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29/06/2006

Boas-vindas a Picasso - como ele nunca teve em vida

The New York Times
Andrew Ferren
Esse ano os fãs de Picasso poderão juntar muitas milhas nos vôos que chegam e saem da Espanha, onde vários dos principais trabalhos do artista estarão expostos nos próximos meses.

Por todo o país, mais de dez exposições e eventos foram organizados para comemorar a incrível coincidência de datas comemorativas relacionadas a Picasso - desde o aniversário do seu nascimento, há 125 anos, como a data de chegada de "Guernica", talvez sua maior obra-prima, a uma Espanha democrática, cumprindo uma cláusula explícita no testamento do artista. Em outros cantos da Europa celebra-se o ano de Mozart e de Rembrandt, mas 2006 na Espanha será lembrado mesmo é como o ano em que Picasso finalmente voltou para casa - em vida, o artista nunca mais voltaria a pisar em solo natal após a Guerra Civil Espanhola.

"Esse ano a Espanha está enchendo de orgulho seu filho ilustre", diz Robert Rosenblum, professor do Instituto de Belas Artes da universidade de Nova York e especialista em Picasso. Uma megaexposição foi aberta recentemente em dois dos mais importantes museus nacionais - o Prado e o Rainha Sofia - em Madri, enquanto mostras menores completam o panorama, em cidades como Málaga e Barcelona.

"Embora sua longa temporada expatriada, como residente na França, o tenha colocado no pavilhão dos heróis nacionais franceses", lembra Rosenblum, "Picasso sempre afirmou a nacionalidade espanhola em sua obra, seja de maneira subliminar, ao trabalhar a paleta amarela e vermelha, tons originais da bandeira espanhola, ou de forma mais explícita, como ocorreu em suas variações sobre "As Meninas", de Velazquez, e eu tenho a impressão que a exposição no Prado irá confirmar essa linhagem essencial."

Cerca de 6 mil visitantes se aglomeraram numa fila agora em junho, no dia de abertura da exposição "Picasso: Tradição e Vanguarda", que acontece simultaneamente em dois museus de Madri até o dia 3 de setembro. Um dos jornais madrilenhos publicou uma mapa dos dois museus, dando detalhes sobre a localização dos Picassos nas galerias.

No Museu Nacional do Prado (Paseo del Prado, 34-91-330-2800; www.museoprado.es; ingresso custando 6 euros, ou o equivalente a R$ 16,80, com o euro cotado a R$ 2,80), trabalhos memoráveis de Picasso como "Três Músicos" e "A Vida", que agora chegaram a Espanha pela primeira vez, são exibidos próximos a outras obras-primas, de Velazquez, El Greco, Goya e de outros artistas espanhóis que inspiraram Picasso.

Quando irrompeu a Guerra Civil Espanhola em 1936, o governo republicano nomeou Picasso diretor do museu. Na época ele vivia na França, e sua sensibilidade modernista era maldita para o general nacionalista Francisco Franco. Picasso nunca chegou a tomar posse mas agora, no 70o aniversário dessa nomeação, ele praticamente invade o museu com cerca de 40 dos mais importantes trabalhos, perfilados na galeria central. Pela primeira vez, as variações de Picasso sobre "As Meninas" de Velazquez, podem ser vistas na companhia do original do século 17.

Esse diálogo entre Picasso e os velhos mestres prossegue no Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia (Santa Isabel 52; 34-91-467-5062; www.museoreinasofia.es; 6 euros), a grande vitrine nacional de arte moderna. No Rainha Sofia, "Guernica" agora divide o espaço de exibição com "Três de Maio, 1808", de Goya, emprestado pelo Prado.

Criado para o pavilhão espanhol da Exposição Universal de 1937 em Paris, "Guernica", com mais de 8 metros de altura, foi a resposta de Picasso ao bombardeio de Guernica, cidade basca no norte da Espanha, efetuado pela artilharia aérea alemã que apoiava o exército nacionalista de Franco. É emocionante a comparação com "Três de Maio, 1808", que descreve o massacre de civis espanhóis por soldados de Napoleão,. "Essa foi a pintura que Picasso mais quis reproduzir e emular quando ele criou `Guernica'", diz o especialista Rosenblum.

Assim como seu criador, "Guernica" nunca chegou a entrar na Espanha de Franco - Picasso, que morreu em 1973, havia determinado que o trabalho somente poderia ser doado a Espanha depois que a democracia fosse restaurada. Foi o que aconteceu após a morte de Franco em 1975, e hoje em dia a obra é um símbolo tanto da transição da Espanha para a democracia quanto dos próprios acontecimentos de 1937.

E para comemorar os 25 anos da chegada da obra, que ocorreu em 1981, o Rainha Sofia reuniu outros trabalhos marcantes, como "A Execução de Maximiliano", de Manet, e o posterior "Massacre na Coréia", de Picasso, obras que repercutem a fria brutalidade da guerra.

Mas o legado de Picasso não se limita à capital espanhola. A cerca de 80 quilômetros ao norte de Madri está a cidade de Buitrago del Lozoya, cujo mais famoso filho provavelmente é Eugenio Arias, outro exilado espanhol, que na França se tornou barbeiro de Picasso. Em 40 anos de amizade, Picasso deu ao amigo vários trabalhos, incluindo cerâmicas, desenhos e posters ilustrando temas da herança que eles tinham em comum - touros e touradas aparecem com destaque. Depois Arias doou os trabalhos à sua cidade natal, que criou o Museu Picasso: Coleção Eugenio Arias (Plaza de Picasso 1; 34-91-868-0056; www.madrid.org/museo(USCORE)picasso; grátis).

Picasso nasceu na cidade mediterrânea de Málaga em 1881 e, apropriadamente, o Museu Picasso Málaga (San Augustín 8; 34-95-212-7600; www.mpicassom.org; ingresso a 8 euros) foi a primeira instituição a celebrar os 125 anos do artista. A homenagem que dura o ano inteiro inclui a exposição "Picasso: Musas e Modelos", um olhar sobre o fascínio dele quanto às formas femininas, em cartaz de 26 de outubro até 28 de fevereiro.

A própria Málaga poderia funcionar como um grande museu de Picasso, já que ainda continua muito parecida com a cidade dos tempos de juventude do artista, quando Pablo acompanhava o pai, pintor e instrutor de desenho, às touradas na Arena Malagueta. A praça de touros e outros locais marcantes, como a casa na Plaza de la Merced onde Picasso nasceu e que agora é um pequeno museu, integram a Rota Picassiana de Málaga (www.malagaturismo.com).

Em 1891, a família dele se mudou para La Coruna, na costa atlântica do norte da Espanha. Lá não há propriamente um museu Picasso e nem mesmo trabalhos realizados pelo artista, mas La Coruna também tem uma Rota Picassiana, que inclui o apartamento onde a família viveu. A cidade organizará eventos no dia de aniversário do artista, 25 de outubro.

Mas foi em Barcelona, para onde ele se mudou com a família em 1895, que Picasso pela primeira vez teve algum envolvimento com o que poderia se chamar de vanguarda. No final do século 19, a próspera Barcelona já tinha seus laços econômicos e culturais com o resto da Europa, especialmente com Paris. Barcelona "abriu uma janela para Picasso poder ver o que seria possível realizar no mundo da arte", diz Maria Teresa Ocana, diretora do Museu Picasso Barcelona.

Embora Picasso já estivesse prestes a se estabelecer em Paris, ele voltou a Barcelona para visitar a família e para as férias de verão, ficando por lá até a eclosão da guerra civil. Esse ano também marca o 100o aniversário de um certo verão que ele passou na aldeia serrana de Gosol onde, influenciado pela arte ibérica e africana, o trabalho dele passou por uma mudança radical, cuja expressão mais completa aparece em "Les Demoiselles d'Avignon", pintado um ano mais tarde.

Como há tantas evidentes ligações do artista com a cidade, a prefeitura de Barcelona está colaborando com o museu Picasso. Sob o título "PICASSO2006BCN", estão previstas na cidade exposições, concertos, seminários e espetáculos de dança na ópera do Liceu (La Rambla 51-59; 34-93-485-9998; www.liceubarcelona.com). Dias 22 e 23 de outubro, os espetáculos "Parada" ,"Icarus" e "O Chapéu de Três Pontas" irão reviver figurinos e cenários desenhados por Picasso em 1919.

Considerando que ele viveu por lá já quando adulto, talvez Barcelona tenha a rota de Picasso mais divertida. Um novo guia impresso descreve todas as estações da rota, incluindo a taberna Els Quatre Gats (Carrer de Montsio 3; 34-93-302-4140), que Picasso freqüentava com a vanguarda da cidade. Na taberna atualmente há reproduções de vários trabalhos que adornavam as paredes do estabelecimento naquele início de carreira de Picasso.

A partir do dia 4 de julho, o Museu Picasso Barcelona (Montcada 15-23; 34-93-319-6310; www.museupicasso.bcn.es; 8 euros) começa a expor trabalhos que Picasso criou para o que hoje em dia é o Museu Picasso de Antibes, na França. O destaque é "La Joie de Vivre" ("A Alegria de Viver"), pintado em 1946 (sim, mais uma efeméride), quase dez anos após "Guernica". Numa tela de formato igualmente horizontal, Picasso revela sua jovem companheira, Francoise Gilot, dançando alegremente numa paisagem à beira-mar, nos lembrando que a paz finalmente chegou para o artista e para a Espanha. Marcelo Godoy

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