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22/06/2006

Uma nova forma de combate desarmado atrai praticantes

The New York Times
Lee Jenkins
Na manhã de 4 de junho, enquanto a turma que estava concluindo o colégio Chelmsford, em Massachusetts, seguia para um estádio de futebol para a cerimônia de formatura, Chris Fox tomou um ônibus para o hotel Howard Johnson, em Atlantic City, Nova Jersey.

Enquanto os outros formandos de Chelmsford estavam prestes a receber seus diplomas, Fox, 17 anos, estava prestes a iniciar a próxima fase de sua educação: como socar, chutar e golpear outro homem até ele se render.

"Acho que sou o único que perdeu a formatura no colégio para estar aqui", disse Fox. "Mas sei que vale a pena."

Ele se sentou de pernas cruzadas em um salão de baile, juntamente com cerca de 140 outros jovens em roupas de ginástica. Alguns vieram de avião do outro lado do país. Outros dirigiram a noite toda. Eles estavam lá não necessariamente por planejarem ser lutadores profissionais, mas porque querem aprender com o melhor lutador do mundo.

Seu nome é Fedor Emelianenko, e no esporte vale-tudo, ele é Mike Tyson por volta de 1988. Ele atrai mais de 60 mil torcedores para suas lutas, ganha mais de US$ 1 milhão por luta e raramente precisa de mais do que dois minutos para completar seu trabalho. Ele entra no ringue parecendo fora de forma e meio sonolento. Então ele começa a pisar na cabeça do próximo desafiador.

Mas assim que Emelianenko entrou no Howard Johnson, acompanhado por um
intérprete da ONU e cinco garotas de ringue vestindo cetim vermelho, ninguém na recepção o reconheceu. O vale-tudo ainda está nos estágios iniciais, um esporte narrado principalmente na Internet e alimentado pelos fãs. Apenas quando Emelianenko chegou ao salão de baile, onde daria um seminário de luta em russo, os jovens se agitaram.

"Eu nunca achei que conseguiria tanto desta forma", disse Emelianenko por meio do intérprete. "Mas sempre foi meu sonho. Era meu sonho dourado."

O sonho, empregar caratê, luta greco-romana e técnicas de briga de rua para conquistar fama e riqueza, seduziu uma geração de americanos a iniciarem o treinamento. Os adolescentes praticam "mixed martial arts" (artes marciais misturadas ou vale-tudo) nas academias locais de caratê pelo mesmo motivo que jogam beisebol para as equipes de passagem. Eles esperam algum dia serem bons o bastante para disputarem os campeonatos de ponta.

O vale-tudo inclui duas grandes ligas: o Ultimate Fighting Championship, que é famoso nos Estados Unidos por suas lutas em pay-per-view, seu ringue octogonal e seu reality show na televisão de grande audiência; e o Pride, que é mais popular na Ásia, enche regularmente o Tokyo Dome no Japão e tem dinheiro suficiente para manter Emelianenko em suas fileiras.

Mas há dezenas de ligas menores, como Mixed Fighting Championship,
International Fight League, Gladiator Challenge, TKO, K-1, M-1, King of the Cage e Cage Rage, que ajudam lutadores menos conhecidos a permanecerem no ringue. Alguns ganham apenas US$ 500 por luta, pagam suas próprias despesas e dividem quartos de hotel com os amigos que concordaram em treiná-los e empresariá-los.

"Eu acho que sou um sonhador", disse Joey Brown, um lutador de 39 anos de Lodi, Nova Jersey, que atende pelo apelido Knockdown (Nocaute). "É preciso ser um sonhador para fazer o que estamos fazendo."

Brown tem um emprego em tempo integral, um retrospecto de 2-5 e um
empresária que ele paga ajudando a cuidar da filha deficiente mental dela. Ele trabalha de dia em uma empresa de automóveis no norte de Nova Jersey e treina à noite em um ginásio em Nova York. Desde o momento em que Brown assistiu ao primeiro Ultimate Fighting Championship -"12 de novembro de 1993, ele cita com orgulho"- ele encontrou seu esporte.

O vale-tudo é para qualquer um tenha praticado boxe, luta greco-romana ou kickboxe, qualquer um que tenha praticado jiu-jitsu, tae kwon do ou muay Thai. O esporte foi inventado para dar a estes lutadores um espaço
profissional e determinar qual disciplina era melhor. Um boxeador derrotaria um lutador de luta greco-romana? Um mestre de jiu-jitsu venceria um especialista em tae kwon do?

Na noite anterior ao seminário de Emelianenko, 22 lutadores se reuniram no Boardwalk Hall em Atlantic City, em parte para ajudar a responder a estas perguntas eternas. Eles estavam todos listados no Mixed Fighting
Championship 7, com o evento principal colocando um ex-lutador de luta
greco-romana colegial da Filadélfia contra um ex-marine de Canton, Illinois.

O lutador, Eddie Alvarez, desprezou uma bolsa de estudos universitária para ser um artista de vale-tudo. O marine, Derrick Noble, tem um diploma em cinesiologia, estava fazendo um mestrado em administração atlética e já tinha treinado no Chicago Bulls. "Eu não acho que posso ganhar a vida com isto", disse Noble, 27 anos. "Mas esta ainda é a meta."

Enquanto Noble falava, Alvarez passou por seu vestiário improvisado e os combatentes trocaram olhares ameaçadores. Neste nível de vale-tudo, os competidores têm suas mãos e tornozelos enfaixados. Eles participam da mesma reunião de regras. As lutadoras se vestem ao lado das garotas do ringue e os combatentes se vestem ao lado uns dos outros. Uma maca fica no corredor.

"Eu podia ter ido para a faculdade", disse Alvarez, 22 anos. "Mas estava cansado da luta greco-romana porque tinha que perder peso o tempo todo. Eu sempre disse a mim mesmo: 'Se eu puder encontrar um esporte que me permita comer, beber e me alimentar bem, eu o praticarei até morrer',"

Ele espiou do vestiário para a arquibancada, quase cheia com 2 mil
espectadores, aproximadamente metade deles vindos da Filadélfia para vê-lo. Ao lado do ringue, empresários com jaquetas esportivas se sentavam com acompanhantes usando vestidos de noite. Nos lugares mais baratos, estudantes universitários vestiam camisetas de camuflagem com slogans como "Lutar é a única opção". As filas para cerveja eram longas.

Uma das lutas preliminares apresentou Shayna Baszler, uma funcionária da UPS de 25 anos de Sioux Falls, Iowa. No final de seus três rounds contra Amanda Buckner, Baszler ficou imóvel na lona, atordoada pela série de socos na cabeça. Ela parecia precisar de uma maca. Momentos depois, ela jocosamente perguntou a Buckner: "Por que você não desiste?"

Esta pode ser a melhor pergunta para todos eles, considerando os muitos
motivos para jogar a toalha. "Olha, eu já joguei basquete e fiquei na linha de arremesso livre com um jogo empatado e faltando 0,2 segundo", disse Baszler. "Mas não há sensação no mundo como estar no ringue quando se aproximam e perguntam: 'Você está pronta?'"

Ela visualiza a luta em sua cabeça, como a fumaça dissipa e o hip-hop começa a tocar. O primeiro round começa como uma luta de boxe clássica, os lutadores se aproximando um do outro com cautela. Eles desferrem uma série de socos. Então tentam alguns chutes. Então um lutador, geralmente aquele com treino em luta-greco-romana, arrasta o outro para a lona. Eles ficam em cima um do outro, freqüentemente por minutos a cada vez. Os torcedores precisam se levantar para ver.

"Eu me lembro de organizar estes eventos para poucas centenas de pessoas em salas pequenas em Indiana", disse Miguel Iturrate, um organizador do Mixed Fighting Championship. "Não havia regulamentos, não havia regras. Se parecia mais com um espetáculo. Agora se parece mais com um esporte."

O vale-tudo flerta com uma grande área cinzenta entre o underground e o
popular. As ligas são reguladas pelas comissões atléticas estaduais e os lutadores fazem exame antidoping antes de cada luta. Mas não há uma
associação unificadora.

Algumas ligas permitem joelhadas, cotoveladas e chutes. Algumas permitem isto apenas contra certas partes do corpo. Algumas não permitem tais golpes. Se as ligas de vale-tudo não conseguem concordar em um formato universal, os melhores lutadores do mundo poderão nunca se encontrar, porque estão sob contrato com ligas diferentes.

"É difícil reunir isto tudo", disse Dana White, presidente do Ultimate
Fighting Championship. "Poderá vir a acontecer? É claro que sim. Será que deveria? Talvez sim. Para algumas lutas, pois seria um pecado se não acontecessem."

Qualquer um que pisa na lona, mesmo para uma luta menor, o faz com o
conhecimento de que White está monitorando a ação de seu escritório em Las Vegas, decidindo para qual lutador ele oferecerá um contrato. Um
participante típico do Mixed Fighting Championship ganha US$ 2 mil para
concorrer, US$ 2 mil por vitória e US$ 10 por cada ingresso que vender. O Ultimate Fighting Championship não paga muito mais, mas oferece a chance de estar na televisão e obter contratos de publicidade.

Assim, quando Eddie Alvarez nocauteou Derrick Noble no primeiro round em Boardwalk Hall e então deu um mortal de costas da corda superior do ringue, parecia inevitável que ele logo mudaria de liga. "O pináculo é obviamente o Ultimate", disse Alvarez, ainda usando seu cinto 30 minutos depois da luta. "Eles são a Nike do vale-tudo. Mas também são uma grande corporação. Eu posso não obter o reconhecimento que tenho aqui."

Em uma noite ele ganhou US$ 15 mil. Ele tinha lutado diante de seus
torcedores. E recebeu a honra suprema do vale-tudo. Emelianenko, na cidade para o seminário, veio da arquibancada para posar com a família Alvarez no ringue. "Eu quero esta foto", gritou Alvarez para o fotógrafo. "Se certifique de que receberei uma."

Os esportes radicais precisam de astros viáveis comercialmente e, a esta altura, o vale-tudo não tem candidato mais qualificado que Emelianenko. Ele tem três apelidos -O Último Imperador, O Exterminador e O Ciborgue- e apenas uma derrota, resultado de um corte que não fechou.

Aos 29 anos, Emelianenko é campeão dos pesos pesados da Pride e modelo para a próxima geração. Enquanto os lutadores mais velhos tendem a empregar técnicas que já dominaram, Emelianenko mistura todas as disciplinas, um Bruce Lee moderno de 1,82 metro e 105 quilos.

Os Estados Unidos poderão em breve ter um vislumbre ao vivo de Emelianenko em ação. A Pride está planejando realizar sua primeira luta fora do Japão em outubro -coincidência ou não, ela está marcada para ocorrer em Las Vegas, lar do Ultimate Fighting Championship. Se a mão machucada de Emelianenko estiver plenamente recuperada, ele poderá participar.

Sua viagem a Atlantic City foi apenas uma apresentação aos Estados Unidos. Após as lutas, ele levou um grupo de amigos para o Carmine's, no hotel cassino Tropicana, e começou a comer uma costela de 800 gramas. Embaraçado com o tamanho do prato, ele ofereceu pedaços para qualquer um que estivesse com fome.

Enquanto isso, os outros lutadores estavam tomando cerveja no Trump Taj
Mahal, analisando suas lutas e conversando sobre o futuro. Homens que poucas horas antes tinham surrado uns aos outros até ficarem inconscientes estavam brindando.

Emelianenko pensou e se juntar a eles, mas ele tinha que acordar cedo no dia seguinte para seu seminário. Adolescentes de todo o país estavam viajando durante a noite para vê-lo.

"Alguns dos meus amigos me acham louco por fazer isto", disse Chris Fox, o formando do colégio Chelmsford. "Mas minha mãe não liga." George El Khouri Andolfato

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