UOL Notícias Internacional
 

25/06/2006

Pais gastam cada vez mais para transformar os filhos em super atletas

The New York Times
Jennifer Alsever
Em Nova York
Os pais de Beau Fraser gastaram US$ 30 mil para ajudá-lo a se tornar um atleta melhor.

Desde quando Beau tinha dez anos de idade, os seus pais, Bayle e Brian Fraser, da cidade de Aptos, na Califórnia, contrataram técnicos profissionais e treinadores particulares, além de pagarem por exames de capacidade atlética, colônias de férias de beisebol, torneios e viagens com times de elite --isso sem falar dos custos de viagem da família inteira, para ver o garoto jogar.

A ajuda extra pode ajudar ou não a transformar Beau em um jogador profissional de beisebol, mas, aos 16 anos, ele é um catcher (receptor de bolas) no time da sua escola de segundo grau. "Cada ajuda, por menor que seja, é importante", diz ele.

À medida que aumenta o amor dos Estados Unidos pelos esportes, mais crianças estão se concentrando em um esporte em uma idade menor --às vezes já aos quatro anos de idade-- e treinando durante o ano inteiro. Para sustentar esse ritmo, os pais gastam milhares de dólares com filiação em equipes, treinamento pessoal e até escolas esportivas particulares, na esperança de transformar os filhos em atletas de alto nível, ou de conseguir bolsas de estudo em uma universidade ou faculdade, concedidas a desportistas promissores.

Porém, freqüentemente os investimentos podem não fazer nada mais do que ajudar os filhos a ingressar no time da escola. "Nós somos um sinal dos tempos", diz Gayle Fraser. "Se eles não participam de uma equipe itinerante, a probabilidade é que não façam parte das equipes principais da escola de segundo grau".

Gary Mayes, assim como alguns outros pais, não se sente inteiramente confortável com toda essa competitividade, mas mesmo assim ele abre a carteira para garantir que o seu filho Kely, 17, tenha uma chance de praticar os esportes que adora.

"Geralmente é algo meio descontrolado", diz Mayes, um técnico de beisebol em Huntsville, no Estado de Alabama. "Os pais que têm dinheiro acabam dando aos filhos todas as oportunidades possíveis, e via de regra não há limites".

Alguns pais pagam entre US$ 200 e US$ 400 por novos tacos de beisebol, diz ele, e US$ 60 por hora a treinadores particulares para melhorar a capacidade atlética dos filhos. Segundo ele, os atletas que não contam com uma ajuda extra tendem a ficar para trás.

Mayes desembolsou entre US$ 2.000 e US$ 4.000 por ano, durante oito anos, para que o seu filho pudesse jogar em um time itinerante de hóquei sobre o gelo. Os custos são referentes a equipamentos, torneios e gasolina, assim como a acomodações em hotéis e passagens aéreas para a família. Ele muitas vezes transformou a viagem de esportes em férias de família.

"Não se trata apenas de investir na oportunidade dos seus filhos", diz ele. "A gente também passa mais tempo com eles. E isso é algo que não tem preço".

Colônias de férias esportivas, escolas particulares de esportes e outros negócios estão surgindo em grande quantidade para atender à demanda, que disparou nos últimos cinco anos.

A Velocity Sports Performance, com sede em Alpharetta, no Estado da Geórgia, opera 65 unidades de treinamento esportivo em todo o país, que trabalham com atletas notáveis em várias áreas, como Jeremy Bloom, o esquiador, e Charlie Villanueva, da equipe de basquete Toronto Raptors. Mas, cada vez mais, esses centros estão atendendo também às crianças.

Cerca de 130 mil jovens procuram os centros Velocity anualmente, pagando de US$ 15 a US$ 45 por uma sessão que dura de uma hora a 90 minutos, duas ou três vezes por semana. Eles recebem orientação técnica genérica sobre força, velocidade e agilidade. As vendas da Velocity estão aumentando 30% ao ano, e neste ano serão abertos mais 35 centros em regime de franchise, segundo David B. Walmsley, co-fundador e diretor-executivo da empresa.

E o Sparq Training, em Portland, no Estado de Oregon, criou um negócio baseado na venda de equipamentos computadorizados de testes atléticos e outros produtos, como cones e medicine balls, além do fornecimento de técnicos, centros de treinamentos e campos para prática esportiva. Muitos estudantes conhecem a companhia devido ao seu teste Sparq Rating, que analisa as suas capacidades para esportes específicos e lhes apontam metas a serem alcançadas.

A companhia deve submeter 245 mil estudantes ao teste neste ano nas suas clínicas, campos e escolas. Os testes são muitas vezes gratuitos, mas a companhia espera vender mais de US$ 10 milhões em equipamentos necessários para realizá-los em centros de treinamento e campos esportivos, afirma Andy Bark, um dos fundadores da Sparq.

Os gastos com jovens atletas também são feitos com treinadores individuais como Andy McCloy, que diz ser um especialista em aumento de performance. Ele trabalha com cerca de 60 aspirantes a atleta por semana em Huntsville, cobrando entre US$ 30 e US$ 150 por hora para melhorar o vigor e a velocidade dos alunos. Ele também gerencia programas de esportes de seis semanas, que custam aos alunos de US$ 250 a US$ 450.

Segundo McCloy, as mais recentes táticas de treinamento podem ajudar as crianças menos dotadas sob o ponto de vista atlético a competirem melhor. "A demanda está aumentando sem parar, e não percebo uma tendência à desaceleração", afirma McCloy. "Os pais são competitivos e não querem que os filhos sejam deixados para trás".

Os pais de atletas sérios podem tentar uma outra rota, gastando até US$ 40 mil por ano para colocar os filhos em escolas particulares orientadas para os esportes, e que contam com técnicos profissionais e treinadores de renome mundial.

Na IMG Academies, em Brandenton, na Flórida, mais de 700 alunos com idades entre dez e 18 anos praticam no decorrer do ano letivo tradicional modalidades esportivas como tênis, golfe, futebol, beisebol e basquete. A Academia Pendleton, no campus da IMG, gerencia o treinamento dos alunos.

Mais da metade dos alunos mora em um campus de 121 hectares, podendo praticar o seu esporte várias horas ao dia, dependendo do programa escolhido. Mais de 85% dos alunos que lá se formam recebem bolsas de estudos para universidades, informa a escola. Cerca de 12 mil alunos adicionais participam dos programas semanalmente todos os anos.

A fim de ajudar o seu filho, Alex, a ganhar uma bolsa de estudos, Stephen Pettee, de Newhall, na Califórnia, o matriculou em uma escola pública de segundo grau, a William S. Hart, na cidade de Santa Clarita, conhecida por produzir astros do futebol americano como Kyle Boller, do Baltimore Ravens.

Pettee também pagou pelos serviços da National Scouting Report, uma companhia de Alabaster, no Alabama, que promete divulgar os talentos esportivos de Alex nas universidades.

A National Scouting Report criou um vídeo sobre o desempenho de Alex no campo, e um website pessoal com fotos, biografias e notícias sobre o adolescente. Um representante da empresa mantém contato regularmente com as universidades para fazer propaganda de Alex. O custo disso tudo é US$ 2.300.

"O número de cartas de universidades que manifestam interesse por Alex realmente aumentou desde que tomamos essa iniciativa", garante Pettee, que investiu em cursos e em treinamento pessoal em beisebol, basquete e futebol americano nos últimos anos. "Ele não precisa de uma bolsa de estudos, mas o processo é divertido", acrescenta Pettee. "A faculdade é, sem dúvida alguma, um projeto caro".

À medida que sobem as mensalidades das universidades, um número cada vez maior de pais procura obter bolsas de estudo para os filhos, segundo a National Scouting Report, que auxiliou neste ano 4.000 alunos a tentarem conseguir tais bolsas de estudos.

Mas é relativamente raro que os alunos recebam bolsas de estudos esportivas substanciais, diz Dave Galehouse, co-autor do livro "The Making of a Student Athlete" ("A Fabricação de um Atleta Estudante"), um guia para seleção de universidades e faculdades, dicas para facilitar o recrutamento e para se tornar atleta de uma instituição de ensino de nível superior.

Segundo ele, em muitas universidades e faculdades somente os atletas excepcionais em esportes que não sejam grandes atrações, como o futebol americano e o basquete, recebem bolsas de estudos integrais. As bolsas de estudos parciais, que costumam oferecer apenas US$ 1.000, são bem mais comuns.

"Esses garotos têm pais que estão gastando milhares e milhares de dólares", diz Galehouse. "Creio que muita gente está superestimando os valores das bolsas que obterão".

Os desperdícios financeiros e o foco nos esportes juvenis geram críticas de alguns especialistas em esportes e psiquiatria infantis, que temem que essa seja mais uma indicação de que os pais norte-americanos se tornaram superpreocupados com esportes, passando a exercer muita pressão sobre os filhos. Segundo eles, os resultados disso incluem excesso de atividades, desencorajamento e lesões.

"A tarefa de criar os filhos se transformou no esporte mais competitivo dos Estados Unidos", adverte Alvin Rosenfeld, psiquiatra infantil e autor do livro "The Over-Scheduled Child: Avoiding the Hyper-Parenting Trap" (algo como, "A Criança Superocupada: Evitando a Armadilha do Excesso de Cuidados com os Filhos"). "Isso é algo que rouba a infância das crianças".

Steve Spinner criou a Sports Potential, uma companhia em Menlo Park, na Califórnia, que tem como meta alertar para tais problemas - por exemplo, instruindo os pais a colocarem os filhos apenas naqueles esportes para os quais estes estão prontos. Ele fundou a companhia com o auxílio de Bill Bradley, o astro do basquete que se tornou político.

A Sports Potential vende um teste no valor de US$ 135, chamado Smart, que analisa as habilidades cognitivas e físicas de crianças de oito a 12 anos para determinar o potencial delas em 38 esportes. Como parte dos resultados, filhos e pais têm acesso a um website pessoal, no qual podem aprender táticas e termos esportivos, além de formas de monitorar o progresso obtido.

A companhia começará a testar milhares de alunos neste verão em parques e departamentos recreativos, e em campos esportivos em Dallas, Boston e São Francisco, informa Spinner. No ano que vem, a companhia pretende expandir a sua atuação para mais dez cidades.

"As pesquisas provam que nem toda criança está pronta para todos os esportes na mesma idade", diz ele. "A participação no esporte errado, sem que se leve em conta os fatores atléticos, pode gerar frustração, exaustão e perda de entusiasmo por todos os esportes. Nós nos dedicamos a ajudar os pais a orientar melhor os filhos". O novo esporte competitivo: preparar crianças para serem campeãs Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,235
    Outras moedas
  • Bovespa

    18h20

    -0,10
    74.518,79
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host