UOL Notícias Internacional
 

30/06/2006

Gigantes do petróleo enxergam bons negócios nos "projetos verdes"

The New York Times
Jad Mouawad

em Maasland, Holanda
Uns poucos quilômetros ao norte de Roterdã, em uma região que os holandeses chamam de "cidade de vidro", devido às milhares de estufas, jardineiros como Frank van Os participam de uma experiência não convencional da Royal Dutch Shell para reduzir as emissões de carbono.

Van Os cultiva quatro milhões de roseiras por ano, saturando a atmosfera no interior da vasta cúpula de vidro com dióxido de carbono puro, a fim de fortalecer as plantas. O fato incomum é ele atualmente receber esse dióxido de carbono diretamente da Pernis, uma refinaria da Shell que é a maior da Europa, e que normalmente descarrega toneladas do gás na atmosfera todos os anos.

"Dá para ouvir o ruído", diz van Os, enquanto o dióxido de carbono passa chiando pelos pequenos encanamentos de plástico, alimentando os pés de rosas vermelhas de caules longos que estão por toda parte.

É óbvio que o modesto esforço da Shell nesta parte da Europa - com o
objetivo de reduzir as emissões da refinaria em 8% ao desviá-las para cerca de 500 estufas - não resolverá o desafio representado pelo aquecimento global. Mas o experimento para a redução das emissões de dióxido de carbono, o gás que é tido como o principal responsável pela mudança climática, ilustra uma mudança fundamental na indústria do petróleo que gera lampejos de esperança com relação ao futuro.

Com a expectativa de aumento do consumo de energia no decorrer das próximas décadas, alguns executivos proeminentes da indústria do petróleo estão dizendo que a forma como o setor petrolífero viera a administrar as emissões de carbono se tornará tão importante para as perspectivas empresariais quanto a reposição das reservas de energia.

"O debate a respeito do gás carbônico está mudando", disse em uma entrevista recente Jeroen van der Veer, diretor-executivo da Shell. "Só existem duas opções. Lutar contra as emissões - o que é inútil - ou ver nelas uma oportunidade de negócio".

O alarme crescente com relação ao aquecimento global fez com que algumas companhias do setor petrolífero - especialmente aquelas que têm sedes na Europa, como a Shell e a BP - promovessem tentativas de desenvolver fontes alternativas de energia que emitam menos dióxido de carbono, como o vento, o sol e o hidrogênio a partir de recursos renováveis.

Mas o mais importante esforço da indústria diz respeito à busca da
capacidade de administrar as emissões oriundas do próprio petróleo, com base na conclusão interessada de que, caso nada seja feito, os custos futuros das emissões de carbono poderão ameaçar o cerne do negócio, que é a produção de combustíveis fósseis.

O envolvimento da indústria no debate está cercado de suspeitas de que as companhias petrolíferas, mesmo quando procuram desenvolver fontes
alternativas e renováveis de energia, estejam também investindo pesadamente em recursos mais sujos e poluentes do que o petróleo.

Embora alguns ambientalistas continuem levantando dúvidas quanto aos
verdadeiros motivos da indústria, muitos executivos do setor petrolífero afirmam que reconhecem agora que, para sustentar os seus negócios no longo prazo, eles precisam ajudar a reduzir nas suas operações as emissões de carbono e outros poluentes nocivos.

Durante anos as companhias petrolíferas se recusaram a falar a respeito do impacto dos seus negócios sobre o meio-ambiente. O fato de muitas delas estarem reconhecendo que há um vínculo entre os combustíveis fósseis e a mudança climática é uma indicação do quanto essas empresas progrediram no decorrer da última década. "Urge que sejam tomadas ações", declarou recentemente Thierry Desmarest, diretor-executivo da Total, a companhia petrolífera francesa, durante um café-da-manhã no Four Seasons Hotel, em Manhattan. "O carbono é que representa o maior problema".

Os especialistas em clima calculam que será necessário reduzir as emissões provenientes de combustíveis fósseis em pelo menos a metade até 2050 para estabilizar o efeito desses gases sobre o aquecimento global. Trata-se de uma tarefa monumental.

As emissões de dióxido de carbono derivadas da queima de hidrocarbonetos - petróleo, gás natural e carvão - podem aumentar em 70% nos próximos 25 anos caso nada seja feita para contê-las. Elas chegaram a 25 bilhões de toneladas em 2003, o que representou um aumento de 4,5% em relação ao ano anterior, segundo as estimativas mais recentes do Departamento de Energia dos Estados Unidos. Desde que o Protocolo de Kyoto foi assinado em 1997, as emissões subiram 20%.

"Os indivíduos que ocupam o alto da pirâmide da indústria petrolífera estão começando a perceber que existe um problema relativo à mudança climática, e estão procurando maneiras de competir em um mundo no qual a emissão de carbono seja restrita", explica David Keith, especialista em energia e clima da Universidade de Calgary. "Atualmente, a maior parte daquela elite reconhece que o problema é real".

Oportunidade de negócios

Na refinaria Pernis, aqui perto, é bem claro o que está em jogo, e a busca por uma forma de competir está em andamento. Duas chaminés de 210 metros de altura despejam seis milhões de toneladas de dióxido de carbono anualmente na atmosfera, ou 3% das emissões totais na Holanda.

A cada dia, a refinaria processa cerca de 412 mil barris de petróleo cru que são enviados para cá a partir de lugares distantes como a Nigéria, o Kuait e a Noruega, e converte esse petróleo em gasolina e dezenas de outros derivados.

A refinaria, que fica próxima à foz do canal de navegação de Roterdã, no Mar do Norte, ocupa uma área de 688 hectares ocupada por uma desconcertante rede de chaminés e tubulações. O lugar é repleto de barulho e vapor. Existem 165 mil quilômetros de tubulações na refinaria, o suficiente para dar quatro voltas em torno do globo.

A Shell pretende vender 500 mil toneladas de dióxido de carbono por ano. Embora muito gás ainda seja despejado na atmosfera, a redução significa um ganho para o meio-ambiente: jardineiros como van Os deixaram de produzir uma quantidade equivalente de dióxido de carbono para cultivarem as suas flores.

"O clima modelará os nossos negócios", disse Chris Mottershead, conselheiro de políticas climáticas do diretor-executivo da BP, Lord Browne. Algumas das maiores companhias de petróleo, incluindo a BP, a Shell e a Chevron, já estão planejando investimentos multibilionários em fontes de energia renováveis que emitem pouco ou nenhum carbono, como o vento, o sol, os biocombustíveis ou o hidrogênio.

Parte da motivação é uma crescente ansiedade com relação aos fundamentos do negócio.

Conforme diminui o acesso ao petróleo facilmente extraído, os executivos percebem que os combustíveis de amanhã provavelmente serão fabricados a partir de uma variedade de fontes que são muito mais sujas do que o petróleo convencional de hoje. Vários pesquisadores dizem que esta tendência rumo às fontes não convencionais ricas em carbono - petróleo pesado, areias alcatroadas, óleo de xisto ou processos que transformam o gás natural, ou mesmo o carvão, em combustíveis para transporte - implicará na intensificação do aquecimento global, a menos que se desenvolvam tecnologias para reduzir as emissões.

Espera-se que o consumo global de energia suba 50% até 2030, alimentado pelo crescimento demográfico e pelo aumento da prosperidade econômica em nações em desenvolvimento, segundo a Agência Internacional de Energia. A maior parte dessa demanda será atendida por meio de combustíveis fósseis, como o gás natural e o petróleo, que emitem carbono ao serem queimados.

"Ou nós gerenciamos esse aumento das emissões de dióxido de carbono, ou nos conformamos em aceitar uma mudança climática bastante severa", adverte Alexander E. Farrel, professor especializado em questões energéticas e climáticas da Universidade da Califórnia em Berkeley.

A Exxon Mobil há muito insiste em afirmar que o aquecimento global não é uma questão preocupante. Ao contrário dos seus rivais europeus, os executivos da Exxon ainda são céticos, e até mesmo incrédulos, quanto à capacidade de a indústria reduzir as emissões de carbono. A solução que eles preferem é o foco na pesquisa de longo prazo de novas fontes de energia.

"O mundo continuará produzindo muito combustível fóssil", disse em uma
entrevista em março último Rex W. Tillerson, presidente da Exxon. "Façamos isso de forma eficiente, da maneira menos nociva possível, e aguardemos a opção revolucionária que nos levará a um caminho diferente nas décadas que estão por vir. Mas não há atalhos para a solução deste problema. Tem gente procurando atalhos que simplesmente não existem".

David Friedman, diretor de pesquisa da União de Cientistas Preocupados,
argumenta que algumas companhias petrolíferas temem perder o controle sobre a parte mais rentável do negócio, a extração e a produção do petróleo. "Algumas dessas empresas vêem os combustíveis alternativos como uma ameaça ao seu negócio, porque elas não têm controle sobre esses recursos", afirma Friedman. No entanto, os executivos de várias outras companhias encaram o problema de forma mais ativa, ainda que isso se deva ao fato de eles enxergarem nessa estratégia a melhor forma de ampliar o uso de hidrocarbonetos pelas próximas décadas.

"Se formos capazes de resolver o problema do dióxido de carbono, poderemos, de fato, produzir combustíveis fósseis verdes", declarou van der Veer, da Shell, durante uma conferência da indústria, no ano passado, em Paris.

Verde ou não, o futuro da indústria ainda está firmemente vinculado aos
combustíveis fósseis.

Browne da BP surpreendeu os seus colegas em 1997, ao reconhecer abertamente o vínculo entre o aumento das emissões de carbono e o aquecimento global. Outrora uma voz solitária, ele atualmente saboreia o seu status de pioneiro.

Mas Browne certamente não visualiza um mundo livre de hidrocarbonetos tão cedo. Apesar da campanha de marketing da BP e dos acordos feitos pela empresa com vários grupos ambientalistas, o grosso dos US$ 15 bilhões em investimentos neste ano ainda é destinado ao setor de petróleo e gás.

Comparados a isso, os esforços direcionados para as fontes renováveis de energia parecem ser relativamente modestos. A companhia pretende investir cerca de US$ 800 milhões por ano no decorrer dos próximos dez anos para o desenvolvimento de fontes de energia alternativas e de baixa emissão de carbono.

Durante o mesmo período, ela espera gerar receitas de US$ 6 bilhões por ano com energias alternativas. Isso seria uma cifra substancial em qualquer outra indústria, mas a BP obteve um lucro desta monta apenas no último trimestre.

O novo negócio da BP, centrado na energia alternativa, se concentrará
especialmente no setor de energia elétrica, que responde por 40% das
emissões de carbono em todo o mundo. Por volta de 2015, a companhia espera ser capaz de reduzir as emissões de dióxido de carbono em 24 milhões de toneladas anuais em termos absolutos.

"Trata-se de uma mudança progressiva", disse Browne em uma recente
entrevista no seu escritório em Londres, que tem uma vista para a Saint
James Square. "Será que temos tempo suficiente para promovê-la? Será preciso fazer outras coisas? Nunca saberemos. Mas tudo o que posso dizer é que é melhor fazer isso do que não fazer nada".

Enquanto as companhias petrolíferas falam sobre energia verde, centenas de quilômetros ao norte da fronteira entre Estados Unidos e Canadá, elas já estão fazendo uma aposta cara e suja em reservas futuras que provocaram um boom na cidade de Fort McMurray, na província de Alberta, no oeste do Canadá.

Companhias como a Shell, a Chevron, a Exxon e a Total estão investindo
bilhões de dólares na extração de petróleo das formações rochosas
subterrâneas do Canadá. Essas reservas de areias alcatroadas são vastas, tendo o potencial para competir com as reservas da Arábia Saudita, segundo algumas estimativas otimistas.

Acredita-se que a produção a partir das areias alcatroadas canadenses
triplicará, chegando a três milhões de barris diários até 2015, de acordo com o Departamento Nacional de Energia do Canadá.

Um processo caro

O problema é que as reservas do Canadá não fluem livremente da terra. Elas estão tão agregadas ao material rochoso que precisam primeiramente ser derretidas para se desprenderem das rochas antes que possam ser extraídas. Esse processo é muito mais dispendioso do que a extração convencional de petróleo. Como ele requer uma grande produção de energia, o resultado é maior emissão de carbono.

Um litro de gasolina produzida a partir de petróleo extraído de forma
convencional emite cerca de três quilos de carbono, desde o momento em que é extraído até o instante em que é queimado no motor de um automóvel. Isso representa pouco menos de 280 gramas de carbono por quilômetro. A maior parte desse carbono (80%) é emitida quando a gasolina é queimada no motor. O resto diz respeito à operação das companhias de petróleo, quando bombeiam, transportam e refinam o combustível.

Já no caso da gasolina derivada das areias alcatroadas, a emissão de carbono no processo de produção é três vezes maior do que na produção convencional de gasolina, e a emissão derivada da queima no motor é a mesma. Segundo Farrel, da Universidade da Califórnia em Berkeley, de maneira geral, as areias alcatroadas do Canadá geram uma emissão 39% mais elevada do que aquela referente à gasolina derivada do petróleo cru.

O problema é ainda pior quando se trata de outros tipos de combustíveis não convencionais. Os combustíveis derivados do xisto betuminoso do Colorado, ou produzidos a partir do carvão, emitem de 90% a 150% mais carbono do que a gasolina produzida a partir do petróleo, calcula Farrell.

Embora provoquem o interesse em energia alternativa obtida a partir de
fontes limpas, os altos preços do petróleo também estão gerando uma busca por fontes mais sujas.

"Tem gente que acredita que os preços elevados do petróleo resolverão o
problema climático", diz Joseph J. Romm, analista do Centro de Soluções
Energéticas e Climáticas. "Na verdade, esses altos preços encorajam as
buscas não convencionais por petróleo, algo que é realmente ruim sob o ponto de vista do aquecimento global".

Projetos alternativos

Na esperança de conter tal tendência, o projeto alternativo mais ambicioso da BP é a construção de um novo tipo de usina energética que é movida a hidrogênio, captura o dióxido de carbono e injeta este gás em um campo de extração próximo, para ajudar a expelir petróleo ou gás natural. A companhia está planejando a implementação de tais projetos, cada um custando cerca de US$ 1 bilhão, na Califórnia e na Escócia.
Poucas companhias investiram muito nessa tecnologia, mas como vários países estão instituindo leis para a redução de emissões de carbono, essa atitude pode mudar.

"A indústria do petróleo possui o know-how para fazer armazenamento
geológico", diz Stephen Bachu, assessor do Departamento de Energia e
Serviços Públicos de Alberta. "Se alguém perguntar por que isto não é feito, a resposta é que, sob o ponto de vista empresarial, não existe razão para fazê-lo. Ou a indústria do petróleo obtém lucros, e é por isso que há emissão de dióxido de carbono em projetos expandidos para a recuperação de petróleo, ou as companhias petrolíferas implementam esse armazenamento para escaparem das multas".

Segundo os especialistas, em última instância a indústria petrolífera só poderá agir no sentido de reduzir as emissões quando os governos a obrigarem a mudar de comportamento. Por ora, os governos estão confiando mais nos subsídios, mas, segundo eles, a resposta definitiva provavelmente consiste em alguma forma de tributação sobre as emissões de carbono, criando um sistema de recompensas e punições para conter o aquecimento global.

Na Holanda, a meta do governo de produzir 9% da eletricidade do país a
partir de fontes renováveis levou a Shell a construir um complexo eólico marítimo que gerará 108 megawatts. Os subsídios públicos no decorrer da próxima década custearão mais da metade do custo do projeto, que é de 200 milhões de euros (US$ 253 milhões).

Porém, Graeme Sweeney, o responsável pelo setor de energias renováveis da Shell, e que é o "Mister CO2" da companhia, por ser o encarregado da
estratégia de gerenciamento do carbono emitido, diz que para ele pouco
importa que tipo de fonte de energia a Shell está vendendo.

"O ponto fundamental é que nós somos uma empresa do setor de produção de energia", declara Sweeney. Danilo Fonseca

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