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27/06/2006

A história americana contada por idéias e ideais

The New York Times
Michael Janofsky
Em Washington
Quando dois dos preeminentes museus da Instituição Smithsonian reabrirem no sábado (01/7), depois de seis anos em reforma, os visitantes ficarão surpresos de saber que antes as coleções competiam entre si, com pouco mais em comum do que o prédio subjugado que as abrigava.

O American Art Museum e a National Portrait Gallery, inquilinos do venerado Escritório de Patentes dos EUA, agora compartilham um interior reformado com mais espaço de exibição, mais luz, arcos amplos e entradas comuns para suas interpretações intersecional da história americana.

Andrew Councill/The New York Times 
Homem visita o American Museum of Art, que reabre no próximo sábado, em Washington

A reforma de US$ 300 milhões (em torno de R$ 690 milhões), patrocinada pelo Congresso e doações privadas, deixou os museus separados apenas no nome. Havia um excesso de escritórios e paredes que estreitava os espaços internos e foi removido, dando lugar a andares que levam os visitantes de um museu ao outro. No primeiro andar, por exemplo, o American Art Museum ocupa o lado oeste, e a Portrait Gallery, o leste. No segundo andar, eles trocam de posição.

Os dois colaboram para contar a história americana, um por meio de idéias, outro por ideais; um usa temáticas, o outro retratos; os dois celebram as forças e figuras complexas que formularam o país desde épocas pré-coloniais.

Há Charles Willson Peale, Gilbert Stuart e George Catlin; obras de Mathew Brady, Winslow Homer e Georgia O'Keeffe. As mostras principais contam com 1.800 peças. A maior parte já era do acervo, mas algumas recém foram adquiridas. Além da mostra principal outras 3.300 são apresentadas em novos espaços, com fileiras e fileiras de gabinetes de vidro nos andares superiores. Ao todo, há cinco vezes mais peças apresentadas do que antes, no prédio que é um dos mais antigos de Washington, fechado em 2000.

As mostras principais geralmente seguem uma ordem cronológica, convidando o público a acompanhar o crescimento do país pela evolução artística, pela expansão e eventos políticos. Os cenários agrícolas exuberantes do período da fundação, no American Art Museum, dão espaço aos horrores da Guerra Civil, depois a cenas fortes da industrialização e dos caprichos da vida moderna. A Portrait Gallery, que já foi território de homens brancos mortos, ainda tem seus presidentes --o único conjunto completo em Washington fora da Casa Branca-- mas agora homenageia a diversidade do país.

Há mostras especiais, como fotografias de monumentos e memoriais para mostrar como os EUA se lembram de seus heróis, uma sala de gravuras de William H. Johsnon, refletindo as vidas de afro-americanos comuns; e uma galeria celebrando os direitos civis, direitos dos gays e dos deficientes.

A antiga regra de "morto há 10 anos" foi banida, então vemos ativistas como Gloria Steinem e Rosa Parks; autores como Toni Morrison, Tom Wolfe e John Updike; músicos como Ray Charles e Lionel Hampton; e atletas como Lance Armstrong e Shaquille O'Neal.

Cada museu tem seus astros. Na galeria, o retrato "Lansdowne", de Stuart, mostra George Washington perto do fim do segundo mandato. A obra antes era emprestada por seu proprietário britânico, mas foi adquirida durante a reforma. A galeria presidencial também inclui a última fotografia conhecida de Abraham Lincoln, tirada apenas um mês antes de sua morte, e o abstrato de John F. Kennedy por Elaine de Kooning.

No American Art Museum, uma vista de Manhattan por O'Keeffe, pintada em 1932, inclui três rosas ao acaso, como se sugerisse o futuro. Outra obra proeminente é o gigantesco mural de Thomas Hart Benton, que curadores resgataram de um espaço mais obscuro no museu. Um recém adquirido mapa de néon dos EUA, por Nam June Paik, com sons e retratos emanando de cada um dos 50 Estados, recebeu sala própria.

Alguns trabalhos são provocativos, talvez esperando gerar algo mais que debate: um pouco de desconforto. A coleção contemporânea do American Art Museum inclui uma gueixa japonesa pintada por Msami Teraoka, em 1989. De perto, vê-se que está abrindo um pacote de preservativos com os dentes, enquanto olha para um esqueleto meio aparente.

Elizabeth Broun, diretora do American Art Museum, negou a possibilidade de conservadores se sentirem mal com a imagem. "Não posso imaginar uma pessoa em nossa sociedade que não ache apropriado admitir a Aids e seu impacto", disse ela. "A arte não é sempre sobre coisas bonitas. É sobre quem somos, o que aconteceu conosco e como nossas vidas são afetadas."

E no momento em que o público pode se sentir seduzido pelos finalistas em uma competição da Portrait Gallery, que exigiu que o tema fosse alguém que o artista conhecesse, uma obra de Steve de Frank, de New Haven, sublinha a nova energia audaciosa do museu. Seu "Mom and Dad", uma representação dos anos 60 de seus pais, feita com bulbos Lite-Brite pequenos e iluminados, mostra-os usando correntes de ouro, relógios, sorrisos e bronzeados.

A galeria presidencial oferece muito em termos de contraste. De um lado, está o George Bush mais velho, formal e presidencial. Do outro, está um Bill Clinton com o dobro do tamanho, parecendo um pouco libertino. "As pessoas lêem o tamanho como importância", disse Marc Pachter, diretor da galeria. "Mas é totalmente acidental."

Na reforma, os museus também criaram novas áreas públicas, como um espaço para o material extra, criado como forma de exibir um pouco mais da coleção permanente do museu, mesmo que os objetos não estivessem marcados e ficassem amontoados. Muitos são tão interessantes quanto os que estão nas galerias formais.

Terminais de computador fornecem dados de cada peça e biografias dos artistas. Os centros de conservação nos andares superiores são cercados de vidro, e os visitantes podem ver a equipe do museu tratar e preservar trabalhos para apresentações futuras ou armazenamento.

O prédio foi inaugurado em 1840, como Escritório de Patentes, mas serviu a outras necessidades --foi hospital na guerra civil e local do segundo baile de posse de Lincoln-- antes de a Comissão Civil assumi-lo, em 1932. Trinta anos depois, foi declarado Patrimônio Histórico Nacional

Os museus abriram em 1968 e sobreviveram à decadência do bairro, antes de sua recente retomada. Agora estão no meio de um centro comercial próspero, a passos de três linhas de metro.

Membros do museu dizem que esperam grandes multidões pouco antes do feriado de quatro de julho.

"Os dois museus contam histórias dos EUA", refletiu Broun, "um pelas lentes de biografias e indivíduos, outro pelas lentes das idéias. Quando as lentes convergem, eles nos ajudam a entender quem somos como povo."

Notas da mostra:
O American Art Museum e a National Portrait Gallery reabrem no sábado (01/7) e ficarão abertos das 11h30 às 19h diariamente, exceto no dia de Natal. Entrada gratuita. Ruas 8 e F, Washington, (202) 633-1000. Deborah Weinberg

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