UOL Notícias Internacional
 

04/07/2006

Estudando uma cura para o cérebro com 19 anos perdidos

The New York Times
Benedict Carey

em Harriet, Arkansas
Terry Wallis passa quase todas as suas horas despertas na cama, escutando música country em um bangalô apertado de dois quartos, em uma estrada de cascalho saída da rodovia estadual 263.

Ron Phillips/The New York Times 
Terry Wallis é cercado por sua neta Tori, sua filha Amber e seus pais Jerry e Angilee

Wallis, 42 anos, exibe uma expressão curiosa, franca, e fala com voz enrolada mas de forma coerente. Ele responde ao cumprimento do visitante com "o prazer é meu" e consegue falar com dificuldade sobre os planos de sua família de queimar fogos na casa de seu irmão, próxima dali.

Para sua família, cada palavra é um milagre. Por 19 anos -até 11 de junho de 2003- Wallis permaneceu mudo e virtualmente sem apresentar nenhuma resposta em um estado de consciência mínima, o resultado de um ferimento na cabeça que sofreu em um acidente de carro. Desde sua abrupta recuperação -sua primeira palavra foi "mãe", pronunciada ao vê-la- ele continua melhorando, falando mais, se lembrando de mais.

Mas o retorno de Wallis ao mundo, e o progresso que ele fez, também são uma espécie de milagre para os cientistas: uma oportunidade sem precedente para estudar, usando tecnologia avançada de escaneamento, como o cérebro pode se recuperar repentinamente de tais ferimentos severos, duradouros.

Em um estudo que será publicado na terça-feira, pesquisadores estão relatando que encontraram forte evidência de que o cérebro de Wallis está se curando sozinho, formando novas conexões neurais desde 2003.

O estudo, publicado na revista "Journal of Clinical Investigation", inclui uma série de imagens do cérebro de Wallis, as primeiras imagens do gênero tiradas de um paciente com recuperação tardia.

Os novos resultados aumentam as esperanças de que os médicos algum dia terão a capacidade de determinar quais pacientes com lesões cerebrais severas terão a melhor chance de se recuperar. Eles também poderão ajudar a resolver disputas em casos como os de Terri Schiavo, a mulher da Flórida removida do aparato de suporte à vida no ano passado, após um amargo debate nacional em torno dos direitos dos pacientes. Schiavo sofreu um dano cerebral mais profundo do que o de Wallis e não exibia sinais de resposta consciente, segundo os neurologistas que a examinaram.

"Nós lemos sobre estes casos amplamente divulgados de recuperações milagrosas em intervalos de anos, mas nenhum deles, nenhum, tinha sido acompanhado cientificamente até agora", disse o dr. Nicholas Schiff, um neurocientista do Weill Cornell Medical College, em Manhattan, e principal autor do novo estudo com imagens.

Cerca de 100 mil a 200 mil americanos subsistem em estados de consciência parcial ou mínima, separados das pessoas ao seu redor.

No sábado, Wallis disse que se sentia bem, mas não demonstrava se recordar do estudo. Após um estímulo de sua mãe, ele se lembrou de ter voltado ao laboratório dos pesquisadores em Nova York.

"Gasolina", ele disse, se referindo à parada feita pelo avião para
reabastecimento. "Nós paramos para gasolina."

Sua mãe, Angilee Wallis, disse: "Ele está começando a aprender as coisas".

Nas últimas semanas, ela disse, ele também tem demonstrado indícios de
autopercepção, citando sua condição inválida pela primeira vez.

Angilee, 58 anos, e seu marido Jerry, 62 anos, moram e cuidam de seu filho em uma casa branca de madeira, com uma pequena varanda de concreto cercada por todos os lados de hectares de árvores. Big Flat, Arkansas, população 109 habitantes, conta com um punhado disperso de tais casas e estradas de terra ao lado de uma interligação rodoviária que conta com duas lojas de bebidas alcoólicas. O mercado decente mais próximo fica a 30 minutos de distância.

Para a família Wallis, o acidente de Terry, seus longos anos de ausência mental e seu retorno foram uma história de celebridade tanto quanto de recuperação, de como a atenção da mídia pode chegar como uma inundação relâmpago e secar rapidamente, deixando as famílias sem saber o que significou toda a atenção, se é que significou algo -e se valeu a pena.

Ele era um jovem esguio de 19 anos em 1984, com um dom para "pegadinhas" elaboradas e mecânica, quando ele e dois amigos derraparam para fora de uma ponte em uma picape, caindo de cabeça para baixo em um leito seco de rio. A família nunca soube exatamente o que aconteceu e o acidente deixou o filho deles vivo mas sem responder, respirando mas imobilizado, lá mas não lá, como disse seu pai.

Wallis não exibiu melhoria no primeiro ano e os médicos logo o declararam em estado vegetativo persistente, lhe dando virtualmente nenhuma chance de recuperação, disseram seus pais.

Cerca de 52% das pessoas com traumatismos na cabeça, freqüentemente causados por acidentes de carro, recuperam alguma consciência no primeiro ano após o ferimento, revelam estudos; poucos o fazem depois. Apenas 15% das pessoas que sofrem danos cerebrais por privação de oxigênio -como Schiavo, cujo coração parou temporariamente- recuperam alguma consciência nos primeiros três meses. Um análise de 1994 envolvendo mais de 700 pacientes em estado vegetativo revelou que nenhum se recuperou após dois anos.

Mas a certa altura após seu acidente, provavelmente em questão de meses, Wallis, que trabalhava como mecânico, entrou no que é chamado de estado de consciência mínima, disse Schiff. O diagnóstico, estabelecido formalmente em 2002, é dado a pessoas com danos cerebrais severos mas que apresentam resposta ocasional. Em seus bons momentos, elas podem acompanhar objetos com os olhos, responder a comandos piscando, resmungando ou realizando pequenos movimentos. Elas podem passar o resto de suas vidas nesta condição; mas é um passo intermediário necessário caso venham a ganhar alguma consciência, disseram neurologistas.

Wallis passou os 19 anos seguintes de sua vida em um asilo na vizinha
Mountain View, Arkansas, e parentes que o visitaram disseram que viram
muitos indícios de consciência neste período. Ele parecia se animar quando entravam no quarto. Algo em seu rosto se enrijecia quando estava chateado.

Nada disto tornou o dia em que disse "mãe" menos empolgante. Angilee, com a voz trêmula, rapidamente deu a notícia para toda a família e amigos. Posteriormente, o paciente teve outra visita, uma atraente loira de 19 anos: sua filha, Amber, que tinha seis meses na época do acidente. "Eu estava tão nervosa enquanto dirigia para lá que ficava olhando no espelho retrovisor para checar meu cabelo, eu juro, de tão preocupada que estava de que ele não me reconheceria", disse ela.

Quando ele finalmente reconheceu, ela disse, a primeira coisa que disse foi: "'Você é linda' e disse que me amava".

Foi uma transformação. Ele ainda estava inválido, mal capaz de se mover ou falar, mas podia ser reconhecido como Terry.

Os meses que seguiram trouxeram ainda mais emoções. Wallis, agora
"recuperado" mas ainda necessitando de atenção ininterrupta, se mudou para a casa de seus pais, transferindo grande parte do ônus financeiro de seus cuidados para eles.

E o mundo veio à procura deles. Uma equipe de cinegrafistas do Japão chegou e passou duas semanas realizando entrevistas diárias e filmando. Outra veio da Inglaterra. Ocorreram aparições em programas de entrevista, agentes, documentaristas, o que forçou Angilee a se licenciar de seu emprego em uma fábrica local para ajudar seu marido, um mecânico e agricultor, a bancar o anfitrião.

Mas a atenção logo se dissipou e o fundo criado pelos pais para os cuidados com seu filho -o Fundo para as Necessidades Especiais de Terry Wallis- tem atraído poucos doadores substanciais, eles disseram.

Eles disseram que seu filho ainda precisa ser alimentado, que alguém lhe dê banho, o ajude a se exercitar e que seja virado na cama a cada duas horas, dia e noite. A filha dele assume dois turnos por dia para cuidar dele e outra pessoa começou a trabalhar para a família.

Mas, de certa forma, é como viver com uma criança que nunca sai de casa ou cresce: lá, no fundos, perto das árvores, está sua antiga van Ford cinza, intocada desde 1984; na frente está um barco de alumínio que seu pai comprou para ele, mas que nunca foi usado.

Em 2004, Schiff entrou em contato com a família e perguntou se autorizariam que seu filho fosse estudado. Ele ajudou a arranjar para que os Wallis fossem levados de avião a Nova York em abril daquele ano e, de novo, 18 meses depois, para um escaneamento cerebral. Uma equipe de pesquisa de Nova York, Nova Jersey e da Nova Zelândia passou mais de um ano analisando os resultados, os comparando às imagens de cérebros saudáveis e com as de outro paciente com consciência mínima, que não se recuperou.

Usando uma nova técnica que permite aos pesquisadores medir a direção e
densidade do crescimento da fibra neural, eles viram evidência de novo
crescimento na linha média do cerebelo, uma área envolvida no controle
motor, enquanto Wallis ganhava força e controle em seus membros. Outra área com novos crescimentos, localizada ao longo da parte posterior do cérebro, é segundo alguns especialistas um centro chave para a consciência.

Os exercícios diários, a interação com seus pais, sua dose regular de
medicação antidepressora: qualquer uma destas coisas ou todas elas podem ter estimulado as células do cérebro a desenvolverem mais conexões, disseram os pesquisadores.

"A grande oportunidade perdida é que não sabíamos que este sujeito
despertaria espontaneamente e não pudemos monitorá-lo antes disso" para
descobrir o que precedeu, disse Schiff.

Para responder a esta pergunta de forma sistemática, os pesquisadores
precisarão seguir mais pacientes minimamente conscientes por períodos mais longos, disseram especialistas. Mas não há nenhum sistema nacional para acompanhar tais pacientes, eles disseram, nem existe um banco central de dados como para outras doenças.

"Nós não vemos estas pessoas, elas existem fora de nossa atenção, a ponto de nem sabermos onde vivem", disse o dr. Joseph Fins, chefe da divisão de ética médica do New York Presbyterian Hospital-Weill Cornell Medical Center.

Um registro de tais pacientes, ele disse, seria por si só um recurso valioso para a avaliação das chances de recuperação.

Wallis, ficou claro no último fim de semana, continua vivendo cada dia. Ele já tem uma neta, Victoria, a filha de Amber, e a menina de 2 anos não vê nada incomum no homem pálido com bigode escuro e braços curvados para dentro. Ele não sente nenhuma dor física, ele disse aos seus pais, e não tem noção de tempo. Ele também disse recentemente que estava "orgulhoso" de estar vivo.

"É bom saber tudo isto", disse seu pai, sentando na varanda na noite de
sábado.

"É bom escutá-lo dizer isto, porque se ele não tivesse dito, não teríamos como saber."

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