UOL Notícias Internacional
 

21/06/2006

Uma epidemia de depressão pós-Katrina

The New York Times
Susan Saulny

em Nova Orleans
O sargento Ben Glaudi, comandante da Unidade Móvel de Crise do Departamento de Polícia, passa grande parte de seus dias nas ruas da cidade tentando persuadir as pessoas a não se matarem.

Cheryl Gerber/The New York Times 
Ben Glaudi, comandante da Unidade Móvel de Crise da polícia de Nova Orleans

Na terça-feira (20/6), no bairro francês, a pequena equipe de Glaudi enfrentou um homem que mergulhou na corrente do rio Mississippi, esperando afogar-se. Enquanto as águas ameaçavam tragá-lo, o homem usava suas últimas forças para combater o pessoal de resgate, recusando-se a ser salvo.

"Ele disse que perdeu tudo e que não queria mais viver", disse Glaudi.

O homem foi atendido e aconselhado pela unidade de crise, depois de ser retirado do rio contra sua vontade. Outros não tiveram tanta sorte.

"Não vou exagerar, é assim mesmo", disse Glaudi. "Essas coisas têm acontecido muito. As pessoas não são mais capazes de lidar com a situação aqui."

Nova Orleans está vivenciando o que parece ser uma epidemia de depressão e distúrbios de estresse pos-traumático, de uma intensidade raramente vista neste país, segundo os especialistas. O fenômeno está contribuindo para um índice de suicídio que autoridades estaduais e municipais dizem estar perto do triplo do que era antes do furacão Katrina quebrar as comportas, há 10 meses.

Para aumentar o desafio, o sistema de saúde que cuidava de doentes mentais sofreu um colapso quase total e deixou uma grande parte do trabalho para o Departamento de Polícia. Glaudi disse que sua unidade atende entre 150 e 180 pedidos de ajuda por mês.

Jeffrey Rouse, detetive de Nova Orleans que trata de casos psiquiátricos, disse que o índice de suicídio da cidade antes da tempestade era de menos de nove por ano, a cada 100.000 moradores, e aumentou para mais de 26 depois disso.

Apesar de a cidade contabilizar 12 casos oficiais de suicídio até agora em 2006, Rouse e Kathleen Crapanzano, diretora do Escritório de Saúde Mental do Estado, disseram que o número verdadeiro deve ser muito mais alto, porque muitas das mortes por suicídio não foram esclarecidas ou são erroneamente descritas como acidentes. "A amplitude desse desastre foi sem precedentes", disse Charles Curie, do Departamento de Serviços de Saúde Mental e Abuso de Substâncias. "Ficamos preocupados pois nunca tínhamos visto este nível de abuso de substâncias e de necessidade de cuidados mentais."

Esta é uma cidade em que milhares de pessoas estão vivendo em meio a quilômetros de ruínas, onde a vibração da vida pode ser encontrada apenas nas faixas de terra perto do Missisissippi. Há lixo jogado, os crimes subiram e a Guarda Nacional voltou à cidade, patrulhando as ruas depois que o Departamento de Polícia admitiu não poder assumir a tarefa sozinho. As lembranças da morte estão em toda parte, e o custo emocional está ficando claro.

Gina Barbe resistiu à tempestade na casa da mãe, perto do lago Pontchartrain, e disse que chora todos os dias desde então.

"Achei que agüentaria a tempestade, e agüentei -as conseqüências é que estão me matando", disse Barbe, que trabalhava em vendas de turismo. "Quando dirijo, tenho que encostar o carro para chorar. Não consigo mais passar pela cidade sem chorar." Muitas pessoas, apesar de não estarem suicidas, têm suas vidas erodidas por sentimentos de tristeza persistentes, de desesperança e doenças relacionadas ao estresse, dizem médicos e pesquisadores. A profundidade vai além de 11 de setembro e dos atentados de Oklahoma City, disse Curie. Além dos furacões Andrew, Hugo e Ivan.

"Estamos nisso há muito mais tempo e com muito mais intensidade do que nos desastres anteriores", disse ele.

Glaudi é treinado para administrar situações de crise, mas não atendimento médico. Ele volta no final do dia para seu próprio bairro devastado e dorme em um trailer do governo diante do que era sua casa.

"Você passeia por aí e vê destroços, destroços, destroços", disse ele.

E esta é uma importante parte do problema, concordam os especialistas: as pessoas de Nova Orleans ficam traumatizadas toda vez que olham a sua volta.

"Este trauma não durou 24 horas e depois sumiu", disse Crapanzano, do departamento de saúde mental de Luisiana. "Continua".

O Estado estima que a cidade perdeu mais da metade de seus psiquiatras, assistentes sociais, psicólogos e outros profissionais da área de saúde mental. Muitos se mudaram depois da tempestade. Além disso, de acordo com a Associação de Hospitais de Louisiana, existem pouco mais de 60 leitos para pacientes psiquiátricos nos sete hospitais da cidade. Antigamente, havia 550 leitos em 37 hospitais.

Por causa da falta de clínicas de saúde mental e serviços relacionados, pacientes com distúrbios severos terminam na emergência dos poucos hospitais privados, onde muitas vezes padecem. Muitos pacientes mais pobres eram dependentes de uma grande instituição pública, o Charity Hospital, que fechou as portas depois da tempestade. Muitos médicos protestaram alegando que o prédio estava em boas condições. O "Big Charity", como era chamado, tinha quartos para 100 pacientes psiquiátricos e poderia ter usado maior capacidade.

"Quando você não tem um lugar para enviar aquele esquizofrênico que está vagando, o que acontece? A polícia vai acabar cuidando disso", disse Rouse, o detetive. "Quando o Departamento de Polícia é forçado a fazer o papel do sistema de saúde mental, todos perdem."
"Quando a família vem me ver no me escritório", acrescentou, "é uma derrota. O Estado tem a obrigação moral de reinstituir esse atendimento".

Glaudi e outros dizem que algumas pessoas lutando com questões emocionais não tem histórico de doença mental ou depressão. Os sintomas acontecem em todas as esferas raciais e econômicas. A vida em Nova Orleans é difícil e inconveniente para todos. "Se eu pudesse fazer qualquer coisa, daria maior velocidade de recuperação para a comunidade como um todo", disse Howard Osofsky, diretor do departamento de psiquiatria da Universidade Estadual de Luisiana. "A saúde mental precisa estar relacionada a isso."

Susan Howell, cientista política da Universidade de Nova Orleans, conduziu um estudo recente com pesquisadores da Universidade Estadual para ver como as pessoas estavam lidando com a vida na cidade. Ela desenvolveu estudo similar em 2003.

"Os sintomas de depressão dobraram desde o Katrina, no mínimo", disse ela. "São sintomas pós-traumáticos clássicos. As pessoas não conseguem dormir, estão irritadiças, sentindo que tudo é um esforço e tudo é triste."

A pesquisa foi conduzida em março e abril entre 470 entrevistados que estavam morando em casas ou apartamentos. Como não estavam em trailers do governo, talvez tenham sido uma amostra de mais sorte.

Jennifer Lindsley, proprietária de uma galeria, também sente a dor da falta dos amigos. "Quando você não consegue mais falar com as pessoas, você se sente meio vazia", disse ela. "Quando você tenta explicar para os moradores de outras cidades, eles dizem: 'O mundo todo superou o problema. Infelizmente aconteceu, triste. Agora siga adiante.'"

Algumas pessoas decidiram deixar a cidade simplesmente por causa do ambiente.

"Estou realmente consciente do ar de depressão que permeia toda essa área", disse Gayle Falgoust, professora aposentada. "Vou embora no próximo mês. Tenho medo de morar neste nível de depressão. Temo que possa afetar minha saúde. Sei que a mudança vai melhorar meu humor."

Alicia Soto, amiga de Falgoust, não vai deixar Nova Orleans, mas compreende porque a idéia é atraente.

"Vou lhe dizer, não há jeito de esquecer o Katrina", disse Soto. "Temos lembretes constantes sobre o que aconteceu aqui. Mesmo que você tente não pensar nessas coisas, estão sempre em sua mente." Deborah Weinberg

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