoln e se tornado o partido dos barões ladrões. Al Smith, o candidato presidencial democrata de 1928, foi derrotado em parte por uma campanha de difamação -com queima de cruzes e tudo- que explorava o preconceito interiorano contra os católicos.

Assim, o que devemos fazer a respeito disto? Eu não vou oferecer um conselho aos democratas no momento, exceto dizer que falar grosso sobre segurança nacional e afirmações pessoais de fé não ajudarão: o outro lado o difamará de qualquer forma.

Mas eu gostaria de oferecer um conselho aos meus colegas intelectuais:
encarem a realidade. Há alguns comentaristas que anseiam pelos dias de bipartidarismo do passado, migrando ansiosamente na direção de qualquer político que pareça "centrista". Mas não há nenhum centro na política moderna americana. E o centro não voltará até termos um novo New Deal e a reconstrução de nossa classe média. George El Khouri Andolfato

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