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30/06/2006

Maré de idosos pode afogar a economia chinesa

The New York Times
Howard W. French

em Xangai, China
Xangai é propriamente conhecida como uma cidade hipermoderna, veloz, cheia de juventude e vigor. Mas isso obscurece um fato menos conhecido: a cidade tem a população mais velha da China e está envelhecendo rapidamente.

Vinte por cento dos habitantes têm mais de 60 anos, idade comum de aposentadoria para os homens na China. Os aposentados facilmente são o segmento da população que cresce mais rápido, com 100.000 novos idosos chegando às folhas de pagamento a cada ano, de acordo com um estudo da Academia de Ciências Sociais de Xangai. De 2010 a 2020, o número de pessoas com 60 anos ou mais deve crescer em 170.000 por ano.

Até 2020, cerca de um terço da população de Xangai, atualmente de 13,6 milhões, consistirá de pessoas de 59 anos ou mais, o que mudará o tecido social da cidade e trará enorme peso para sua economia e finanças.

As mudanças vão muito além de Xangai, porém. Especialistas dizem que a cidade que rapidamente está ficando grisalha está liderando uma das maiores mudanças demográficas da história, com profundas implicações por todo o país.

A nação mais populosa do mundo, que construiu sua força econômica com base na oferta aparentemente infinita de mão-de-obra barata, a China em breve poderá enfrentar falta de pessoal. A população que envelhece também impõe questões políticas difíceis para o governo comunista, que primeiro estimulou a explosão populacional nos anos 50, depois reverteu o curso e introduziu a política de um filho, poucos anos depois da morte de Mao em 1976.

Essa medida evitou 390 milhões de nascimentos no país, mas poderá se provar outro monumental erro demográfico. Com o crescimento da afluência na China de tirar o fôlego, a maior parte das pessoas vive mais e tem menos filhos, acompanhando as tendências em torno do mundo.

Essas tendências e o índice de natalidade extraordinariamente baixo combinaram para criar um forte desequilíbrio entre jovens e velhos. Isso ameaça o fraco sistema de pensão da nação, que já tem amplos déficits, mesmo com a razão de 4 trabalhadores para cada aposentado para a qual foi planejado.

Os demógrafos também estão antevendo tensões no sistema de registro de moradia, que restringe a migração interna. O sistema impede que jovens migrem para áreas urbanas e aliviem a falta de trabalhadores, mas as autoridades temem que sua abolição libere uma enchente humana para as cidades.

Na medida em que os trabalhadores vão ficando mais escassos e caros nas prósperas cidades da costa Leste da China, o país enfrenta pressões econômicas crescentes para se afastar das linhas de montagem e de outras manufaturas que exigem muita mão-de-obra. Esse trabalho deverá ser assumido por economias mais pobres na Ásia e em outros pontos, enquanto a China se move na direção de indústrias baseadas em serviços e informação.

"Nas últimas duas décadas a China aproveitou a vantagem de ter uma alta proporção de pessoas em idade de trabalho, mas essa situação está prestes a mudar", disse Zuo Xuejin, vice-presidente da Academia de Ciências Sociais de Xangai. "Com a redução da população em idade de trabalho, nossos custos de mão-de-obra vão se tornar menos competitivos, e as indústrias em locais como Vietnã e Bangladesh começarão a se tornar mais atraentes."

A Índia, a outra gigante emergente mundial, também se beneficiará, pois tem baixos salários e uma população muito mais jovem do que a China.

Mesmo dentro da China, disse Zuo, muitos investidores estrangeiros começaram a mudar suas fábricas de Xangai e outras cidades do Leste para o interior, onde a força de trabalho é mais jovem e barata.

Esses problemas podem parecer remotos hoje em Xangai, a cidade mais próspera do país. Mas as evidências das mudanças já são abundantes. Se Xangai representa o futuro da China, é no distrito central da cidade, Jingan, onde quase 4.000 pessoas -30% dos habitantes- têm mais de 60 anos, que se tem um vislumbre do futuro.

Equipes de assistentes sociais em treinamento monitoram os habitantes mais velhos, fazendo visitas regulares para combater seu isolamento e garantir que os problemas médicos sejam tratados.

Às 10h, em uma recente manhã de primavera, Chen Meijuan subiu uma escada de madeira estreita até o apartamento do segundo andar onde Liang Yunyu mora há 58 anos.

"Bom dia vovó", chamou Chen enquanto entrava no pequeno quarto da senhora de 100 anos, cheio de móveis antigos e quadros de caligrafia honrando seu centenário. "A senhora dormiu bem?"

Chen, 49, ganha cerca de US$ 95 (em torno de R$ 210) por mês como uma das 15 agentes responsáveis por monitorar a população idosa do bairro. Ela atende mais de 200 idosos.

"Em geral visito cinco ou seis casas por dia; fico um pouco e converso com eles", disse ela. "Com a avó Lian, sou um pouco mais concentrada, faço duas ou três visitas por semana. Em geral dou conta de todas as pessoas por quem sou responsável, apesar de ter me sentido um pouco assoberbada no início."

Depois de ser apresentada a um visitante estrangeiro, Liang regalou seus convidados com histórias que do século 20. Em alguns minutos, contou sobre a chegada dos invasores japoneses na cidade há quase 70 anos, a inauguração de uma creche em 1958, a prisão de seu marido e sua morte em um campo de trabalho durante a Revolução Cultural, há 40 anos.

"Minha filha sempre me convida para morar com a família dela, mas fico envergonhada de ficar com eles", disse Leung, fazendo uma pausa em suas histórias. "Tenho medo de morrer na casa dela, então prefiro ficar onde estou."

Seu filho, Zha Yuheng, 76, avô e operário aposentado da indústria têxtil, agora mora com ela, o que também a preocupa. "Aqui sou cuidada", disse ela, "mas é uma grande carga para meu filho, infelizmente."

Zha protestou e disse que sua mãe não dava trabalho algum. "Toda manhã pego água para ela e vejo que não esteja nem quente nem fria demais; ela cuida de todo o resto sozinha", disse ele. "Ela se levanta, se veste, faz as camas e até cozinha."

Em muitas sociedades ricas os idosos buscam abrigos. Esse setor, porém, aind a é pequeno na China, especialmente em relação ao tamanho da população de terceira idade. Zhang Minsheng abriu o primeiro lar privado para idosos em 1998, com 350 camas em uma área industrial longe do centro de Xangai. Atualmente, está com 95% de ocupação.

"As pessoas não queriam morar em lares de idosos no passado, porque eram considerados lugares para quem não tinha descendentes", disse Zhang. "Agora está se tornando uma coisa normal do ponto de vista da pessoa comum."

A idade média dos moradores do lar de Zhang é de 85 anos. Ele abriga vários hóspedes por quarto, com camas estreitas separadas por divisões precárias. Muitos passam as horas do dia em longos corredores mobiliados com cadeiras, onde conversam ou simplesmente olham para longe.

A magnitude do fenômeno do envelhecimento fez com que autoridades e acadêmicos chineses buscassem respostas, mas a maior parte concorda que não há soluções fáceis. Especialistas em população falam em "cobrir um buraco e explodir outro".

A China tem uma ampla gama de idades de aposentadoria, em geral entre 50 e 60. Aumentar a idade de aposentadoria aliviaria as pressões sobre o sistema de pensão, mas tornaria mais difícil para os jovens encontrarem emprego. E seria duro para muitos da terceira idade que não se aproveitaram da expansão econômica na China.

Suspender as restrições de migração interna gera a perspectiva de movimentos de massa, e abandonar a política de um filho seria politicamente desaconselhável.

O governo já alterou as regras, porém. Agora permite que maridos e mulheres que foram filhos únicos de seus pais tenham um segundo filho, por exemplo, e eliminou o período de espera de quatro anos entre nascimentos para os que têm direito a ter um segundo filho.

Mas os especialistas chineses dizem que os governantes dificilmente abolirão a regra de um filho, porque relutam em admitir que uma de suas marcas fracassou de alguma forma- particularmente diante do desastroso crescimento populacional estimulado por Mao nos anos 50.

Além disso, acabar com as restrições de filhos pode não ajudar. É possível que as pessoas mais pobres do interior tenham mais filhos, mas não a classe média em ascensão, disseram os especialistas.

"Mais nascimentos apenas mudaria a estrutura da população e prolongaria o processo de envelhecimento. Mas não tem nenhuma relação com o número de pessoas idosas. A enorme escala desse grupo já se tornou uma realidade. As camas a serem adicionadas nos abrigos e o trabalho para cuidar dos idosos são uma realidade da sociedade como um todo que não pode ser modificada", disse Ren Yuan, professor do Centro de Pesquisa Populacional da Universidade Fudan em Xangai. Deborah Weinberg

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