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04/07/2006

Bairro de Queens, em Nova York, tem vários dias da independência

The New York Times
Michelle O'Donnell
O Dia da Independência é comemorado uma vez por ano na maior parte dos Estados Unidos. Mas no bairro nova-iorquino de Queens, o condado etnicamente mais diversificado dos Estados Unidos, e no qual 44% dos seus 2,2 milhões de moradores nasceram no exterior, essa data é comemorada várias vezes ao ano.

Em 25 de março, a região de Astoria enche-se de bandeiras azuis e brancas, em comemoração ao 185º aniversário do início da guerra grega de independência do Império Otomano. No dia seguinte, imigrantes bangladeshianos de Woodside a Bayside celebram a secessão de Bangladesh do Paquistão. E em 5 de maio, os mexicanos de todo o bairro festejam barulhentamente um feriado nacional que acabou eclipsando o 16 de setembro, o verdadeiro Dia da Independência do México.

Depois há o 26 de maio (Guiana), o 6 de agosto (Bolívia e Jamaica), o 24 de agosto (Ucrânia) e o 1º de setembro, para citar algumas datas, todas elas celebradas com aquela sensação amarga de saudade e orgulho que é típica até mesmo dos novos norte-americanos mais entusiastas.

Mas o 4 de julho é diferente. É um dia para se olhar adiante, e não para trás. O aroma dos hambúrgueres chiando nas grelhas não desperta nenhuma lembrança do Velho Mundo, os coros de "America the Beautiful" não ensombrecem o passado. Trata-se apenas de um recomeço. E em uma era de telefones celulares e televisão por satélite, que estreitam os laços com os países nativos, muitos afirmam apreciar o quatro de julho como sendo uma data na qual podem trocar as suas identidades mais complexas, nascidas do entrechoque de duas culturas, por apenas uma identidade norte-americana.

"No 4 de julho, esquecemos o nosso país", afirma Martha Marino, 48, de Jackson Heights, que se mudou da Bolívia para os Estados Unidos 16 anos atrás. "Nesta data só nos sentimos estadunidenses. Sentimos que fazemos mais parte deste país".

Roy Ramdayal, um melancólico taxista que se mudou da Guiana para Richmond Hill em 1990, concorda. "No 4 de julho estamos de fato nos Estados Unidos e temos que pensar sobre isto aqui", afirma Ramdayal, 49, com firmeza, usando um boné dos Yankees e uma camiseta cinza com um desenho do conjunto de arranha-céus de Manhattan, sentado em um arruinado banco de vinil, enquanto aguarda uma corrida no ponto de táxi Little Guyana, na Rua 129.

Não faz muito tempo que havia duas bandeiras lado a lado na fachada da casa de Ramdayal na Rua 128. Mas, recentemente, a bandeira guianense caiu, e ele a levou para dentro, deixando apenas a bandeira norte-americana de pé.

Ramdayal disse não ter certeza de que vai recolocar a bandeira da Guiana na fachada. Ele se recorda de que o seu país natal conquistou a independência quando ele tinha nove anos de idade.

"Nós tivemos uma boa comemoração, e no início gostamos, mas logo a política tomou conta de tudo", conta ele. "Foi um desastre". Ramdayal diz que a criminalidade era alta na Guiana, e que aprecia a sensação de segurança que encontrou nos Estados Unidos.

Recentemente, ao longo da Avenida Woodside, em uma tarde sufocante, Dilruba Bashar, 36, uma dona de casa de Bangladesh, disse que ela também ficou feliz por escapar dos altos índices de criminalidade do seu país nativo sete anos atrás. Mesmo assim, ela e o marido, Khairul, que é gerente de uma drogaria, comemoram os dias da independência de Bangladesh e dos Estados Unidos, assim como o 16 de dezembro, o Dia da Vitória em Bangladesh. Eles procuram transmitir ambas as culturas para a filha, Tasfia, de seis anos.

Nos anos anteriores, Dilruba Bashar preparou um prato tradicional a base de frango - usando sal, curry, cebola, canela, cardamono e louro - para um piquenique de 4 de julho no Astoria Park. Mas neste ano, como Khairul Bashar terá que trabalhar, ela ficará em casa.

A uns poucos blocos dali, Engracia Fuentes, que veio do México para Woodside, proporcionou à sua filha de três anos, Michelle, um alívio para o calor com um suco com sabor de laranja, e falou sobre o churrasco de 4 de julho que fará com 35 amigos e familiares em Prospect Park. Serão servidos massas, saladas e hambúrgueres.

Segundo ela, a comida mexicana é reservada para o Cinco de Mayo.

Sob os viadutos ferroviários, Ann Gill, de Rockaway Beach, espera por uma amiga após o dentista. Gill, uma secretária aposentada que usa um reluzente anel celta dourado no dedo, foi criada aqui perto, filha de imigrantes irlandeses pobres que abraçaram a cultura norte-americana com entusiasmo.

"Não havia ninguém mais patriota", afirma Gill, relembrando o vestido vermelho, branco e azul com o qual a sua mão a vestia todos os anos no 4 de Julho.

Observando os quiosques na Avenida Roosevelt, Shajeda Aktar, 21, vestida dos pés à cabeça com véu, túnica e calças largas na cor lilás, diz que pretende comemorar o feriado vendo os fogos de artifício. Com o seu inglês carregado de sotaque, ela diz que agora é verdadeiramente norte-americana, um fato que ficou patente quando visitou os parentes em Bangladesh. Eles observaram o seu comportamento mais expansivo e o tom de voz mais alto, e se referiram a ela como sendo norte-americana.

"Sou meio diferente", afirma Aktar.

Em Ridgewood, Lesya Musievska puxa pela mão o filho, Nicholas, 3, ao longo da Avenida Myrtle. Musievska, 30, que há seis anos veio da Ucrânia para cá, não pretende comemorar o 4 de julho, embora tenha feito tal coisa nos outros anos. Embora ela e o marido tenham prosperado aqui, Musievska diz que ainda se sente mais ucraniana do que norte-americana, embora a sua mãe, que mora na Ucrânia, lhe diga freqüentemente que ela agora é norte-americana.

"A minha mãe me diz que tenho que ficar aqui, porque agora sou diferente", explica Musievska, que trabalha como caixa de banco. "Quando eu obtiver a cidadania, vou tentar trazê-la para cá".

Esse era o sonho de Marino, dona de uma loja de ferragens em Jackson Heights. Mas a sua mãe morreu quando faltavam três meses para ele obter o visto de permanência que lhe permitiria viajar à Bolívia e retornar ao Queens.

Atrás da caixa registradora, e tendo ao fundo uma parede cheia de tachas, pregos e cordas que ela vendeu para ascender solidamente à classe média norte-americana, Marino se recorda da mãe, que a encorajou a se mudar para os Estados Unidos e construir uma vida nova.

"Sinto-me mais norte-americana do que boliviana porque, aqui, neste país, eu encontrei a tranqüilidade", disse ela. Danilo Fonseca

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