UOL Notícias Internacional
 

02/07/2006

Eleição mexicana será decidida pela classe média dividida

The New York Times
Ginger Thompson
Em Nicolas Romero, México
Apesar da eleição presidencial do México ter sido amplamente tratada como uma luta entre ricos e pobres, o resultado da votação de 2 de julho quase certamente será decidida por eleitores como aqueles que vivem nos bons condomínios que foram construídos aqui há dois anos.

Pela primeira vez desde 1995, quando uma crise bancária esmagou as aspirações econômicas do país, a inflação e as taxas de juros estão baixas o suficiente para começar a levar um número significativo de famílias trabalhadoras para comunidades fechadas como a de Cantaros III, aqui no Estado do México.

Com um pé fora do atoleiro econômico do México e com filhos próximos de se formarem na faculdade, as famílias de classe média daqui fornecem um microcosmo dos 35% de eleitores mexicanos cujas lealdades cruzam as linhas políticas e que estão sendo cortejados pelos dois principais candidatos: Felipe Calderón, um tecnocrata conservador que é apoiado pelos líderes empresariais, e Andrés Manuel López Obrador, o populista de esquerda que conta com apoio passional entre os pobres.

Apesar da corrupção desenfreada no governo e uma guerra total entre a polícia e os poderosos cartéis das drogas do país, a economia parece no centro da mente de quase todos. No geral, a meia dúzia de eleitores entrevistados aqui concordou que os últimos seis anos de estabilidade foi um alívio bem-vindo em relação à montanha-russa das últimas duas décadas. Mas ao mesmo tempo em que expressaram temor de que uma mudança repentina na política econômica poderia provocar uma crise, eles também expressaram frustração de que o governo não fez o suficiente para ajudar os oprimidos.

As sete décadas consecutivas de governo corrupto e autoritário do Partido Revolucionário Institucional, ou PRI, encerradas seis anos atrás, ainda não saíram da mente dos eleitores. Apenas duas pessoas entrevistadas disseram que votariam no candidato do PRI, Roberto Madrazo, cuja reputação foi manchada por acusações de corrupção. E quando explicavam como chegaram à decisão entre Calderón e López Obrador, quase todos descreveram uma seleção entre meses de badalação e campanhas negativas e uma confiança na intuição sobre que candidato está dizendo a verdade.

Aqui em Cantaros III, onde todas as casas parecem as mesmas e custam o mesmo, os pontos de vista políticos dos moradores cobriam todo o mapa.

Karina Miranda e Rodrigo Hernandez, por exemplo, moram um em frente ao outro aqui. A história deles é tão parecida e a atração entre eles é tão forte que à primeira vista poderiam ser confundidos com um casal.

Mas ao falarem sobre a eleição presidencial, um tipo diferente de faísca começa a voar. Miranda, que acabou de se formar na escola de direito e está à procura de emprego, disse que votará em Calderón, um ex-ministro da Energia. Hernandez, que está estudando arquitetura e aspira desenvolver atrações turísticas, apóia López Obrador, o ex-prefeito da Cidade do México.

Miranda, 25 anos, viu a vida de sua família melhorar muito nos seis anos desde que Vicente Fox se tornou o primeiro candidato da oposição a ser eleito presidente do México. Os 10 anos de sua mãe como enfermeira em um hospital público a qualificaram para um empréstimo do governo a juros baixos que permitiu que a família se mudasse para Cantaros III, há seis meses, de uma casa caindo aos pedaços em uma rua não pavimentada, sem iluminação de rua, não longe dali.

Ela disse que apóia Calderón, o candidato do Partido Ação Nacional de Fox, por causa de suas promessas de manter o país no mesmo curso.

"López Obrador disse que vai tirar dinheiro dos ricos e dá-lo aos pobres, mas os ricos não mantém seu dinheiro neste país", ela disse. "Então, de onde ele vai tirar todo o dinheiro para os pobres? De impostos. E quem paga a maioria dos impostos? A classe média."

Hernandez, 22 anos, disse que apóia López Obrador porque viu quão difícil foi para sua família sair da pobreza, e quantas famílias de seus amigos ainda não conseguiram.

"Eu não acho que o México deve fazer parte de uma economia globalizada porque ele não tem um mercado forte o suficiente para competir", ele disse. "A lição que aprendemos com o Nafta é que nossos agricultores não podem competir com os Estados Unidos", ele disse, se referindo ao Acordo de Livre Comércio da América do Norte.

Fora de Cantaros III, as divisões de classe que dividem o México e determinam as preferências presidenciais são mais fáceis de ser vistas. Mas mesmo lá fica claro que Calderón e López Obrador conquistaram apoio de pessoas de todos os níveis da sociedade. Em muitos casos as pessoas expressaram sua preferência com base em seu sentimento em relação a López Obrador, refletindo seu domínio das atenções.

Escutar tais vozes ajuda a explicar por que o resultado desta eleição ainda não está decidido.

Há uma enxurrada de comentários de estudiosos e jornalistas nos grandes jornais. Jorge Fernández Menéndez, um repórter investigativo e colunista, escreveu que a candidatura de López Obrador foi marcada por uma "política messiânica" que "não aceita divergência ou diferença de opinião, e que não pensou duas vezes em se livrar dos melhores homens e mulheres do seu partido caso não o apoiassem incondicionalmente".

Dezenas de estudiosos, cientistas, artistas e figuras culturais, incluindo a romancista Laura Esquivel, o historiador Lorenzo Meyer e a astrônoma Julieta Fierro, assinaram anúncios de página inteira na semana passada expressando seu apoio a López Obrador. E no domingo passado, a revista política "Processo" noticiou que dos 66 escritores, diretores, dançarinos e músicos que pesquisou, nenhum planejava votar em Calderón.

Há empresários com Fernando Schutte, um empreendedor imobiliário que disse apoiar López Obrador porque não pode aceitar que a economia está saudável quando ele está se saindo bem, só que mais da metade de todos os mexicanos vivem com US$ 4 por dia. E há coletores de lixo como Antonio Roa, que disse que votará em Calderón porque sua filha obteve bolsa de estudos sob Fox e que deseja que tais programas continuem.

Um mecânico, Javier Rodea, 40 anos, disse que votará em Calderón porque escutou que "López Obrador é um socialista e se vencer será ruim para nós".

Manuel Suárez, o proprietário de duas lojas de ferragens na Cidade do México, disse que votará em Calderón porque as políticas de López Obrador inflamaram as tensões entre ricos e pobres.

"Ele é uma pessoa vingativa, que não é justa", disse Suárez sobre López Obrador. "Ele é o tipo de pessoa que arruinará a economia e a paz social."

Enquanto isso, Juan Antonio José, que é representante de vendas de uma empresa americana, disse que apoiará López Obrador porque tem "uma consciência um pouco maior das necessidades da maioria pobre, se concentrando mais no mercado local do que no estrangeiro".

José disse que está no atual emprego há 15 anos e viu quanto os produtos mexicanos perderam competitividade frente ao contrabando e aos importados da China. Ele não aceita as afirmações de analistas com o historiador Enrique Krause e do ex-ministro das Relações Exteriores, Jorge Castañeda, de que López Obrador governará o México da mesma forma que o presidente Hugo Chávez governa a Venezuela.

"México e Venezuela são duas realidades diferentes", ele disse. "Para mim, alguém que acredita que a riqueza deve ser distribuída um pouco mais é bem-vindo."

A economia cresceu tão pouco nos últimos anos a ponto de não haver nova riqueza para distribuir. Ainda assim, ao manter a disciplina orçamentária que teve início no final dos anos 90, o governo Fox foi capaz de manter o peso estável, reduzir a inflação e ressuscitar a classe média.

Rafael Jiménez, um pesquisador independente que trabalha para Calderón, disse que a estabilidade permitiu que cerca de 1% da população saísse da pobreza para a classe média em cada um dos cinco últimos anos. E, ele acrescentou, o governo forneceu cerca de 3,5 milhões de empréstimos acessíveis para aquisição de imóveis para estas pessoas.

O Estado do México, um movimentado corredor industrial e comercial que envolve a Cidade do México, a capital do país, é o maior centro de tal renascimento. Ainda assim, da mesma forma que os moradores de Cantaros III acham que deram um grande salto para o lado melhor da desigualdade de renda do país, a pobreza da qual acharam ter escapado apareceu do lado de fora de seus portões.

Dezenas de camponeses, a maioria trabalhadores rurais desesperados por casas próprias, ocuparam as colinas ao redor do condomínio. Eles ergueram barracos de papelão e exigiram que o governo lhes permitisse comprar terras com crédito subsidiado, assim como as pessoas dentro de Cantaros III.

As iniciais do Partido Revolucionário Democrático, PRD, de López Obrador, estavam escritas com pedras de cal no campo.

"Nós sabemos que estamos violando a lei", disse Lucrecia Antonio Jiménez, 47 anos. "Mas estamos violando por necessidade. Nós estamos dispostos a fazer o que for preciso para ter nosso próprio pedaço de terra."

Poucas semanas atrás, os camponeses bloquearam a entrada de Cantaros III para chamar a atenção das autoridades do governo. Em vez disso, elas pareceram perder a boa vontade de seus vizinhos de renda mais alta.

"Aquelas pessoas não acreditam que precisam obedecer leis e devem ser mandadas de volta para o lugar de onde vieram", disse Miranda. "Este é exatamente o tipo de coisa que continuará acontecendo se López Obrador se tornar presidente."

Hernandez não discorda totalmente que os camponeses devem ser mandados de volta para casa.

"O governo precisa fornecer crédito para os agricultores pobres para que possam permanecer nas suas terras", ele disse. "A agricultura é uma parte importante de nosso passado. López Obrador quer torná-la uma parte importante de nosso futuro." George El Khouri Andolfato

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