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27/06/2006

Grupos rebeldes iraquianos dão abertura ao governo

The New York Times
Edward Wong
Em Bagdá, Iraque
Vários grupos rebeldes liderados pelos sunitas abordaram o governo iraquiano para tentar iniciar negociações, disse um importante legislador do partido do primeiro-ministro na segunda-feira (26/06).

A abertura ocorreu um dia depois do primeiro-ministro iraquiano, Nuri Kamal al Maliki, ter apresentado um plano limitado para reconciliação.

Os grupos ainda não fizeram exigências, mas querem expressar suas posições para importantes autoridades do governo, disse o legislador, Hassan al Suneid. "Há sinais" de "alguns grupos armados dispostos a sentar à mesa de negociação", disse Al Suneid que, como o primeiro-ministro, pertence ao Partido Islâmico Dawa, um grupo xiita conservador.

Os grupos, compostos de combatentes nacionalistas iraquianos, transmitiram suas propostas por meio de negociadores árabes sunitas, disse Al Suneid em uma entrevista por telefone. Apesar de ter descrito os grupos como armados, ele disse que "não estão envolvidos no derramamento de sangue de iraquianos".

Al Suneid se recusou a dizer quantos grupos querem negociar, quem são ou quão influentes. Há indícios de que sete facções rebeldes estariam envolvidas.

O desdobramento foi saudado por um proeminente político sunita.

"Este é um passo afirmativo e bom por parte dos grupos armados", disse Ayad al Samarraie, do Partido Islâmico Iraquiano, que detém alguns dos mais altos postos no governo. Se referindo às milícias xiitas, muitas apoiadas por partidos políticos, ele acrescentou: "Nós agora estamos à procura de outros milícias e grupos armados ligados aos partidos para ver como lidarão com este projeto".

O plano de reconciliação de Al Maliki é vago, talvez propositadamente, sobre quais grupos rebeldes o governo considera aptos como parceiros de negociação. Al Maliki disse no Parlamento, no domingo, que "para aquele que desejar construir, nós oferecemos uma mão com um ramo de oliveira".

O único ponto rígido, disseram autoridades americanas e iraquianas, é que nenhuma anistia será concedida a membros da Al Qaeda no Iraque ou guerrilheiros que visem restaurar o governo de Saddam Hussein.

A tentativa de estabelecimento de relações por parte de alguns rebeldes ocorre em um período crucial para Al Maliki e o novo governo iraquiano. A violência sectária prossegue de forma implacável, com um marine americano e pelo menos 41 iraquianos mortos ou encontrados mortos na segunda-feira.

Autoridades americanas e iraquianas disseram que Al Maliki dispõe de uma janela limitada de oportunidade para atrair as guerrilhas lideradas por sunitas para a mesa de negociação e para persuadi-las a baixar suas armas. Isto aumentou com a morte neste mês de Abu Musab al Zarqawi, o militante jordaniano que vinha estimulando confrontos sectários entre a maioria xiita e os sunitas, que governaram o Iraque por gerações antes da invasão americana.

Os americanos há muito acusavam combatentes estrangeiros como Al Zarqawi de estimular a insurreição a tomar medidas mais extremas do que as preferidas pelas guerrilhas nacionalistas iraquianas. Muitos dos combatentes iraquianos são árabes sunitas privados de direitos, amargos por terem sido removidos do poder e que temem a ascensão do fundamentalismo xiita apoiado pelo Irã. Os americanos dizem que pode ser mais fácil negociar com os nacionalistas, muitos deles do antigo Partido Baath de governo, agora que a Al Zarqawi está morto e seu grupo, a Al Qaeda na Mesopotâmia, talvez esteja em certo desarranjo.

Esta não é a primeira vez que os grupos rebeldes abordam o governo liderado pelos xiitas, disse Al Suneid. No início deste ano, estes mesmos grupos iniciaram discussões com o presidente Jalal Talabani, um poderoso curdo. Um assessor do presidente disse aos repórteres, em abril, que Talabani tinha conversado com sete grupos guerrilheiros e que um acordo "era possível".

Al Suneid disse que os grupos pareceram interpretar o mais recente plano de reconciliação como uma abertura para se chegar a Al Maliki e conduzir as negociações anteriores a um novo patamar.

"Os mediadores sunitas me disseram que há uma abordagem positiva por parte destes grupos armados em resposta à esta iniciativa", ele disse. "Eu acho que a iniciativa promoverá um novo clima para estes diálogos e os ampliará."

O gesto dos rebeldes se tornou público em um dia particularmente brutal do conflito civil. O pior ataque ocorreu na cidade de Hilla, de maioria xiita, ao sul de Bagdá, onde uma bomba no mercado central matou pelo menos seis pessoas e feriu dezenas pouco antes da hora do jantar, disse um funcionário do Ministério do Interior. Um homem-bomba de bicicleta explodiu em uma aldeia próxima de Baqouba, uma fortaleza rebelde ao norte de Bagdá, matando pelo menos cinco pessoas e ferindo 25, disse o funcionário.

Mas o número de mortos pode ser bem maior. Citando autoridades locais, a agência de notícias "The Associated Press" informou pelo menos 40 mortos nas duas explosões. Em Bagdá, homens armados seqüestraram 10 estudantes universitários que se mudaram para a capital vindos de cidades repletas de rebeldes, como Yusufiya, Mahmudiya e Ramadi.

As forças armadas americanas disseram na segunda-feira que as tropas mataram dois combatentes da Al Qaeda e detiveram 36 suspeitos durante a busca realizada na semana passada por dois soldados americanos, seqüestrados em uma emboscada em Yusufiya em 16 de junho.

Os corpos mutilados de dois soldados foram descobertos perto da aldeia em 19 de junho. Em uma declaração, as forças armadas disseram que especialistas em explosivos tiveram que desarmar pelo menos três bombas para chegar aos corpos e então descobriram que os homens estavam amarrados juntos com uma bomba entre as pernas de um deles.

O Ministério das Relações Exteriores da Rússia confirmou na segunda-feira as mortes de quatro funcionários da embaixada russa, seqüestrados em 3 de junho no centro de Bagdá. Os jihadistas divulgaram um vídeo no domingo mostrando a decapitação de um funcionário e um outro sendo executado com um tiro.

O mais recente esforço dos rebeldes para iniciar um diálogo pode ser rastreado a um processo que teve início no ano passado e prosseguiu com os esforços de Talabani. Por volta da época do referendo constitucional de outubro passado, autoridades americanas e iraquianas aumentaram as negociações com os grupos rebeldes para explorar um racha entre a insurreição local e os grupos radicais comandados por militantes estrangeiros, como a Al Qaeda na Mesopotâmia. Meses depois, durante as eleições para o novo Parlamento, alguns guerrilheiros iraquianos até protegeram os locais de votação em áreas voláteis, como a província de Anbar, dominada pelos sunitas, para assegurar que estes teriam sua voz na votação.

Al Maliki, nomeado em abril, apresentou um plano de reconciliação ao Parlamento no domingo, delineando a direção geral para seu novo governo, mas aquém de oferecer uma ampla anistia para todos os rebeldes ou estabelecer uma nova política para reintegrar antigos membros do Partido Baath. Estas duas questões são as que causam mais divisão entre os novos governantes do país. O plano incluiu sugestões de todos os blocos religiosos, étnicos e políticos do Iraque. Mesmos os legisladores americanos expressaram de forma vociferante suas opiniões de longe, após ouvirem rumores de que o plano concederia anistia aos guerrilheiros que atacaram soldados americanos. No final, Al Maliki apoiou uma versão mais limitada que parece ter sido influenciada pelos religiosos xiitas, que são sua principal base eleitoral, e pelo comando militar americano.

Na apresentação do plano, Al Maliki deixou claro que não concederia anistia aos detidos envolvidos em atos criminosos ou terroristas, mas fez pouca menção dos grupos rebeldes saídos das ruas.

A "Associated Press" noticiou na segunda-feira que Al Suneid, o legislador xiita, citou seis dos sete grupos que disse terem contatado o governo. Eles são as Brigadas da Revolução de 1920, o Exército de Muhammad, os Heróis do Iraque, o Grupo 9 de Abril, Brigadas al Fatah e as Brigadas do Comando Geral das Forças Armadas, listou a agência "The Associated Press".

Mas ao ser perguntado depois sobre estes nomes, Al Suneid disse que nunca os mencionou.

A insurreição iraquiana é um caldeirão de grupos armados que freqüentemente possuem pouca ligação um com o outro. A maioria dos combatentes é composta de árabes sunitas nacionalistas que visam retomar o controle do país derrubando o governo liderado pelos xiitas e forçando a retirada das forças armadas americanas. Estima-se que os árabes sunitas correspondam a um quinto da população, mas eles governaram o Iraque por décadas, após terem sido colocados no poder pelos colonialistas britânicos depois da Primeira Guerra Mundial e da dissolução do Império Otomano. Ação ocorreu um dia depois de o primeiro-ministro ter apresentado um plano limitado para reconciliação. George El Khouri Andolfato

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