UOL Notícias Internacional
 

23/06/2006

No Congo, a comida pode ser mais valorizada que os votos

The New York Times
Lydia Polgreen

em Aveba, Congo
A primeira vez que o exército do Congo tentou retomar esta aldeia das mãos milícias que a dominam desde que a guerra civil supostamente terminou, em 2002, os soldados do governo fugiram. Isso foi em janeiro.

A segunda tentativa, um mês depois, também fracassou, apesar do forte apoio de soldados da paz da ONU, que estão tentando estabilizar a nação antes das eleições de julho, a primeira em mais de quatro décadas. Em vez de combater os guerrilheiros, os soldados amotinaram-se e saquearam a base dos soldados da paz.

Foi apenas depois da terceira tentativa, em maio, que a milícia finalmente fugiu para a floresta equatorial.

Mas a luta do Estado pelo controle da região, gerou outra crise. Milhares de pessoas encheram a aldeia, exaustas e emaciadas de esperar pelo término dos conflitos no mato, perpetuando a fome e a doença que continuam a afligir o Congo, depois de sua guerra civil mortífera de cinco anos.

Em menos de uma década, estima-se que 4 milhões de pessoas foram mortas, a maior parte de fome e doença causadas pelas lutas. Foi o conflito mais mortífero desde a Segunda Guerra Mundial, com mais de 1.000 pessoas morrendo por dia. Para muitas, a meta é a sobrevivência, não as eleições.

"Corremos porque temos medo de morrer em nossas casas. Mas na mata também morremos", disse Ngava Ngosi, um dos milhares que fugiram da aldeia para a floresta e de volta, no caos aparentemente eterno do leste do Congo.

A batalha por Aveba, que faz parte de uma série de aldeias pequenas, mas estratégicas no distrito rico em minerais de Ituri, ilustra o caminho perigoso diante do Congo, enquanto luta para estabelecer a paz e a democracia.

As eleições presidenciais e parlamentares em julho serão o primeiro momento de autodeterminação para a maioria dos congoleses. A última eleição com vários partidos aconteceu em 1965. Depois, o Congo foi governado por 32 anos por Mubutu Sese Seko, que o chamou de Zaire e manteve-o refém de seu governo opressor de mão de ferro.

Desde que Mobuto foi deposto, em 1997, a nação, rebatizada de República Democrática do Congo, ficou nas mãos de duas milícias rivais assassinas, patrocinadas por países vizinhos.

A guerra foi oficialmente dada como terminada com o acordo de paz entre as facções, assinado há quatro anos, mas a transição para a paz ainda não ocorreu. As lutas continuaram intermitentemente. O conflito, confuso e complicado, começou quando Ruanda e Uganda patrocinaram um movimento rebelde para derrubar Mobutu, que morreu em Marrocos em 1997. A guerra fugiu ao controle quando o movimento rebelde se voltou contra seus patrocinadores estrangeiros.

As eleições devem separar esse passado caótico de um futuro de mais esperança. Mas os preparativos para as eleições foram extraordinariamente difíceis nas regiões violentas do leste, onde milícias lutaram contra as tropas do governo para controlar indústrias lucrativas, como a mineração de diamantes e cobre. No curto prazo, as eleições podem causar tantos problemas quanto resolver.

"Quebramos a estrutura das milícias, mas ainda prevalece um tipo de incerteza. Fica mais difícil para as pessoas recorrerem a suas vidas normais. Essa incerteza tem muitos aspectos e traz muito sofrimento", disse o major Obeid Anwar, comandante de uma unidade de tropas de paz paquistanesas estacionadas em Aveba.

Milhares de civis fugiram para a floresta em uma tentativa de fugir dos conflitos, e enfrentam fome e doença. Às vezes não fica claro se estavam fugindo dos guerrilheiros, que estupravam e saqueavam as aldeias, ou dos soldados congoleses, que faziam basicamente o mesmo.

A falta de disciplina no exército, uma combinação de rebeldes e soldados do governo unidos em uma força nacional sob o acordo de paz, tem sido outro problema. Seu salário oficial é de menos de US$ 1 (em torno de R$ 2,3) por dia, e mesmo essa quantia aparentemente não é paga regularmente. Acostumados a viver de saques, os soldados do governo freqüentemente são acusados de violações de direitos humanos, inclusive estupro e assassinato.

A ONU está investigando um relatório publicado no dia 18 de junho pelo semanário britânico The Observer, que diz que membros da força de paz atiraram morteiros contra uma aldeia de civis como parte de uma ofensiva em Ituri, em abril. O relatório baseou-se em um vídeo de um jornalista britânico que viajou com as tropas da ONU.

Em Aveba, onde a unidade de Anwar se baseia, os civis começaram a chegar da floresta esperando encontrar comida e segurança. A maior parte dos desabrigados vêm de aldeias em torno e passam a ocupar casas vazias, comendo os plantios dos que fugiram.

Na Igreja Assembléia Evangélica, no centro da aldeia, centenas de pessoas dormem juntas, apertadas, tentando se manter quentes no ar gelado da montanha.

Aproline Avurasi chegou a Aveba no início de junho com seus cinco filhos.

Eles trouxeram apenas o que podiam carregar: uma bacia de metal cheia de trapos, o pouco de comida que tinham e alguns utensílios de cozinha amarrados. Eles foram morar na igreja, esperando encontrar ajuda. Não encontraram nada além de miséria.

"Estávamos passando fome no mato", disse Avurasi. "Também estamos morrendo de fome aqui."

Três enfermeiras, igualmente desalojadas pelos confrontos, estabeleceram uma clínica em uma casa abandonada. Uma organização de assistência médica deu a elas várias caixas de suprimentos básicos e, depois de três dias, estavam inundadas de pacientes, quase 300.

Um homem doente que as enfermeiras acreditam estar com meningite, estava deitado sem se mover em um colchão de palha rasgado. Outro fora baleado no pé, quando tentava fugir dos soldados, e estava deitado no chão da sala de espera apertada, coberto com um retalho sujo de pano. Uma fila de mulheres com bebês estendia-se porta afora.

"Não temos equipamentos para fazer muita coisa, mas ao menos tentamos confortar as pessoas", disse Adirudu Yanga, uma das enfermeiras da clínica improvisada.

Anwar disse que tinha implorado por mais ajuda de agências humanitárias para as famílias aqui reunidas, mas não chegou nada.

"Sinto até vergonha de ir ver essas pessoas morando na igreja", disse ela. "Prometi a elas que teríamos ajuda, mas não veio nada."

Agências humanitárias em Bunia, capital regional, enfrentam dificuldades para trabalhar na área. Guerrilheiros e bandidos continuam nos campos, apesar de terem sido expulsos de seus redutos no alto dos morros. Eles atacam comboios em busca de comida, remédios e dinheiro.

A doença também está prosperando. No dia 22 de junho, a organização Médicos Sem Fronteiras pediu ajuda para combater uma onda de pneumonia no nordeste, com 144 casos, e disse que a área enfrentava "um surto que está saindo de controle", disse a agência France-Presse.

A necessidade é enorme: uma agência italiana, Cesvi, tentou levar alimentos para Aveba, mas encontrou tantos desalojados em Geti, no caminho, que esvaziou seus carregamentos ali mesmo.

Em Geti, 16 km a leste de Aveba, centenas de pessoas chegam todos os dias, buscando comida e segurança. A família Kanoya, de cerca de 20 pessoas, sentou-se debaixo de uma bananeira esperando Tchoni Mugero, seu patriarca, construir um abrigo temporário de grama e paus. Eles tinham passado três dias catando o material para construir o barraco e, enquanto isso, dormiam ao relento.

"Nunca sofremos assim", disse Djimo Charles Kanoya, membro da família.
"Passamos um mês no mato. As crianças estão com fome e frio."

Até mais do que comida, as pessoas precisam de cobertores e lonas para se abrigarem do ar frio de montanha à noite.

No hospital de Geti, Ngele Anyodi, enfermeira, disse que as crianças estavam morrendo de doença e desnutrição todos os dias, porque não conseguiam ir até um hospital mais bem equipado.

"Este lugar foi saqueado nos combates", explicou, mostrando os escritórios, laboratório e farmácia vazios, sem microscópios, remédios ou equipamentos médicos. "Não podemos cuidar dos mais doentes aqui. Não temos os meios."

De fato, o enfermeira responsável -não há médicos- também estava acamado, com malária.

A eleição pode estar logo aí, mas votar, disse ele, era a última coisa em sua mente. Os mortos, diz ele, não votam.

"Precisamos de ajuda", pediu Anyodi. "Precisamos sobreviver primeiro." Deborah Weinberg

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