UOL Notícias Internacional
 

23/06/2006

Para alguns, a busca por armas não convencionais no Iraque continua

The New York Times
Scott Shane

em Washington
Faz muito tempo que o governo dos Estados Unidos abandonou a busca por armas não convencionais no Iraque. Mas Dave Gaubatz nunca desistiu.

Gaubatz, um investigador sisudo que fala árabe e que passou os primeiros meses da guerra no sul do Iraque como integrante civil da força aérea, disse ter identificado quatro lugares nos quais a população local disse que existem armas químicas enterradas em bunkers de concreto.

Segundo Gaubatz, esses locais nunca foram vasculhados, e ele garante que não deixará que ninguém os esqueça.

"Simplesmente não quero que as armas caiam nas mãos erradas", justificou Gaubatz, de Denton, no Texas.

No ano passado, ele apresentou esta sua história em programas de rádio, em gabinetes de parlamentares e no seu Web site, que revisou no mês passado, inserindo os dizeres: "Um norte-americano solitário luta contra os políticos para localizar armas de destruição em massa".

Gaubatz está longe de ser um solitário nesta batalha, e alguns políticos são aliados assumidos da sua causa. Ele é apenas um dentre um conjunto de norte-americanos loquazes e diferentes, a maior parte deles de direita, cuja busca pelas armas não convencionais de Saddam Hussein continua.

Mais de um ano após a Casa Branca, arcando com um custo político considerável, ter aceitado o veredicto das agências de inteligência de que Saddam Hussein destruiu os seus arsenais na década de 1990, esses norte-americanos têm uma fé inabalável na existência de tais armas.

Entre os que crêem nisso estão alguns membros do Congresso. Dois republicanos, o deputado Peter Hoekstra, de Michigan, presidente do Comitê de Inteligência da Câmara, e o senador Rick Santorum, da Pensilvânia, deram uma entrevista coletiva à imprensa na última quarta-feira para anunciar: "Nós encontramos armas de destruição em massa no Iraque".

Oficiais de inteligência norte-americanos organizaram rapidamente uma coletiva à imprensa na quinta-feira (22/06) para esclarecer a questão.
Hoekstra e Santorum estavam se referindo a um relatório do exército que mencionou a existência de cerca de 500 munições contendo gás mostarda ou sarin "degradados", todas elas fabricadas antes da Guerra do Golfo de 1991, e encontradas em diversas regiões do Iraque desde 2003.

Segundo as autoridades, a existência de tais munições já foi anunciada anteriormente, e o fato não faz com que o governo modifique a sua conclusão.

Tais declarações oficiais dificilmente implicarão em um fim da polêmica para esses crentes, alguns dos quais contam com credenciais impressionantes.

Entre eles está Thomas G. McInerney, general da reserva da força aérea e comentarista da rede de TV Fox News, que disse na televisão que as aramas estão em três locais na Síria e um no Líbano, tendo sido transferidas com a ajuda dos russos às vésperas da guerra.

"Eu acredito firmemente nisso, e tudo o que descobri torna a minha crença mais firme", disse McInerney, que passou para a reserva em 1994. "Me impressiona o fato de a grande imprensa não ter investigado este fato".

Também faz parte do grupo de caçadores de armas Duane R. Clarridge, um oficial de inteligência há muito tempo aposentado da Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês), que afirma acreditar que as armas foram transferidas para o Sudão por navio.

"E achamos que sabemos que navio foi esse", declarou ele em uma entrevista recente.

Os caçadores de armas se apegam às justificativas originais apresentadas pelo governo para fazer a guerra. Estas justificativas foram expressas pelo presidente três dias antes do início dos bombardeios, em 2003. "Não há dúvida de que o regime iraquiano ainda possui e oculta algumas das armas mais letais já concebidas", disse Bush à época, em um discurso à nação.

Em fevereiro passado, os caçadores de armas se sentiram encorajados quando fitas de Saddam falando com os seus principais assessores sobre o seu arsenal foram divulgadas no Encontro de Cúpula de Inteligência, uma reunião privada de 600 ex-espiões, ex-militares e aficionados da espionagem, no norte do Estado de Virgínia.

"Nós reabrimos a questão das armas de destruição em massa em um grande estilo", disse John Loftus, organizador da conferência.

Em março, sob pressão do Congresso, o diretor de Inteligência Nacional, John D. Negroponte, começou a publicar na Internet milhares de documentos iraquianos capturados. Alguns oficiais de inteligência se opuseram à iniciativa, temendo um surto descontrolado de especulações e intrigas amadorísticas.

Mas os caçadores de armas se sentiram encorajados e começaram a se debruçar sobre os documentos em busca de pistas.

Gaubatz, 47, que atualmente é o investigador chefe do Departamento de Medicina Forense do Condado de Dallas, disse que sabe que muita gente pode achá-lo um doido.

"Não me importo em passar por situações embaraçosas", disse ele, espalhando sobre mesa de jantar fotos, mapas e notebooks que documentam as suas descobertas, durante uma entrevista na sua casa em Denton. "Eu só trouxe isto à tona quando a Casa Branca afirmou que a caçada às armas de destruição em massa acabara".

Na semana passada, Gaubatz obteve uma vitória. Ele apresentou o seu caso a funcionários da Agência de Inteligência de Defesa em Dallas. A reunião foi marcada depois da intervenção de Hoekstra e do deputado Curt Weldon, da Pensilvânia, republicano que faz parte do Comitê da Câmara para Questões das Forças Armadas. Weldon falou com Gaubatz no mês passado durante uma longa reunião.

"Hoekstra afirmou em várias ocasiões que precisamos saber o que aconteceu com as armas de destruição em massa de Saddam Hussein", informou o porta-voz de Hoekstra, Jamal Ware. "Ele está determinado a garantir que analisemos a inteligência de pós-guerra de forma correta".

As informações oficiais de inteligência do pós-guerra sobre as armas foram coletadas e analisadas pelo Grupo de Pesquisa do Iraque, cujos 1.200 membros passaram mais de um ano vasculhando locais suspeitos de conterem armas químicas, biológica e nucleares, e entrevistando iraquianos.

O relatório final do grupo, redigido por Charles A. Duelfer, assessor especial da CIA para questões de armamentos, concluiu que quaisquer arsenais foram destruídos muito antes da guerra, e que as transferências para a Síria são "improváveis".

"Nós não visitamos cada centímetro quadrado do território iraquiano", admitiu Duelfer em uma entrevista. "Isso teria sido impossível. E tampouco investigamos cada boato que surgiu".

Mas ele garantiu que funcionários importantes do governo de Saddam Hussein, que contaram com todos os incentivos para colaborar com os norte-americanos, revelando a existência de arsenais, o convenceram de que as armas não mais existiam.

Duelfer acrescentou que permanece receptivo a novas evidências.

"Vi muita gente bem intencionada que achava ter visto algo importante", disse ele. "Mas nenhum dos relatos dessas pessoas resultou em fatos concretos".

A caçada às armas é algo que atrai nitidamente Gaubatz, que passou 23 anos na força aérea, a maior parte desse período investigando assassinatos, uso e tráfico de drogas e outros casos criminais para o Departamento de Investigações Especiais. Ele se aposentou em 1999, e trabalhou como investigador para a Target, a rede de lojas, mas logo retornou às agências de investigação como civil.

Após os ataques de 11 de setembro de 2001, Gaubatz passou um ano aprendendo árabe, e em fevereiro de 2003 foi enviado à Arábia Saudita, e a seguir ao Iraque, após o início da guerra.

Instalado nas proximidades de Nasiriyah, ele e um colega saíam em um veículo utilitário às seis da manhã e passavam os dias conversando com quem quer que vissem - beduínos de tribos, agricultores, funcionários de hospitais, ex-militares, policiais e burocratas.

Segundo ele, finalmente os iraquianos o levaram a quatro locais onde achavam que havia armas químicas escondidas em bunkers subterrâneos ou, em um dos casos, sob o Rio Eufrates.

"Ficamos bastante empolgados", relembra Gaubatz. "Mal podíamos esperar para retornarmos e escrevermos os nossos relatórios".

Um funcionário da agência de investigação que pediu que o seu nome não fosse revelado disse que Gaubatz era tido como "um agente bom e entusiasmado".

Segundo Gaubatz, quando os locais que identificou não foram investigados, ele ligou para a 75ª Força-Tarefa de Exploração de dois em dois dias, e mais tarde para o Grupo de Pesquisa do Iraque, suplicando sem sucesso a quem quer que atendesse o telefone que enviasse uma equipe dotada de equipamento pesado de escavação. "Eles me diziam: 'Estamos em uma zona de combate. Não contamos com pessoal e equipamento para uma tarefa desse tipo'", contou Gaubatz.

Os seus informantes foram ficando furiosos. "Eles me disseram: 'Nós arriscamos as nossas vidas e as nossas famílias para ajudá-lo, e nada aconteceu'", disse Gaubatz.

Ele ficou desiludido.

"Não imaginei que teria que travar uma batalha para que eles fizessem as buscas", declarou o caçador de armas. "Um dos principais motivos para fazermos a guerra foi a busca das armas de destruição em massa".

Gaubatz retornou para casa em meados de julho de 2003, e se aquietou, morando com a mulher, Lorrie, e a filha, Miranda, de sete anos. Ele diz que continuou a fazer lobby pelas buscas, mas os seus informantes iraquianos e colegas da força aérea lhe disseram que até o momento não aconteceu busca alguma.

Nas suas duas reuniões na semana passada com funcionários da Agência de Inteligência de Defesa - reuniões que a agência confirma terem ocorrido, mas sobre as quais se recusa a fazer comentários - ele analisou com os oficiais de inteligência fotos de satélites dos supostos locais onde estariam escondidas as armas.

"Eles estavam muito interessados" garantiu Gaubatz. "Porém, ainda temo que ninguém vá até lá procurá-las".

Gaubatz modificou os dizeres no seu Web site para advertir a nação: "O meu Web site continuará existindo até que os locais que indiquei sejam investigados". Danilo Fonseca

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