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29/06/2006

Como esfriar um planeta (talvez)

The New York Times
William J. Broad*
Nas últimas décadas, meia dúzia de cientistas criaram formas grandes e futuristas de lutar contra o aquecimento global: construir guarda-sóis na órbita para esfriar o planeta. Alterar as nuvens para fazê-las refletir mais luz de volta ao espaço. Tratar os oceanos para que absorvam mais gases de efeito estufa.

Suas propostas foram relegadas às margens da ciência do clima. Poucas revistas publicavam-nas. As agências do governo recusavam-se a patrocinar seus estudos. Ambientalistas e cientistas diziam que o foco deveria ser, em primeiro lugar, na redução da emissão de gases de efeito estufa e do aquecimento global.

Mas agora, em grande reversão, alguns dos cientistas mais proeminentes do mundo dizem que as propostas merecem atenção, diante das crescentes preocupações com o aquecimento global.

Preocupados com uma potencial crise planetária, esses líderes estão pedindo que governos e grupos científicos estudem formas exóticas de reduzir o aquecimento global, vendo-as como planos possíveis se o planeta eventualmente precisar de uma dose de esfriamento emergencial.

"Devemos tratar essas idéias como qualquer outra e começar a levá-las a sério", disse Ralph J. Cicerone, presidente da Academia Nacional de Ciências em Washington.

Os planos e estudos propostos fazem parte de um campo controverso chamado de geoengenharia, que significa alteração do ambiente da Terra em ampla escala para que satisfaça as necessidades humanas e mantenha as condições para sua habitação. Cicerone, que estuda a química atmosférica, vai detalhar seus argumentos em favor dos estudos de geoengenharia na edição de agosto da revista Climatic Change.

Praticando o que prega, Cicerone também instou os principais pesquisadores a se juntarem à discussão da geoengenharia. Em abril, por convite seu, Roger P. Angele, famoso astrônomo da Universidade do Arizona, falou na reunião anual da academia. Angel descreveu um plano para colocar em órbita pequenas lentes que refletiriam a luz do Sol para longe da Terra -trilhões de lentes, ele calcula, cada uma de 60 cm de diâmetro, extraordinariamente finas e pesando pouco mais do que uma borboleta.

Além disso, Cicerone recentemente entrou em uma amarga briga em torno da aceitação para divulgação das idéias de geoengenharia do prêmio Nobel Paul J. Crutzen, do Instituto Max Planck de Química na Alemanha. Astro da ciência atmosférica, Crutzen conquistou parte do Prêmio Nobel em 1995 por mostrar como os gases industriais danificam a camada de ozônio. Seu artigo examina os riscos e benefícios de tentar resfriar o planeta injetando enxofre na estratosfera.

A idéia "não deve ser tomada como uma licença para sair e poluir", disse Cicerone em entrevista, enfatizando que muitos cientistas acreditam que evitar os gases estufa deve ser a prioridade máxima. Mas, acrescentou: "Na minha opinião, ele escreveu um artigo brilhante."

A geoengenharia não é uma mágica, disse Cicerone. Mas corretamente desenvolvida, agirá como alternativa de segurança se o mundo um dia enfrentar uma crise de hiper-aquecimento, com repercussões como derretimento de calotas, seca, fome, elevação dos níveis do mar e alagamento das costas.

"Muitos de nós dizemos que não gostamos da idéia" da geoengenharia, disse ele. Mas, acrescentou: "Precisamos pensar a respeito" e aprender, entre outras coisas, como distinguir as propostas sólidas das que são ineficazes ou perigosas.

Muitos pesquisadores menosprezam a geoengenharia como um sonho irresponsável, com mais riscos e efeitos negativos potenciais do que benefícios; eles chamam seus remédios extremos de uma boa razão para redobrar os esforços de reduzir gases que seguram o calor na atmosfera, como o dióxido de carbono. Já aqueles que duvidam do aquecimento global induzido pelo homem negam a geoengenharia como um esforço caro para combater uma miragem.

Mesmo assim, muitos analistas dizem que a proeminência de seus novos defensores está dando ao campo mais visibilidade e credibilidade e faz aumentar a probabilidade dos líderes globais um dia considerem tais medidas de emergência.

"As pessoas costumavam dizer: 'Cale a boca, o mundo não está pronto para isso'. Talvez o mundo tenha mudado", disse Wallace S. Broecker, pioneiro de geoengenharia da Columbia.

Michael C. MacCracken, principal cientista do Instituto do Clima, grupo de pesquisa privado em Washington, disse que estava resignado à necessidade de levar a sério a geoengenharia.

"Realmente é triste", disse MacCracken, "que os EUA e o mundo não possam fazer mais para que não seja necessário considerar uma dessas abordagens."

Martin A. Apple, presidente do Conselho de Presidentes de Sociedades Científicas, disse em recente encontro em Washington sobre as pesquisas em geoengenharia: "Vamos falar sobre o financiamento de pesquisa com zeros suficientes para que possamos fazer uma diferença."

O estudo de medidas futuristas começou em silêncio nos anos 60, enquanto cientistas discutiam a possibilidade do aquecimento global causado por emissões humanas um dia impor séria ameaça. Mas pouco aconteceu até os anos 80, quando as temperaturas globais começaram a subir.

Alguns pesquisadores observaram que a Terra reflete cerca de 30% da luz do Sol de volta ao espaço e absorvia o resto. Pequenos aumentos no reflexo da luz, pensaram, poderiam facilmente combater os gases que detêm o calor, assim esfriando o planeta.

Broecker, da Columbia, propôs fazer isso enchendo a estratosfera com toneladas de dióxido de enxofre, como os vulcões fazem ocasionalmente. As injeções, ele calculou nos anos 80, requereriam uma frota de centenas de jumbos e, como subproduto, aumentariam a chuva ácida.

Em 1997, essas visões futuristas encontraram proeminente defensor em Edward Teller, principal inventor da bomba de hidrogênio. "Injetar partículas que espalhem a luz do Sol na estratosfera parece ser uma abordagem promissora", escreveu Teller no Wall Street Journal. "Por que não fazer isso?"

No entanto, as agências do governo em geral hesitaram em pagar os pesquisadores para estudarem idéias tão mirabolantes ou até as mais razoáveis. John Latham, físico da estratosfera do Centro nacional de Pesquisa Atmosférica em Colorado, contou como ele e seus colegas por muitos anos procuraram testar se um spray de água do mar em nuvens baixas do oceano poderia aumentar sua reflexibilidade.

"Não encontramos uma porta aberta", disse Latham sobre o financiamento do governo. "Tem sido um pouco desanimador."

Outros planos sugeriram a distribuição de filmes sobre desertos ou ilhas de plástico brancas nos oceanos do mundo, como forma de refletir mais luz para o espaço.

Outra idéia era fertilizar o mar com ferro, criando vastas regiões de plantas que poderiam engolir toneladas de dióxido de carbono e levá-lo para as profundezas do mar.

A reação geral a idéias como essas "tem sido de desprezo e medo -uma noção que não sabemos quais serão as conseqüências de fazer mudanças em grande escala no meio ambiente", disse Alvia Gaskill, presidente da Environmental Reference Materials Inc., firma de consultoria na Carolina do Norte que defende a geoengenharia.

Gaskill disse que pequenos experimentos permitiriam que os pesquisadores rapidamente suspendessem a pesquisa, se as mudanças dessem errado.

Os críticos argumentaram que fazia mais sentido evitar o aquecimento global do que arriscar soluções arriscadas. Eles pediram a redução do uso de energia, o desenvolvimento de fontes alternativas de energia e uma redução nos gases de efeito estufa.

Entretanto, esforços internacionais como o Protocolo de Kyoto até agora fracassaram em diminuir a ameaça. Os EUA nunca ratificaram o protocolo, e a China e a Índia, como membros do mundo em desenvolvimento, nunca tiveram que obedecer, ficando liberadas de restrições em suas emissões de gases de efeito estufa. Os cientistas estimam que a temperatura da superfície da Terra neste século poderá aumentar em até 5 graus Celsius.

Defensores da geoengenharia dizem que a humanidade já está alterando amplamente o meio ambiente e simplesmente precisa fazê-lo de forma mais inteligente.

Angel, o astrônomo da Universidade do Arizona, explicou aos membros da academia de sua idéia de um guarda-sol orbital, chamando a proposta de menos importante que o objetivo de estimular idéias audaciosas.

"Isso pode envolver toda uma geração", disse ele em entrevista. "Só o que estou dizendo é: vamos começar a pensar nessas coisas, caso precisemos delas." Tais planos visionários ainda estão longe de receber aclamação universal. James E. Hansen, do Instituto Goddard da Nasa para Estudos Espaciais em Nova York, que participou da discussão e defende fortemente o limite das emissões, chamou a idéia das lentes em órbita como "incrivelmente difícil e impraticável".

Crutzen, prêmio Nobel do Instituto Max Planck, também levou chumbo por sua proposta de injetar enxofre na estratosfera. "Houve uma reação apaixonada de vários cientistas proeminentes, alegando que é irresponsável", lembra Mark G. Lawrence, cientista americano que também está no instituto.

O plano sugeria combater um tipo de poluição (excesso de gases geradores de efeito estufa, como dióxido de carbono) com outro (dióxido de enxofre). No entanto, parece que qualquer aumento em enxofre na superfície da Terra será pequeno, comparado com as toneladas que já estão sendo emitidas das chaminés de plantas alimentadas a carvão.

Cicerone, da academia de ciências, ajudou a obtenção de um acordo com a
revista: o artigo de Crutzen será publicado, mas com vários comentários, inclusive o seu. Eles vão sair na edição de agosto da Climatic Change. Os outros autores são Lawrence, do instituto alemão de química, MacCracken do Instituto de Clima, Jeffrey T. Kiehl, do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica, e Lennart Bengtsson do Instituto Max Planck de Meteorologia na Alemanha.

Em um rascunho de seu artigo, Crutzen estima que o custo anual de sua proposta de enxofre chega a US$ 50 bilhões (em torno de R$ 110 bilhões), ou cerca de 5% dos gastos militares anuais do mundo.

"A engenharia climática é a única opção disponível para reduzir rapidamente aumentos de temperatura", se os esforços nacionais fracassarem em evitar gases estufa, disse Crutzen.

"Até agora, há pouca razão para otimismo", acrescentou.

*Andrew C. Revkin contribuiu para este artigo Deborah Weinberg

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