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29/06/2006

Michael Ballack enfrenta o "muro mental" que ainda divide a Alemanha

The New York Times
Jere Longman

em Chemnitz, Alemanha
Quando Michael Ballack chegou aqui em 1983, aos sete anos de idade, como menino prodígio do futebol, na época em que a Alemanha Oriental entrava nos seus anos de agonia, a cidade se chamava Karl-Marx-Stadt. Mais tarde, Ballack se mudou para um apartamento construído para os socialistas privilegiados, dotado de água encanada quente e de aquecimento central.

Mas, segundo os moradores da região, 16 anos após a unificação alemã, o prédio no qual Ballack morava está arruinado, semideserto e assinalado para ser demolido. Ballack saiu de lá há muito tempo, mas o seu talento precoce floresceu, e hoje ele é o capitão da seleção nacional alemã, que enfrentará a Argentina nas quartas-de-final, nesta sexta-feira, em Berlim.

O fato de figuras tão visíveis como Ballack e a chanceler Angela Merkel serem alemães orientais revela ao mesmo tempo até que ponto chegou o processo de unificação do país e o quanto a Alemanha ainda precisa caminhar até que o chamado "muro nas cabeças", referente à identidade política, desapareça como o Muro de Berlim, afirmam especialistas acadêmicos e futebolísticos.

Para muitos alemães, Ballack, que em breve fará 30 anos, é simplesmente um meio-campista extraordinário, hábil com os pés e a cabeça, adepto da defesa e do ataque, e talvez o único verdadeiro jogador de elite da seleção alemã.

Mas para outros que levam em conta a cisão entre leste e oeste, Ballack é uma figura mais complicada: a sua criação socialista fez dele ou uma figura ideal para capitanear as aspirações coletivas de uma equipe, ou provocou no jogador uma falta da assertividade exigida de um líder. Ele é ou abnegado ou egotista, um profissional consumado ou um mercenário excessivamente interessado em dinheiro. Ballack assinou recentemente um contrato cujo valor seria de US$ 11 milhões por ano para jogar no Chelsea, o clube campeão inglês, após a Copa do Mundo.

Pelo menos todos concordam que, com o seu cabelo escuro, o maxilar firme e a sua corpulência distribuída pelos seus 1,88 m de altura, Ballack é bonito, sob o ponto de vista de uma novela romântica. Como jogador ele é tão importante que, quando deixou de participar da abertura da estréia da Copa do Mundo, devido a um músculo distendido, o problema foi anunciado pela imprensa alemã como sendo "a lesão muscular do país".

"Este é um sinal de progresso", afirma Pierre Gottschlich, cientista político da Universidade de Rostock. "Pensem nisto como um jogo que se desenrola em certos níveis. Nós passamos do primeiro nível, no qual todo mundo o via como um alemão oriental, para o segundo, onde alguns o enxergam como alemão oriental e outros não. E estamos caminhando para o próximo nível, no qual esse fato não terá importância alguma. Provavelmente chegaremos a este último estágio dentro de dez ou 20 anos".

De certa maneira, Ballack é um caleidoscópio humano. A sua personalidade é moldada por percepções que parecem ditadas grosso modo por linhas geográficas e de gerações.

Particularmente para os alemães ocidentais, o fato de Ballack ser da região leste da Alemanha não parece ter muita importância. Muitos dos que foram entrevistados disseram que não sabiam disso ou que não dão a mínima para o fato. Afinal, o Muro de Berlim caiu há 17 anos.

"A maioria das pessoas não diz leste ou oeste", afirma Gerd Mielke, 43, um motorista de táxi de Berlim, referindo-se a Ballack. "Isso não tem importância".

Dieter Juetting, sociólogo e especialista em futebol da Universidade de Münster, observa que três outros integrantes da seleção nesta Copa do Mundo são alemães orientais, que os atacantes Miroslav Klose e Lukas Podolski nasceram na Polônia, e que o técnico Juergen Klinsmann mora na Califórnia.

"O futebol é um esporte global", afirma Juetting. "Não existem mais conexões com terras ou cidades de origem".

No entanto, em Chemnitz e em outras regiões do leste da Alemanha, a conexão com Ballack parece ser bem importante para muita gente. Parte disso se deve ao orgulho pelo fato de um garoto local ter brilhado. Mas a estima por Ballack parece também estar relacionada com a difícil transição que muitos alemães orientais experimentaram desde a unificação, e com uma muito discutida nostalgia em relação aos velhos tempos, conhecida como ostalgie (algo como "nostalgia pelo leste", em alemão).

Um grande busto de Karl Marx ainda se encontra no centro desta ex-cidade industrial, que foi rebatizada Chemnitz em 1990. O centro da cidade foi renovado, mas transmite uma certa sensação de vazio. Chemnitz, cuja população é de 244.496 habitantes, padece dos mesmos problemas que afligem várias cidades do leste da Alemanha - um desemprego de cerca de 20%, e uma perda de 20% dos seus moradores desde a unificação em 1990.

"Para a autoconfiança dos alemães orientais, algo que não existe, é muito importante que Ballack tenha sucesso em um alto nível", afirma Joachim Mueller, 53, técnico do clube de futebol F.C. Chemnitzer e um dos técnicos de Ballack quando este era garoto. "Ele cresceu e foi educado aqui, e conseguiu vencer".

Beate Neuss, professor de política internacional da Universidade Técnica de Chemnitz, diz que o Partido do Socialismo Democrático, a legenda dos ex-comunistas, diz regularmente aos alemães orientais que a unificação os transformou em cidadãos de segunda classe.

"É bom termos alguém no topo", afirma Neuss, referindo-se a Ballack e à chanceler Angela Merkel.

Mas às vezes um jogador de futebol é apenas um jogador de futebol. Enquanto treinava na última terça-feira no mesmo clube esportivo de Chemnitz que produziu Ballack, Ben Heber, um decatleta de 14 anos de idade, disse a respeito da herança oriental do famoso jogador: "Nós nascemos após a reunificação. Para nós isso não tem a menor importância".

Heber usa um chapéu da seleção inglesa, e diz que gosta de Ballack porque ele é o "Beckham alemão".

Os repórteres alemães afirmam que Ballack raramente se expressa sobre a forma como vê a si próprio no contexto de leste e oeste. Ele disse recentemente ao "Neues Deutschland", outrora o jornal oficial do partido comunista, que não vê nenhuma ameaça nacionalista na agitação de bandeiras e no patriotismo alegre que têm acompanhado o avanço da Alemanha para as quartas-de-final da Copa do Mundo.

"No país-sede, as coisas têm que ser dessa forma", garantiu Ballack.

Ele é um dos membros da última geração de atletas treinada no altamente eficiente sistema alemão oriental, que se baseava em escolas esportivas, e que se concentrava principalmente nos esportes olímpicos por motivos de propaganda. A Alemanha Oriental era um país de 16,7 milhões de habitantes que desafiava os Estados Unidos e a União Soviética pela supremacia na conquista de medalhas de ouro.

E embora as façanhas olímpicas da Alemanha Oriental tenham ficado em grande parte desacreditadas pelo bloco ocidental devido ao uso de drogas patrocinado pelo Estado com o objetivo de melhorar o desempenho dos atletas, vários alemães orientais acreditam que o esporte validou o ex-Estado comunista. A maior vitória da Alemanha Oriental no futebol aconteceu na forma de uma vitória de 1 a 0 sobre os alemães ocidentais, na Copa do Mundo de 1974, que acabou sendo vencida por estes últimos.

"Ballack é nosso irmão", afirma Dieter Gog, 66, um professor aposentado da cidade oriental de Fuerstenwalde. "Na Alemanha Oriental, a indústria não era tão boa. Para o mundo, a Alemanha Oriental era um país de desportistas".

Desde a dissolução da Alemanha Oriental, vários clubes de futebol do leste do país passaram a lutar para serem competitivos, devido à falta de financiamento, patrocínio corporativo e habilidades gerenciais na caótica mudança para o capitalismo. Na temporada passada, nenhum time oriental participou da etapa final da Bundesliga alemã (embora o Cottbus tenha sido promovido para a próxima temporada). Segundo os técnicos, os jogadores orientais promissores são freqüentemente levados pelos clubes ocidentais mais ricos quando ainda são adolescentes.

O campeão perene entre os clubes do leste alemão, o Dynamo Berlim - que era apoiado pela Stasi, a polícia secreta, e que foi criticado por manipular os resultados dos jogos - caiu tanto após a queda do Muro de Berlim que, segundo os noticiários da imprensa, chegou a vender fornos de microondas e lambretas para conseguir verbas.

Em 1997, Ballack partiu de Chemnitz, para onde fora enviado de trem quando garoto, vindo de Goerlitz, a sua cidade natal. Ele assinou um contrato para jogar pelo clube alemão ocidental Kaserslautern, e acabou chegando ao Bayern de Munique, pelo qual ganhou três títulos da Bundesliga alemã nos últimos quatro anos.

Na Copa do Mundo de 2002, Ballack liderou uma espetacular equipe alemã para a final, na qual o time perdeu para o Brasil por 2 a 0. O seu gol de cabeça eliminou os Estados Unidos, por um placar de 1 a 0, e ele cometeu uma falta necessária para preservar uma vitória na semifinal contra a Coréia do Sul, embora isso tenha lhe custado um segundo cartão amarelo, impedindo que participasse da final.

Para alguns, a idéia de colocar a equipe acima de si está enraizada na criação socialista de Ballack, e faz dele um capitão perfeito para a seleção nacional.

"Eles foram treinados para terem egos fortes", afirma Gutner Gebauer, filósofo e especialista em futebol da Universidade Livre de Berlim. "Ele lidera por meio das suas ações; não é o patrão do time. Essa é uma idéia ocidental".

Mas após o desempenho desastroso da Alemanha no Campeonato Europeu de 2004, em Portugal, alguns jornalistas alemães questionaram se o passado oriental de Ballack não teria feito com que o jogador carecesse da individualidade necessária para ser um líder.

"Eles argumentaram que Ballack não contava com a competitividade necessária, que ele não possuía certo perfil do qual um líder necessita", conta Gottschlich, o professor da Universidade de Rostock. "Mas essa foi uma discussão na mídia, e nem tanto em meio aos fãs. Tal discussão cessou em um período de duas semanas".

Mágoas e ressentimentos emergiram na primavera deste ano, quando foi negociada a transferência de Ballack do Bayern de Munique para o Chelsea. Uli Hoeness, o gerente-geral do Bayern, disse que Ballack só está interessado na sua conta bancária. Franz Beckenbauer, o ícone futebolístico alemão, acusou Ballack de "sequer tentar brilhar" nas disputas da Bundesliga.

É claro que tudo será perdoado caso Ballack e a Alemanha vençam a Copa do Mundo e obtenham a absolvição pelo fiasco de 2002.

"Isso seria algo de muito importante para o nosso país, tendo em vista os contratempos econômicos e as dificuldades com a reunificação", afirma Neuss, o professor de Chemnitz. "Temos um estado de espírito deprimido na Alemanha. Se Ballack fosse capaz de marcar o gol decisivo na final, isso seria realmente bom para a unidade alemã". Danilo Fonseca

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