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28/06/2006

Candidatos esperam ganhar com vitórias do Brasil no futebol

The New York Times
Larry Rohter
No Rio de Janeiro
Com a final da Copa do Mundo aproximando-se e uma eleição no horizonte, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva encontrou uma forma perfeita de combinar suas duas principais paixões: quando a oposição reclama de incompetência e da corrupção em seu governo, ele responde associando-se à popular e bem sucedida seleção nacional.

"Como no futebol, não vamos chorar pelos gols que não marcamos ontem", disse Lula em um discurso no Rio de Janeiro, depois de o Brasil conseguir uma vitória nada convincente de 1 a 0 contra a Croácia, no início do mês, em seu primeiro jogo nesta Copa da Alemanha. "O que vamos fazer é pensar nos gols que vamos marcar."

Os brasileiros podem contar com esse tipo de discurso a cada quatro anos. A Copa do Mundo não só regularmente coincide com a disputa presidencial brasileira, mas quase inevitavelmente afeta a campanha.

O Brasil, que passou para as quartas-de-final e joga contra a França no sábado (1º/7) venceu cinco Copas do Mundo, mais do que qualquer outro país. O folclore político sustenta que uma vitória brasileira fortalece o presidente no cargo. Apesar de os números de pesquisas não necessariamente confirmarem a teoria, a obsessão do país com o esporte de fato oferece oportunidades de oratória e atitude aos políticos.

Poucos são tão astutos quanto Lula. Em suas declarações públicas, ele freqüentemente usa metáforas do futebol para explicar suas ações. Por exemplo, no final do ano passado a oposição estava exigindo que o ministro das finanças, Antonio Palocci, fosse demitido por seu envolvimento em um escândalo de corrupção.

"Por que eu mexeria no Palocci?" respondeu Lula pouco antes de o ministro de fato renunciar. "Seria o mesmo que tirar o Ronaldinho do Barcelona", continuou o presidente, referindo-se ao jogador que foi eleito o melhor do mundo no ano passado e ao clube espanhol para o qual joga. "Algumas vezes o Ronaldinho erra um chute, mas vamos deixá-lo jogar."

O genuíno entusiasmo de Lula pelo futebol contrasta fortemente com a atitude de seu predecessor, Fernando Henrique Cardoso. Cardoso é um intelectual, sociólogo que fala cinco idiomas, PhD que escreveu muitos livros, mas nunca foi convincente quando tentava fingir interesse pelo jogo.

"No fundo, ele dava pouca importância", disse Juca Kfouri, um dos principais comentadores esportivos do país.

Apesar de Cardoso não poder ter admitido isso quando era candidato ou presidente, ele hoje conta a verdade. Em suas memórias recém publicadas, "Accidental President of Brazil" (presidente acidental do Brasil), ele escreve: "Eu nunca assisti muito futebol na televisão; sempre preferi ler um bom livro. Na verdade, sou um brasileiro que não gosta muito de futebol."

Mas Lula descobriu que ser um torcedor ardente demais também pode criar problemas políticos. Quando sugeriu duas vezes neste mês que o astro Ronaldo estava acima do peso, o jogador ofendeu-se e atirou de volta no presidente.

"Dizem que ele bebe muito", disse Ronaldo aos repórteres na Alemanha. "Todo mundo diz que estou gordo e que ele bebe. Como é uma mentira que estou gordo, acho que também deve ser mentira que ele bebe."

Lula então evitou maiores confrontos com o famoso jogador, enviando-lhe o que foi descrito como uma carta de desculpas. Mas o presidente continuou opinando sobre a qualidade da seleção brasileira e a ser fotografado vestindo sua camisa verde e amarela.

Seu principal adversário nas eleições de 1º de outubro, Geraldo Alckmin, do Partido Social Democrata Brasileiro, também usou o futebol. Vestindo uma camisa casual, Alckmin foi fotografado em uma churrascaria em São Paulo assistindo o jogo do Brasil contra a Croácia, mas errou em sua previsão de que o Brasil venceria de 4 a 1.

Lula de forma alguma é o primeiro presidente a usar o futebol para fortalecer seus laços com o povo, ou a ter problemas por desdizer os profissionais. Antes da Copa do Mundo de 1970, o general Emilio Médici, ditador militar do país na época, criticou o técnico da seleção, João Saldanha, por não escalar um jogador que o presidente admirava.

"Eu não digo a ele quem escolher para o ministério. Então ele não deve me dizer quem escolher para meu time", respondeu Saldanha, jornalista e membro do Partido Comunista.

Pouco depois, Saldanha, que foi apelidado de João Sem Medo por causa do episódio, foi demitido. A seleção venceu a Copa do Mundo e, em suas memórias, Saldanha alega que foi exonerado porque os governantes militares não conseguiram engolir um comunista dirigindo a equipe que simbolizava a realização e o orgulho nacionais.

Ainda assim, uma das imagens que perduram de Médici, apelidado de carrasco, foi dele com a orelha grudada em um rádio, ouvindo os jogos do Brasil. "Gostar de futebol humanizava o ditador", escreveu o colunista Merval Pereira no jornal O Globo, do Rio de Janeiro, neste mês. "Já naquele tempo, foram usadas técnicas de marketing rudimentares para atenuar o rosto cruel da tortura nas masmorras da ditadura."

A Copa do Mundo também tem um grande impacto na economia. Quando o Brasil vence, as pessoas aqui se sentem felizes e orgulhosas e reagem gastando mais, o que promove o crescimento e conseqüentemente a confiança no governo.

Hoje, Cardoso admite ter pensado nesse recurso em 1994, durante sua primeira candidatura à presidência. Ele era ministro das finanças na época. A introdução de um programa contra a inflação e uma nova moeda, o real, coincidiram com a Copa do Mundo dos EUA, que o Brasil eventualmente venceu.

"Uma parte tão grande da economia está ligada a expectativas", escreveu Cardoso. "Se as pessoas esperam que um novo negócio ou uma nova política fracasse, eventualmente fracassará. O oposto também é verdadeiro. Se o Brasil se saísse razoavelmente bem na Copa do Mundo, talvez o país relaxasse um pouco e começasse a acreditar em si mesmo novamente. Talvez um pouco de otimismo fosse transmitido ao real e desse a ele maior chance de sucesso."

No entanto, se o Brasil terminar em qualquer lugar que não for o primeiro na atual Copa, nada feito. Em suas memórias, Cardoso observou que, quando ele e Lula competiram em 1994, Lula, o torcedor ardoroso, manteve uma distância cuidadosa da seleção, mas ele, o neófito relutante, assumiu o risco de apostar suas fortunas no time nacional.

"Foi um pouco de teatro político?" pergunta Cardoso. "Sim, é claro. Mas também foi bastante perigoso. Se eu passasse a ser identificado publicamente com a seleção, o que aconteceria comigo se o Brasil perdesse?" Deborah Weinberg

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