UOL Notícias Internacional
 

25/06/2006

Futuro de Robert Kennedy Jr. gera especulações

The New York Times
Mark Leibovich

Em San Francisco
Uma das lembranças de família de Robert F. Kennedy Jr. é uma foto de infância dele no Escritório Oval, com o presidente John F. Kennedy, seu tio. Na época com 9 anos, Kennedy --que ainda é conhecido como Bobby-- tinha acabado de dar ao presidente uma salamandra pintada em um pequeno jarro. A salamandra parecia estar morta.

Eros Hoagland/The New York Times - 9.jun.06 
O advogado Robert Kennedy Jr., que empolga a esquerda americana com ativismo ecológico e ataques a Bush
"Ela não me parece bem", o presidente Kennedy disse a Bobby enquanto observavam o bicho. O presidente a cutucou com uma caneta, sem obter reação. "Eu estava em negação", disse Bobby Kennedy, explicando que ele provavelmente condenou a salamandra ao mantê-la em água clorada.

Sem dar muito significado a uma salamandra morta, a foto exibe algumas das características essenciais de Bobby Kennedy: sua presença de fato nos círculos reais, sua audácia infantil e o antigo apreço pelos animais (mesmo aqueles que matou).

Atualmente com 52 anos, Kennedy é um dos advogados e defensores ambientalistas mais proeminentes do país. Ele claramente ficou traumatizado por seu ato juvenil de insensibilidade ambiental e jurou que quando fosse adulto se tornaria um protetor fervoroso de todas as salamandras do planeta.

Ou talvez isto seja um exagero, uma interpretação excessiva de uma simples foto. (Às vezes um salamandra morta é apenas uma salamandra morta.) Mas isto faz parte da história da família --as especulações, as análises exageradas-- e seria particularmente inevitável para qualquer um que carregue o nome Robert F. Kennedy Jr.

Kennedy presidiu na semana passada a conferência anual da Waterkeeper Alliance, uma assembléia de 153 "zeladores" de todo o mundo encarregados da proteção das mais vulneráveis bacias hidrográficas do planeta, na maioria dos casos por meio de processos judiciais ou ameaça de.

Na última quarta-feira (21/06), os zeladores de rios, baías, litorais, deltas, canais e lagos tomaram três ônibus híbridos-elétricos de emissão zero e se dirigiram para a Treasure Island, na Baía de San Francisco. Lá eles jantaram em pratos biodegradáveis e se revezaram em breves discursos. Eles falaram de compromisso, desprezo pelos poluidores industriais e da admiração por Bobby Kennedy.

"Obrigado por lutar por nossas águas, Bobby", disse Leo O'Brien, diretor executivo da San Francisco Baykeeper. "E obrigado por lutar pela democracia."

Recentemente, grande parte da atenção de Kennedy está voltada à democracia, tendo saltado audaciosamente em pântanos políticos que transcendem o ambiente. Ele agitou a blogosfera e os programas de notícias da TV a cabo neste mês após declarar --em um artigo que escreveu para a revista "Rolling Stone"-- que os republicanos roubaram a eleição presidencial de 2004 por meio de uma série de fraudes eleitorais.

"Eu estou convencido de que o partido do presidente montou uma campanha maciça, coordenada, para subverter a vontade popular em 2004", escreveu Kennedy em um artigo extenso, repleto de notas de rodapé, que se apoiava fortemente na pesquisa de artigos publicados por outros.

Ele repetiu a acusação na "Air America", a rede liberal de rádio na qual é co-apresentador de um programa, e em uma série de programas de entrevista na televisão (com Stephen Colbert, Wolf Blitzer, Tucker Carlson e Chris Matthews).

Kennedy está associando seu nome icônico a uma causa que antes estava restrita aos blogs liberais. Quase todos os líderes democratas e grandes veículos de mídia ignoraram suas acusações e, sem causar surpresa, os simpatizantes de Bush as ridicularizaram. Tracy Schmitt, a secretária de imprensa do Comitê Nacional Republicano, acusou Kennedy de "perder tempo com uma teoria de conspiração que foi amplamente desacreditada há quase dois anos".

Farhad Manjoo, do "Salon.com", escreveu: "Se você ler o artigo de Kennedy, se prepare para abrir caminho por vários erros de interpretação e sua omissão deliberada de dados chaves".

É impossível ler o artigo da "Rolling Stone" sem se perguntar como as acusações audaciosas de Kennedy se relacionam à sua evolução filosófica ou mesmo se afetarão sua viabilidade política. Naturalmente, lhe perguntam o tempo todo sobre o que ele prevê para si mesmo e, especificamente, a que cargo planeja concorrer.

"Eu diria diariamente", ele disse sobre a freqüência com que isto lhe é perguntado. Como se o manto de um dos maiores defensores ambientais do país não fosse suficiente para satisfazer um Kennedy. Ele esteve próximo de concorrer a promotor público do Estado de Nova York neste ano. "Muito, muito próximo", ele disse, mas optou por não concorrer, temendo o efeito que teria sobre sua esposa, Mary, e seus quatro filhos. (Ele tem dois outros filhos de um casamento anterior.)

Todavia, talvez mais do que qualquer outro Kennedy de sua geração, ele é considerado como o próximo vaso potencial para Algo Maior. Em palavras, temperamento e ações, ele transmite uma vibração de inquietação que convida a perguntas como "O que mais? O que virá a seguir?"

No encontro da Waterkeeper Alliance, ele passava de conversa a conversa, apresentando pessoas, contatando as bases, batendo agitadamente o pé direito no chão nos raros segundos ociosos. Ele também possui o aspecto e o estilo de falar dos Kennedy, apesar de uma condição neurológica genética, disfonia espasmódica, que ele desenvolveu aos 40 anos, que sobrecarrega sua fala e pode fazê-lo soar como se estivesse sufocando.

"Ele é o único orador no movimento ambientalista que é capaz de falar por 20 minutos, depois falar por 40 e você deseja que ele prossiga", disse Carl Pope, o diretor executivo do Sierra Club.

O senador Edward M. Kennedy disse em uma entrevista por telefone que seu sobrinho "tem uma certa qualidade de Flautista de Hamelin" e descreveu uma cena típica na propriedade da família em Hyannisport, Massachusetts, na qual seu sobrinho hipnotiza 30 crianças com demonstrações sobre a natureza, geralmente envolvendo animais ou peixes.

Um dos temas recorrentes na órbita dos amigos de Kennedy é a "história de Bobby", uma ação ou vinheta que é quintessencial do homem. Na maioria dos casos, a "história de Bobby" envolve algum tipo de ato espontâneo, audacioso, como saltar impacientemente da cadeira do teleférico, saltar de um penhasco ou ser anfitrião de mais de 100 pessoas nos jogos hipercompetitivos de Captura da Bandeira, em sua casa de 4 hectares em Mount Kisco, Nova York (que inevitavelmente resulta em pelo menos uma viagem ao pronto-socorro).

"Ele tem um metabolismo realmente intenso", disse Andrea Raisfeld, uma amiga da família e participante freqüente do que ela descreveu como "estas brincadeiras de adultos".

Kennedy sempre viveu sua vida perto da natureza e no limite. O terceiro de 11 filhos de Robert F. Kennedy e Ethel Skakel Kennedy, ele costumava ficar atento às formigas em seu berço, sua mãe lhe contou. Quando era pequeno, ele montou um zoológico na casa da família na Virgínia, que chegou a conter cerca de 40 répteis e aves a certa altura. Ele começou a criar pombos-correios aos 7 anos e a se dedicar à falcoaria aos 9 anos, além de sempre ter tido a inclinação da família por esportes de alta velocidade e risco como esqui, esqui aquático e hóquei.

Ele tinha 14 anos, em junho de 1968, quando o reitor da Escola Preparatória de Georgetown o acordou para lhe dizer que seu pai tinha sido baleado. Ele voou para a Califórnia, onde seu pai tinha acabado de vencer a eleição primária democrata. Ele estava no hospital quando seu pai morreu.

Kennedy se formou em Harvard e na Escola de Direito da Universidade da Virgínia. Ele recebeu o mestrado em lei ambiental pela Universidade Pace, onde atualmente é professor de Direito.

Em 1983 ele entrou para um programa de tratamento para viciados em drogas depois de ter sido preso em Dakota do Sul por posse de heroína. Desde então ele nunca mais usou drogas e freqüenta regularmente as reuniões, disse Kennedy, se recusando a falar mais sobre o assunto.

"Eu acho, de forma dramática, que o fato de Bobby ter sobrevivido, assim como sua determinação em chegar a um estado mental onde possa ser construtivo, é um aspecto central dele", disse Edward M. Kennedy. "Ele enfrentou enormes desafios, alguns enormemente sérios."

Em 1984, seu irmãos mais novo, David Kennedy, morreu de overdose. Em 1997, outro irmão mais novo, Michael, morreu após se chocar contra uma árvore enquanto estava esquiando em Aspen, Colorado. Elas fazem parte da ladainha de tragédias exaustivamente documentadas dos Kennedy, que criam um prisma pelo qual a inclinação por riscos de Kennedy é analisada. Até que ponto ele está tentando o destino?

Como é hábito da família, ele não é dado à preocupação pública quanto às perdas de sua família. "Eu acho que Deus está encarregado disto", ele disse sobre quem vive e quem morre. "Você deve fazer o que tem que fazer. E acontece o que tiver que acontecer."

Peter Kaplan, o editor do "New York Observer" e um dos maiores amigos de Kennedy desde que se conheceram como colegas de dormitório na faculdade, disse que não se preocupa. "Bobby realmente ama a vida e cuida muito bem de si mesmo", disse Kaplan. "A segunda parte da resposta é, ele realmente ama sua vida e não a viveria de outra forma que não o envolvimento completo consigo mesmo e com a natureza."

Edward M. Kennedy, que como seu sobrinho perdeu irmãos muito cedo, disse: "Eu acho que ele sente que tem que viver pelas muitas pessoas que perdeu."

O senador fez estes comentários no contexto do estilo de vida e trabalho político de seu sobrinho. Os amigos disseram que Kennedy tem ajustado gradualmente suas prioridades ao longo dos anos Bush. Ele ampliou sua noção de que é preciso fazer o que deve ser feito. Ao longo de sua vida profissional ele esteve identificado com o movimento ambientalista.

"Agora, para Bobby, há algo mais fundamental do que proteger o meio ambiente", disse sua amiga Laurie David, a defensora liberal e produtora de "An Inconvenient Truth", o documentário de Al Gore. "Ele teme que o país esteja se perdendo, que a democracia esteja em risco."

Kennedy disse que tem "continuamente expandido minhas áreas de interesse". Sua recente atenção à eleição de 2004 existe neste contínuo, ele acrescentou.

Ele ouviu os comentários sobre os supostos abusos ocorridos em Ohio, as máquinas de votação que falharam e os eleitores das minorias que aguardaram horas em filas para votar. Mas ele permaneceu cético ou complacente. "Eu me mantive deliberadamente vendado como grande parte da mídia", ele disse, deplorando a preocupação excessiva da imprensa com "Brad e Angelina e com a equipe de lacrosse de Duke".

Então Kennedy passou o Natal esquiando em Sun Valley, Idaho, na casa de Laurie David e seu marido, Larry David, o criador de "Seinfeld" e protagonista de "Curb Your Enthusiasm". Larry David lhe pediu para que lesse um livro sobre a eleição de 2004 de autoria do crítico Mark Crispin Miller.

Kennedy o fez e poucos dias depois estava esquiando com o editor da "Rolling Stone", Jann S. Wenner, um velho amigo e morador de Sun Valley. Kennedy sugeriu que Wenner publicasse um artigo sobre a "eleição roubada". Wenner disse que o faria, desde que Kennedy o escrevesse. Ele escreveu um artigo muito discutido e muito criticado para a "Rolling Stone" no ano passado, ligando as vacinas para crianças ao aumento do autismo.

Após certa hesitação, disse Kennedy, ele concordou em escrever o artigo sobre a eleição. Desde que foi postado no site da "Rolling Stone" de 1º de junho, a Internet está dividida entre aqueles que acreditam que esta é a maior história não noticiada de todas e aqueles que acham que é notícia velha, desacreditada há muito tempo. Kennedy disse que é difícil provar que qualquer eleição foi "roubada".

"Se você está à procura de prova e certeza, você não vai encontrar", ele disse. De qualquer forma, Kennedy disse estar comprometido a estimular o ultraje a 2004, onde quer que isto leve. "Isto permanecerá minha preocupação central por ora", ele disse, acrescentando: "A América deveria estar indignada". Mas ela está, com a exceção de certos blogs e rádios liberais? O Congresso não foi exatamente sacudido por discursos sobre o assunto ou por pedidos de investigação.

Em uma entrevista por telefone, Wenner disse que John Kerry, o maior perdedor em 2004, "não questiona a validade do artigo", não exatamente um sinal de ultraje.

O senador Christopher Dodd, democrata de Connecticut, um antigo defensor de reforma eleitoral, considerou o artigo "tremendamente persuasivo". Mas não persuasivo o bastante para falar a respeito: os comentários de Dodd foram transmitidos por uma declaração de seu gabinete.

Kennedy considerou o silêncio de democratas proeminentes "uma grande decepção", mas se declarou inabalado. Se algo, ele disse, a experiência o deixou mais disposto a concorrer a um cargo que antes.

"Está tudo nas mãos de Deus", ele disse na noite de quarta-feira no Treasure Island, com o sol se pondo sobre a Ponte Golden Gate. Ele estava cercado por ambientalistas que trocavam histórias sobre a proteção dos recursos de água do planeta (enquanto sorviam outros recursos líquidos).

"Eu só posso controlar minha própria conduta", disse Kennedy, dando de ombros. "E planejo cair lutando." Sobrinho do presidente Kennedy é ecologista atuante e crítico do governo Bush -- ele escreveu artigo em que acusa republicanos de terem fraudado a eleição presidencial de 2004 George El Khouri Andolfato

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