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29/06/2006

Os fracassos de "O Diabo Veste Prada"

The New York Times
Ruth La Ferla
Todo mundo adora uma história de Cinderela, especialmente quando é levada para o mundo maravilhoso, prefeito e laqueado das revistas modernas de moda.

Barry Wetcher/20th Century Fox via NYT 
Meryl Streep (2ª a partir da dir.) é a editora de moda Miranda Priestly, que atormenta Andy

Os produtores de "O Diabo Veste Prada" parecem, de fato, estar contando com isso. Talvez por essa razão inseriram uma metamorfose de conto de fadas no coração do filme. Baseado no romance de Lauren Weisberger, conta a história de uma jornalista recém graduada que se torna assistente da editora exageradamente exigente da Runway, a mais poderosa revista de moda do país.

Quando o filme estrear nos cinemas na sexta-feira (30/7), alguns membros do público talvez se contorçam de inveja em ver Andy Sachs (Anne Hathaway), a serviçal sem o menor estilo de Miranda Priestly (Meryl Streep), deixar sua personalidade de copeira para tornar-se uma princesa do estilo orgulhosamente arrumada. Alguns provavelmente cairão no feitiço lançado por David Frankel, diretor de "O Diabo Veste Prada", que queria fundir a fantasia -"o desejo de realização de ir para o mundo mágico da moda"- com um sentido de autenticidade.

Conseguiu? Até certo ponto. Mas para o olho impiedoso de quem conhece o assunto, a viagem de Andy dos farrapos ao baile tem quase tanta relação com a realidade quanto Nova York com Kankakee.

"Onde está a elegância?" queixou-se David Wolfe, consultor de moda de Nova York, versado nas excentricidades das divas das revistas. Em sua avaliação, os problemas estilísticos do filme começam com Meryl Streep como a Miranda de penteado prateado, um personagem que ele acha parecer benigna e certinha demais e argh! -bonita demais- para ser convincente como a gélida comandante da Runway.

Na moda, "Você tem que ter um efeito especial", observou Wolfe. Pense no visual altamente estilizado de lendas das revistas como Diana Vreeland, com sua maquiagem kabuki e cabelos cor de asfalto, ou editoras famosas como Anna Wintour, cujos óculos escuros e franjas bem cortadas escondem um perfil de vidro.

"Em um mundo de mulheres 'fabulosas', 'bonita' não é bom o suficiente", pronunciou Wolfe.

Outros criticaram as falhas em compreensão do que de fato é 'fabuloso' no âmbito do estilo. Não se resume a um desfile interminável de Gucci, Pucci, Dolce & Gabbana e Prada, dizem. Deve incluir marcas mais leves, como Chloe, Marc Jacobs e Marni, que são desejadas por jovens que lançam estilo, mas estão pouco evidência na tela.

Mesmo Prada aparece pouco no filme. Em seu lugar, tem um monte de ternos de lã poderosos, pérolas com dois Cs, chapéus de tweed e botas altas até as coxas que ameaçam afundar o filme sob seu peso.

Esse figurino é "uma caricatura do que as pessoas que não trabalham na moda acham que é a moda", disse Anne Slowey, diretora de moda da Elle. O figurino foi concebido e estilizado por Patrícia Field, de "Sex and the City". "As roupas são um pouco perfeitas demais da cabeça aos pés", disse Slowey.

Sem dizer um pouco quadradas. Depois de uma visita ao closet da revista, seu sanctum sanctorum, Andy emerge vestida até o pescoço com uma jaqueta Chanel de golas douradas. Cachoeiras de colares e um par de botas altas, que poucos assistentes poderiam comprar, completam o visual.

O vestuário efusivo se estende para Emily (Emily Blunt), colega de sofrimento de Andy, que passa fome para vestir tamanho 2 com botões e ombreiras que fazem dela uma híbrida de rainha gótica e guerreira intergaláctica. Miranda, por sua vez, parece uma múmia com seu casaco bege.

Mas ela também é capaz de exagero. Entre os 60 conjuntos que Field reuniu para ela, está uma jaqueta Fendi que pulsa com listras animais, que ela completa com uma bolsa de crocodilo grande.

Field nunca teve a intenção de fazer um figurino parecido com a realidade. "Holly Golightly representava a realidade usando um vestido Givenchy? Eu estava trabalhando com isso em mente", disse ela. "Meu trabalho é apresentar entretenimento, um mundo no qual as pessoas possam viajar. Se quiserem um documentário, podem assistir o History Channel."

Ainda assim, o figurino do filme tem pouco em comum com o estilo sóbrio de Audrey Hepburn em "Bonequinha de Luxo" ou "Cinderela em Paris", considerados por profissionais como retratos adoráveis da moda. É mais similar aos modelos exagerados de Sophia Loren -tudo cheio de bolinhas e chapéus- em "Pret-a-Porter", a sátira da moda de 1994 de Robert Altman rebaixada pelos profissionais. Até a maquiagem de "O Diabo" (sombra verde, lábios cor de coral) está mais para a última grande era da moda de grande consumo do que para o visual discreto, conscientemente displicente de hoje.

"O cabelo, as roupas, as peles, as bolsas, o apartamento da editora, tudo é dos anos 80, que foi nosso momento mais exuberante até hoje", disse Tiffany Dubin, ex-curadora de moda vintage da Sotheby.

Esses elementos levaram Dubin a negar o estilo do filme com a pior crítica de uma pessoa da moda: "Os personagens estão se esforçando demais."

A primeira pista de que "O Diabo" exagera é uma montagem em que Miranda entra no escritório em várias manhãs, jogando na mesa da assistente suficientes bolsas e peles para acabar com o Zoológico do Bronx. Isso é o início de uma chuva de bolsas de US$ 12.000, peles de US$ 30.000 e botas acima do joelho de US$ 1.000 reunidas por Field com um orçamento de US$ 100.000 (aproximadamente R$ 220.000) e uma pequena ajuda de amigos e estilistas que lhe deram acesso a roupas que totalizavam cerca de US$ 1 milhão (em torno de R$ 2,2 milhões).

Na tradição de Hepburn, que fez sua quota de personagens de Cinderela, Andy parece deslumbrada. Seus suéteres Shetland pesados e saias quadriculadas são clara indicação que é tão apropriada para o cargo quanto Paris Hilton para um emprego de babá.

Não se preocupe. É neste ponto que Nigel (Stanley Tucci), braço direito de Miranda, meticuloso com seu terno xadrez, entra no papel de fada madrinha. É claro que ele tem um sapatinho de cristal: um par de saltos agulha de Jimmy Choo, que Andy deseja e veste.

Logo Andy assume o visual e os maneirismos do inimigo.

Violando as leis da maior parte das revistas de moda, ela rotineiramente ataca o armário da revista, uma mini-Versailles organizada, cheia até o teto de Valentinos, Narcisos Rodriguez e, é claro, Jimmy Choos. Cavernoso e brilhantemente iluminado, é a antítese dos closets de revistas de moda de verdade, que em geral são do tamanho de um banheiro grande, lotado com bandejas e bandejas de jóias, meias-calças e roupas guardadas por editores. Vigilantes, dificilmente emprestariam roupas de designers que custam dezenas de milhares de dólares para uma noitada.

Esses escrúpulos não preocupam Andy, que rejeita a capa laranja que Nigel oferece em favor de um casaco Gucci verde, que tem botões demais para uma assistente editorial de 22 anos. Andy muda de roupa várias vezes -de dia, enquanto cumpre várias tarefas na rua, e de noite, visitando galerias e bailes da moda.

"Acho impressionante que todas essas pessoas têm tanto tempo para trocar de roupa", disse Hal Rubenstein, diretor de moda da InStyle. "Em geral, se você vai a um evento depois do trabalho, você muda de sapato, de jóias e de bolsa, da mesma forma que os editores da revista aconselham seus leitores a fazer."

Rubenstein objetou fortemente à tendência dos diretores de exagerar na quantidade. "Na maior parte, as mulheres na moda editam ferozmente o que vestem", diz ele. Em contraste, o filme exagera em peles e pulseiras de ouro, disse ele, refletindo "um estranho desejo de abundância por pura abundância".

Dubin disse: "São fantasias. Hoje as pessoas se vestem com menos exuberância."

Visivelmente os códigos da moda relaxaram desde 1961, quando Talese descreveu os funcionários da Vogue como uma falange de "mulheres à prova de rugas chegando ao escritório pela manhã".

De fato, uma avaliação ao acaso de editores e assistentes que passavam pelas portas de vidro do número 4 da Times Square, sede da Vogue, mostrou que são mais amarrotados do que à prova de rugas. Claro, era verão, e adequadamente usavam vestidos leves como o ar, camisas de jérsei fino com calças estreitas e sandálias delicadas. Não se via um logotipo ou bolsa chamativa. Deborah Weinberg

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