UOL Notícias Internacional
 

28/06/2006

Finalmente, uma nova ofensiva séria contra a malária

The New York Times
Celia W. Dugger
Os mosquiteiros chegaram tarde demais para Phillip Odong, 18 meses.

O menino rechonchudo sofreu seu quarto ataque de malária no mesmo dia em que os mosquiteiros foram entregues, em 16 de março, no campo improvisado onde ele vivia no norte de Uganda. "Por causa da pobreza não podíamos ter um", lembrou sua mãe, Jackeline Ato, recentemente sentada em trapos sob uma mangueira.

Mariella Furrer/The New York Times 
Mosquiteiro doado cobre a cama de Jennifer Akwongo, 32 anos, em Gulu, Uganda

Na manhã seguinte sua febre aumentou, ela o levou até uma clínica, mas ela também não dispunha dos medicamentos necessários para salvá-lo. Ele morreu quatro dias depois, chorando "Mamãe, mamãe", antes de perder a consciência.

Não é segredo que os mosquitos são portadores do parasita que causa a malária. Mais inexplicável é por que 800 mil crianças africanas ainda morrem anualmente de malária --mais do que por qualquer outra doença-- quando os remédios são baratos e conhecidos: medicamentos que curam por US$ 0,55 (cerca de R$ 1,30) a dose, mosquiteiros que protegem uma criança por US$ 1 (cerca de R$ 2,30) por ano e inseticidas domésticos que custam cerca de US$ 10 (cerca de R$ 23) por ano por lar.

Um consenso crescente em torno de soluções, somado a uma nova análise e novos recursos, estão levando grandes doadores a retomarem anos de esforços fracassados para conter o número de mortes causadas pela malária. O crescente apoio da Fundação Bill & Melinda Gates, enriquecida nesta semana pela doação de US$ 31 bilhões (cerca de R$ 71,3) de Warren E. Buffett, fornecerá um estímulo ainda maior para mudança.

Recursos escassos, estratégias falhas e má gestão dos governos atrapalharam os esforços anteriores para combater a doença. Em Uganda, população de 28 milhões, não chegou nenhum dos 1,8 milhão de mosquiteiros aprovados há mais de dois anos pelo Fundo Global de Combate à Aids, Tuberculose e Malária.

O Banco Mundial, após prometer reduzir pela metade as mortes por malária na África há seis anos, deixou seu pessoal responsável pela doença ser reduzido a zero.

E a principal agência de ajuda dos Estados Unidos reconheceu para senadores ultrajados, no ano passado, que gastou mais com consultores caros do que em bens que poderiam salvar vidas, como mosquiteiros que custam US$ 5,75 cada (cerca de R$ 13).

Conservadores sociais e liberais têm formado alianças que superam as divisões ideológicas para o combate à malária, uma assassina de crianças que não contém a bagagem que acompanha a Aids, uma doença sexualmente transmissível que provoca batalhas em torno de abstinência e preservativos.

O senador Sam Brownback, republicano de Arkansas, disse que encontrou um ponto em comum com o economista Jeffrey Sachs, que há muito defende que soluções práticas executadas por africanos podem prevenir milhões de mortes por malária. "Você tem uma união da direita e da esquerda", disse Brownback.

Em audiências no Congresso no ano passado, o senador Tom Coburn, republicano de Oklahoma e médico, argumentou que consultores baseados em Washington e prestadores de serviço consumiram dinheiro demais destinado à malária por tempo demais.

Ele chamou Amir Attaran, um professor de Direito da Universidade de Ottawa e um forte defensor do combate à malária, que testemunhou que a Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional (USAID) estava à vontade demais com o "complexo industrial de ajuda internacional".

Apenas 1% do orçamento para malária da agência em 2004 foi gasto em medicamentos, 1% em inseticidas e 6% em mosquiteiros. O restante foi gasto em pesquisa, educação, avaliação, administração e outros custos.

O governo Bush está mudando tal abordagem, criticada por especialistas em saúde pública e senadores como imperdoavelmente ineficaz.

Primeiro, a agência de ajuda americana está mudando seu foco de apoio à venda subsidiada de mosquiteiros na África para a doação de mais deles para os pobres.

Ela também se comprometeu a comprar novos medicamentos para malária como o Coartem, porque a doença está se tornando cada vez mais resistente aos medicamentos mais antigos, mais baratos. Uma dose de Coartem, produzida pelo laboratório suíço Novartis, atualmente custa US$ 0,55 para uma criança até 3 anos.

Finalmente, os Estados Unidos também estão apoiando o uso do DDT, um pesticida muito criticado, e outros inseticidas, pagando por programas de grande escala que borrifarão pequenas quantidades deles dentro dos lares.

"Nós sabemos muito bem quais são as balas de prata", disse Brownback em sua audiência em 2004, e se usadas juntas "podemos reduzir forte e rapidamente estes números da malária".

A defesa conjunta dos senadores por mudança foi influente, mas o empurrão decisivo veio da Casa Branca. Michael Gerson, um dos principais assessores do presidente Bush, descreveu a malária em uma entrevista como "talvez a maior fonte de sofrimento desnecessário no mundo".

Segundo a nova política do governo Bush, neste ano mais de 40% da ajuda crescente dos Estados Unidos para o controle da malária serão gastos em mosquiteiros, inseticidas, medicamentos e outros bens.

O governo Bush espera convencer o Congresso a mais que triplicar os gastos com o programa do presidente para controle da malária, para US$ 300 milhões (cerca de R$ 690 milhões) até 2008.

A ajuda global para o controle da malária tem aumentado, apesar dos recursos ainda não se equipararem a escala de mortes, dizem os críticos. As contribuições dos países ricos e organizações internacionais mais que dobraram desde 2003, para US$ 841 milhões (cerca de R$ 1,9 bilhão) no ano passado, segundo a Organização Mundial de Saúde.

Com sua nova doação, a Fundação Gates disse que os recursos para malária provavelmente aumentarão, apesar de ainda ser cedo demais para dizer em quanto. Ela já doou US$ 177 milhões (cerca de R$ 407 milhões) para gastos em controles da malária, mais de US$ 300 milhões (cerca de R$ 690 milhões) para pesquisa de uma vacina e cerca de US$ 278 milhões (cerca de R$ 640 milhões) para pesquisa de outros medicamentos para malária e estratégias de prevenção.

Com as medidas tomadas pelos Estados Unidos, outros doadores cruciais também estão dando novos passos para consertar programas falhos.

O Banco Mundial aprovou US$ 130 milhões (cerca de R$ 300 milhões) para projetos na África no ano passado e disse que até 2010 os novos empréstimos crescerão paras até US$ 1 bilhão (cerca de R$ 2,3 bilhões).

O Fundo Global para Combate à Aids, Tuberculose e Malária, uma organização altamente elogiada criada em 2002 para reunir os recursos de doadores, agora está considerando uma mudança que permitirá que forneça diretamente mosquiteiros e outros produtos a países como Uganda, em vez de dinheiro para comprá-los, após a gestão de Uganda de recursos anteriores ter sido prejudicada por incompetência e corrupção.

Milhões de doses de Coartem financiadas pelo Fundo Global chegaram neste ano a Uganda --mas isto ocorreu porque o país concordou, a pedido do Fundo Global, em comprá-las por meio da Organização Mundial de Saúde.

A enormidade do número de mortes causadas pela malária estava evidente em uma recente visita a uma ala pediátrica do hospital público regional em Gulu, Uganda. Bebês e crianças pequenas queimando em febre provocada pela malária chegavam regularmente.

Até 100 mil pessoas, a maioria crianças, morrem anualmente de malária apenas em Uganda. "É como se um avião jumbo caísse diariamente", disse o dr. Andrew Collins, vice-diretor do Malaria Consortium, um grupo internacional sem fins lucrativos.

Os Estados Unidos estão testando o uso de inseticidas internos em um distrito neste ano. Eles também estão tratando mais de 700 mil mosquiteiros que os ugandenses já possuem com inseticidas e comprando outros 400 mil mosquiteiros já tratados que duram até cinco anos.

Os voluntários entregaram os mosquiteiros para famílias com crianças com menos de 5 anos em mais de 100 campos como aquele em que Phillip Odong viveu sua breve vida, destinado a pessoas que fugiram do Exército de Resistência do Senhor, um grupo rebelde impiedoso que aterroriza o interior. Os voluntários, a maioria camponeses, foram treinados por grupos financiados pelos Estados Unidos e liderados pelo Instituto JSI de Pesquisa e Treinamento.

A procura pelos mosquiteiros foi tamanha em alguns campos que famílias cujos filhos já estavam acima da idade imploravam por elas junto aos agentes de saúde. "Elas lotaram os centros de saúde", disse Suzanne Nyedo, uma enfermeira do campo Bobi.

Enquanto as políticas começam a mudar, muitas incertezas continuam.

Por exemplo, a USAID abriu licitação para um contrato de US$ 150 milhões (cerca de R$ 345 milhões) e cinco anos para borrifação doméstica de inseticidas. Ela espera anunciar o vencedor ou vencedores daqui um mês.

Michael Miller, um alto funcionário da agência, disse que as empresas contratarão africanos para realizar a borrifação e que a meta da agência é assegurar que os africanos também obtenham o know-how para realizar os programas de borrifação de inseticidas no futuro.

Attaran, um duro crítico da agência, tem dúvidas.

"Haverá um controle de mosquito da Halliburton?" ele perguntou. "Se houver, o esforço fracassará. Para ser eficaz, é preciso usar administradores e funcionários locais."

Outros estão alertando que as mudanças não são uma panacéia.

Andrew Natsios, que ajudou a elaborar a nova política antes de deixar o cargo de administrador da USAID no início deste ano, alertou que projetos de malária ainda precisarão fornecer muito mais do que apenas mosquiteiros e inseticidas.

"Não é apenas simplista; não funcionará a longo prazo porque os países não podem sustentá-lo por conta própria" por falta de perícia e recursos, ele disse. A agência de ajuda tem um papel crucial a exercer, ele argumentou, fornecendo orientação técnica e treinamento nos países em desenvolvimento.

E há outras dúvidas. Será que os doadores honrarão seus compromissos de doação? Será que as famílias usarão os mosquiteiros? Haverá agentes de saúde suficientes para distribuição dos medicamentos?

"Há o potencial de um impacto incrível", disse a dra. Regina Rabinovich, da Fundação Bill & Melinda Gates, "ou de um fracasso incrível". George El Khouri Andolfato

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