UOL Notícias Internacional
 

27/06/2006

Bush diz que reportagem sobre dados bancários foi 'vergonhosa'

The New York Times
Sheryl Gay Stolberg
Em Washington
O presidente Bush condenou na segunda-feira (26/06) como "vergonhosa" a revelação pelo The New York Times e outros jornais, na semana passada, do programa secreto para investigar e rastrear terroristas por meio de um vasto banco de dados internacional que inclui as transações bancárias de americanos.

Os comentários foram os primeiros feitos por Bush em público sobre o assunto, e ocorreram enquanto o governo intensificava seus ataques aos jornais pela forma como lidaram com o assunto.

Em um discurso em Nebraska na segunda-feira, o vice-presidente Dick Cheney criticou repetidas vezes o Times nominalmente, enquanto o secretário do Tesouro, John W. Snow, rebateu como "incorreto e ofensivo"o argumento oferecido pelo editor executivo do jornal para a decisão de publicar o artigo.

"O Congresso foi informado", disse Bush. "E o que fizemos estava plenamente autorizado pela lei. E a revelação deste programa é vergonhosa. Nós estamos em guerra contra um punhado de pessoas que querem prejudicar os Estados Unidos da América, e pessoas vazarem o programa e um jornal divulgá-lo faz grande mal aos Estados Unidos da América."

O New York Times, seguido por outras organizações de notícias, começou a publicar relatos do programa na noite de quinta-feira.

Em seus comentários durante uma aparição para fotos no Salão Roosevelt da Casa Branca, Bush parecia irritado, às vezes se inclinando à frente em ênfase, apesar de não ter mencionado qualquer jornal nominalmente.

Cheney, que já tinha dito estar ofendido com os relatos na imprensa sobre o programa de rastreio financeiro, foi um passo além na segunda-feira, criticando nominalmente o Times em uma aparição separada em um evento para arrecadação de fundos para um candidato republicano ao Congresso, Adrian Smith, em Grand Island, Nebraska.

"Parte da imprensa, em particular o New York Times, tem tornado mais difícil o trabalho de defesa contra novos ataques terroristas ao insistir na publicação de informação detalhada sobre programas vitais de segurança nacional", disse o vice-presidente, acrescentando que o programa fornece "inteligência valiosa" e tem sido "bem-sucedido em ajudar a desbaratar planos terroristas".

O editor executivo do Times, Bill Keller, disse em uma declaração por e-mail, na noite de segunda-feira, que a decisão de publicar o artigo foi "difícil". Mas Keller notou que desde os ataques terroristas de 11 de setembro, o governo Bush tem "embarcado em uma série de amplos programas secretos que visam combater o terrorismo, freqüentemente sem buscar nova autoridade legal ou submetê-los à supervisão habitual".

Ele acrescentou: "Eu acho que seria arrogância de nossa parte tomar o lugar do Congresso e dos tribunais em decidir que estes programas são perfeitamente legais e à prova de abusos com base apenas na palavra do governo".

O deputado Peter King, republicano de Nova York e presidente do comitê de segurança doméstica da Câmara, divulgou uma carta na segunda-feira na qual pediu ao procurador-geral que investigue se a decisão do Times de publicar o artigo viola a Lei de Espionagem.

Em uma entrevista de televisão na segunda-feira, King descreveu a revelação como "absolutamente vergonhosa" e disse acreditar que a decisão do jornal violou o estatuto.

Em Nebraska na segunda-feira, Cheney adotou uma linguagem semelhante, lembrando sua platéia que o Times também revelou o programa secreto da Agência de Segurança Nacional (NSA) de monitoramento das comunicações internacionais de suspeitos de terrorismo sem mandado judicial. O Times recebeu o Prêmio Pulitzer, a maior honra do jornalismo, pelo artigo.

"Eu acho que é uma vergonha", disse Cheney, se referindo ao prêmio.

Membros do governo argumentaram fortemente que ao informar a operação de rastreio financeiro, o Times colocou a segurança nacional em risco ao levar a cooperativa belga que mantém os dados financeiros a se retirar do programa. No domingo, o editor executivo do jornal, Bill Keller, postou uma carta no site do New York Times na Internet, dizendo que o jornal "considera tal argumento estranho", em parte porque a cooperativa financeira é obrigada por intimação a cooperar.

Funcionários do Tesouro não buscaram mandados judiciais ou intimações para examinar transações específicas, contando em vez disso com intimações administrativas gerais para a obtenção de milhões de dados da cooperativa, conhecida como SWIFT.

Keller disse na carta que o governo apresentou um "segundo argumento" de que a publicação do artigo levaria os terroristas a mudarem de tática, mas ele disse que tal argumento foi apresentado de "forma indiferente".

Snow, o secretário do Tesouro, contestou tal posição em termos fortes em uma carta a Keller, dizendo: "Nada poderia estar mais longe da verdade". Snow disse que ele e outras importantes autoridades, incluindo democratas, fizeram "repetidos apelos" em um esforço para dissuadir a publicação pelo Times. A carta foi divulgada pelo Tesouro em uma coletiva de imprensa na noite de segunda-feira.

Ao explicar o argumento do jornal para a publicação, Keller também escreveu que não era trabalho do jornal "julgar se o programa é legal ou eficaz" --uma explicação que provocou fortes críticas de Tony Snow, o secretário de imprensa da Casa Branca, durante uma coletiva de imprensa televisionada na segunda-feira.

Snow, que não tem parentesco com o secretário do Tesouro, disse que os jornalistas fazem tais julgamentos o tempo todo, e acusou o Times de colocar vidas em risco e de ter abandonado uma antiga tradição das organizações de notícias de manter segredos do governo em tempos de guerra.

"Tradicionalmente neste país em tempos de guerra, os membros da imprensa tinham ciência de que o comandante-em-chefe, no exercício de seus poderes, às vezes precisa fazer coisas secretamente para proteger a população", disse Snow. "Este é uma mudança de conduta altamente incomum."

Snow disse que não houve esforço coordenado por parte da Casa Branca para pressionar jornalistas, ou o Times em particular, mas ele disse que o presidente parecia ávido em ter uma chance de expressar sua posição sobre a questão, e decidiu no último minuto aceitar perguntas dos repórteres na aparição para fotos na segunda-feira, após um encontro com defensores das guerras no Afeganistão e Iraque.

"Se você quer descobrir o que os terroristas estão fazendo, você tem que seguir o dinheiro deles", disse o presidente. "E isto é exatamente o que estamos fazendo. E o fato de um jornal ter revelado isto dificulta a vitória nesta guerra contra o terror."

No Capitólio, o programa de rastreio financeiro em si não gerou muitas críticas, mesmo por parte dos democratas, desde que sua existência foi revelada. Um porta-voz do senador Harry Reid de Nevada, o líder democrata, disse que Reid foi informado sobre o programa várias semanas atrás e concluiu que ele "não parece ser baseado na mesma base legal duvidosa que o vice-presidente e seus aliados invocaram para sustentar o programa de espionagem doméstica da NSA".

Uma exceção foi o deputado Ed Markey, democrata de Massachusetts, que tornou a privacidade seu tema principal e que disse, em uma entrevista na segunda-feira, que o governo Bush tem adotado uma estratégia "atire no mensageiro"ao tentar evitar a supervisão pelo Congresso do programa de rastreamento financeiro.

"Foram levantadas várias dúvidas legais e constitucionais", disse Markey, "e elas estão sendo ofuscadas por este ataque quase ad hominem (dirigido, abusivo) ao New York Times". George El Khouri Andolfato

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