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01/07/2006

Kerkorian pede à GM que se alie a Nissan e Renault

The New York Times
Micheline Maynard

em Detroit
O maior acionista da GM está pressionando a gigante automotiva americana em dificuldades a acelerar seu esforço de recuperação formando uma aliança com duas montadoras estrangeiras, a Nissan e a Renault, que pagariam US$ 3 bilhões por uma participação de 20% na GM.

A proposta do bilionário Kirk Kerkorian, sugerida em cartas às três empresas, é seu mais recente esforço para pressionar o executivo-chefe da GM, Rick Wagoner, a acelerar o ritmo das mudanças.

A empresa adotou medidas drásticas nos últimos meses para cortar custos, em parte em resposta à pressão de Kerkorian, que até o momento perdeu dinheiro com suas 56 milhões de ações da GM, que representam uma participação de 9,9%.

Uma aliança com a Renault da França e com a Nissan do Japão oferece a Kerkorian uma oportunidade de obter a ajuda de Carlos Ghosn, o executivo que supervisiona as duas empresas.

Ghosn, apelidado de "matador de custos", ganhou sua reputação pela rápida recuperação da Nissan no início desta década, onde reduziu a dívida pela metade, lançou novos carros e expandiu as vendas no Japão e nos Estados Unidos.

Se a Nissan e a Renault se aliassem à GM, as empresas poderiam explorar a perícia umas das outras em manufatura, engenharia e desenvolvimento de produto, disse Terry Christensen, o advogado de Kerkorian, na sexta-feira.

"Seria uma aliança incrivelmente importante", disse Christensen, que esteve envolvido nas discussões.

A GM, em uma declaração, disse que a proposta será analisada por seu
conselho diretor, que realizou uma reunião por teleconferência marcada às pressas na sexta-feira, segundo pessoas familiarizadas com as deliberações do conselho.

Os investidores saudaram a perspectiva de uma aliança, provocando uma alta de US$ 2,35 nas ações da GM, para US$ 29,79.

A revelação da ação de Kerkorian causou choque em Detroit, onde os
executivos do setor automotivo estavam se preparando para tirar a próxima semana de folga, no feriado anual de verão da indústria.

Um acordo entre as três empresas poderia remodelar ainda mais a indústria, assim como a fusão em 1998 da Daimler-Benz e a Chrysler Corporation, e o arranjo que ligou a Renault e a Nissan em 1999.

Também daria novo peso à General Motors. Juntas, as três empresas deteriam cerca de um quarto do mercado global, em comparação aos 14% da Toyota, que alguns analistas acreditam que poderá ultrapassar a GM já neste ano para se tornar a maior vendedora.

E forneceria à GM, que perdeu mais de US$ 10 bilhões no ano passado, mais dinheiro para seu plano de recuperação.

Mas não há certeza de que o acordo se concretizará, especialmente
considerando que seu mentor é Kerkorian, que decidiu promover a idéia após um jantar com Ghosn. A administração da GM também não teve participação ativa nas discussões.

Ghosn poderia representar uma possível concorrência para Wagoner, que está sob pressão neste ano devido à péssima performance financeira da empresa, perda de participação de mercado e a falência de sua maior fornecedora de autopeças, a Delphi.

Os diretores da GM, a maioria deles escolhida enquanto Wagoner era
executivo-chefe ou presidente, emitiram uma declaração em seu apoio no
início deste trimestre, quando seu futuro parecia incerto, particularmente após os erros contábeis que forçaram a GM a aumentar suas perdas em 2005.

As pessoas envolvidas nas discussões disseram que a questão do papel de
Ghosn e do futuro de Wagoner ainda não surgiu. Apesar da posição de Wagoner ser considerada sólida, a reputação global de Ghosn e sua tranqüilidade em público poderiam ofuscá-lo.

A Renault e a Nissan disseram em uma declaração que sua parceria nunca foi restrita a duas empresas, podendo ser expandida ainda mais "sob as
circunstâncias certas e com os parceiros apropriados".

Mas, disseram as empresas, "é necessário que o conselho diretor da GM e a administração apóiem plenamente este projeto" antes que as discussões tenham início. O apoio dos conselhos diretores da Nissan e da Renault também seriam necessários, elas acrescentaram.

Funcionários da empresa de Kerkorian, a Tracinda, disseram que gostariam de ver um rápido acerto do acordo, que poderia levar mais seis meses para a obtenção das aprovações das agências reguladoras.

Mas pessoas familiarizadas com o pensamento dos executivos da GM disseram na sexta-feira que a empresa provavelmente não terá pressa em dar uma resposta à Renault e Nissan.

A cautela da empresa é compreensível. A GM já foi picada no passado por
alianças, como o acordo com a Fiat da Itália, que obrigou a GM a pagar US$ 2 bilhões para a Fiat para escapar, e empreendimentos já finados com empresas japonesas como Suzuki e a Fuji Heavy Industries, a dona da Subaru.

Além disso, as empresas automotivas mais fortes, como Toyota, Honda e BMW, são empresas independentes sem as complicações que tais empreendimentos podem criar.

Pessoas com conhecimento direto sobre o assunto disseram que a proposta de participação de 20% foi feita por Ghosn para Kerkorian em um jantar em 15 de maio, em Nashville, onde a Nissan deu início às obras de uma nova sede.

O encontro ocorreu após semanas de telefonemas entre Ghosn e Jerome B. York, um consultor de Kerkorian que se juntou ao conselho diretor da GM em fevereiro.

York, um admirador de Ghosn de longa data, o abordou pela primeira vez
várias semanas atrás para uma sessão de apresentação, que foi realizada em Londres.

Em janeiro, York apresentou um plano para aceleração da recuperação da GM, incluindo o corte de seus dividendos pela metade, a eliminação de marcas com baixa performance como Saab, Saturn e Hummer, e a redução dos salários dos membros do conselho, executivos e funcionários da GM.

A GM defendeu firmemente suas marcas, mas a empresa subseqüentemente reduziu os dividendos juntamente com os salários de seus cinco principais executivos e membros do conselho diretor.

Ao anunciar o plano, York sugeriu que a GM adotasse a velocidade e clareza demonstradas por Ghosn na reestruturação da Nissan, que sofria com a baixa venda de seus veículos e US$ 20 bilhões em dívidas quando ele chegou, no segundo semestre de 1999.

Ghosn, por sua vez, há muito tempo queria expandir a Renault e Nissan além da aliança euro-asiática, para o mercado global.

Apesar de Ghosn ter se recusado a opinar sobre como a GM deveria resolver seus problemas, ele disse a associados que poderia devolver a maior montadora do mundo à lucratividade, assim como fez com a Nissan.

Como as empresas estariam apenas comprando uma participação minoritária na GM, elas não arcariam com todos os problemas desta, disse John Casesa, sócio administrativo da Casesa Strategic Advisers, em Nova York.

Ainda assim, ele disse, "seria bastante complicado no papel ter estas três empresas em uma aliança livre". Mesmo se nenhum acordo for fechado, Casesa interpretou a proposta como um sinal de que a Tracinda manterá a pressão sobre a GM para acelerar sua reestruturação.

Mas Christensen disse que a meta de Kerkorian é fazer mais para ajudar a GM do que simplesmente ganhar dinheiro com suas ações, pelas quais pagou em média US$ 30,10 por ação. Ao preço de fechamento de sexta-feira, Kerkorian ainda continua tendo um prejuízo de US$ 17,3 milhões com suas 56 milhões de ações.

"O valor para os acionistas estará lá", disse Christensen. "Só que mais
importante, a realização e força que daria à GM, e a saúde a longo prazo que daria à GM, seria grande parte disto."

Ghosn adora a oportunidade de negociar tais acordos. Em 2003, ele elaborou pessoalmente o acordo com a Nissan na China, viajando três vezes de Tóquio para finalizar os detalhes.

Ele também parece destinado há algum tempo a despontar em Detroit. Ao longo dos anos, ele já foi cortejado pela Ford Motor Company, que é liderada por William Clay Ford Jr., o bisneto do fundador da empresa.

Da mesma forma, o ativismo de Kerkorian na GM também estava destinado a
despontar, dadas suas ações anteriores na Chrysler, onde era o maior
acionista antes de sua fusão com a Daimler-Benz.

Ele começou a comprar ações da Chrysler em 1990, se tornando um forte aliado de seu então executivo-chefe, Lee A. Iacocca. Mas cinco anos depois, com a aposentadoria de Iacocca e a queda nos preços das ações da Chrysler, ele e Iacocca lançaram uma tentativa de tomada.

Ela não foi bem-sucedida. Mas a Chrysler concordou em colocar um dos
representantes de Kerkorian em seu conselho diretor e dobrar um programa de recompra de ações.

As coisas estão particularmente turbulentas na Nissan, que viu suas vendas e participação de mercado nos Estados Unidos caírem neste ano, em um momento em que as montadoras asiáticas conquistaram um recorde de 40% do mercado.

Mais da metade dos funcionários da empresa em seu quartel-general na
Califórnia decidiu não se mudar para a nova sede americana da Nissan nos arredores de Nashville. Enquanto isso, a Nissan está transferindo parte da produção e trabalho de engenharia de volta ao Japão, devido à carga de trabalho pesada enfrentada por seus funcionários e fábricas nos Estados Unidos.

No ano passado, Ghosn se mudou de Tóquio para Paris e está supervisionando o esforço de reestruturação da Renault, da qual foi executivo antes de assumir a Nissan, no segundo semestre de 1999.

A GM, por sua vez, está no meio do fechamento total ou parcial de uma dúzia de fábricas e do corte de 30 mil vagas de trabalho como parte de seu esforço de reestruturação. Na segunda-feira, a GM disse que 35 mil de seus 113 mil funcionários que recebem por hora concordaram em aceitar incentivos para aposentadoria e recompra de ações para deixarem a empresa, mais do que o suficiente para compensar a eliminação das vagas de trabalho.

Mas ainda resta chegar a um acordo de três partes com o sindicato United Automobile Workers e com a Delphi, que fazia parte da GM até sua separação em 1999. George El Khouri Andolfato

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