UOL Notícias Internacional
 

05/07/2006

Muitas cédulas não foram contabilizadas nas eleições mexicanas

The New York Times
James C. McKinley Jr. e Ginger Thompson

na Cidade do México
A crise eleitoral Mexicana aprofundou-se na terça-feira (04/7): o candidato de esquerda exigiu uma recontagem dos votos, e autoridades eleitorais admitiram que até 3 milhões de cédulas não foram contabilizadas nos resultados preliminares.

As cédulas contadas até agora colocaram o conservador Felipe Calderon na frente de seu oponente de esquerda, Andrés Manuel Lopez Obrador, por menos de 400.000 votos.

O questionamento de Lopez Obrador deixou claro que este país está prestes a passar por sua própria versão da longa batalha judicial que os americanos viveram nas eleições presidenciais de 2000. A controvérsia no México, entretanto, em vez de estar concentrada em um Estado, pode ser nacional.

Um dia antes do Instituto Federal Eleitoral, ou IFE, começar sua tabulação final oficial de 43 milhões de cédulas, foram levantadas questões sobre votos não contabilizados, relatórios desaparecidos, votos anulados e cédulas em branco que foram registradas na contagem preliminar.

Alguns partidários de Lopez Obrador, ex-prefeito populista da cidade do México, começaram a reclamar da possibilidade de fraude e manipulação do sistema de contagem, uma reação inevitável em um país com uma longa história de eleições fraudulentas.

Algumas dezenas de manifestantes reuniram-se em uma importante avenida ao sul da Praça Central, o Zocalo, vestindo camisetas de Lopez Obrador. "As eleições foram roubadas!" gritavam. "Vamos lutar!"

Observadores estrangeiros, no entanto, disseram que as eleições foram transparentes e sem problemas, acrescentando que o sistema do México pode até servir de modelo para muitos países.

Luis Carlos Ugalde, presidente do IFE, causou espanto na manhã de terça-feira quando admitiu em entrevista em cadeia nacional de televisão que a contagem preliminar não poderia ser considerada final e que mais de 3 milhões de votos ainda não tinham sido contados.

Ele disse que essas cédulas não foram contadas porque estavam inteligíveis ou não chegaram aos seus escritórios a tempo. "É uma questão de erro humano", disse Ugalde, "não fraude".

Em uma conferência com a imprensa na terça-feira, o ministro do interior do México, Carlos Abascal, minimizou as possibilidades de recontagem cédula por cédula, dizendo que era "fisicamente impossível e também legalmente impossível". Autoridades eleitorais disseram que a lei mexicana só permite que as urnas sejam abertas se houver evidência de violação, se os relatórios de votos estiverem ilegíveis ou se houver erros nos cálculos.

Lopez Obrador e membros de seu Partido Revolucionário Democrático não acreditam que houve amplas fraudes nesta eleição. Entretanto, acham que houve suficientes erros e irregularidades para mudar a balança.

Em uma tensa conferência com a imprensa na terça-feira, líderes do partido alegaram que os votos para Lopez Obrador não foram contados em algumas seções e em outras o voto para Calderon foi contado duas vezes.

O senador Jesus Ortega, gerente da campanha, exigiu que autoridades eleitorais abrissem todas as urnas seladas. "Eu digo que seria bom para a saúde da república recontar voto a voto", disse ele.

Enquanto Lopez Obrador permanecia fechado em seu apartamento, seus assessores de campanha insistiam que as pesquisas na saída das urnas mostravam que ele havia vencido e que a recontagem lhe daria a vitória.

"Não estamos em um jogo de poder", disse Manuel Comacho Solis, ex-prefeito da Cidade do México que ajudou a dirigir a campanha. "Mas estamos defendendo nossos direitos."

Os assessores de Calderon, enquanto isso, continuavam dizendo que a contagem oficial no final da semana lhe daria a vitória.

"Nesta eleição, Calderon tinha a vantagem, e isso será ratificado quando a contagem de todos os conselhos eleitorais estiver terminada", disse German Martinez, representante do Partido de Ação Nacional no instituto eleitoral.

A contagem oficial final, que será iniciada na quarta-feira, não é nova no México. O sistema vigora desde 1994, mas era considerado pouco mais do que uma formalidade, porque as duas últimas disputas presidenciais foram decididas por margens tão grandes que o vencedor foi anunciado pouco depois do fim da votação.

Com a disputa tão empatada, a contagem final é a única que importa. Urnas seladas foram enviadas de 130.000 postos eleitorais para 300 escritórios distritais no país. Na quarta-feira, as urnas serão abertas e os relatórios serão lidos em voz alta diante de representantes de todos os partidos políticos e quaisquer cidadãos interessados.

Se todos os partidos concordarem com os relatórios, eles entrarão para a base de dados computadorizada e a urna será armazenada. Se algum partido questionar o resultado, as autoridades eleitorais recontarão as cédulas dentro daquela caixa, uma a uma. E se ainda houver discordância, a questão será encaminhada a um tribunal eleitoral.

"No fundo, é muito difícil imaginar fraude com tantas salvaguardas dentro do sistema. Até agora, o processo está funcionando. Lopez Obrador apresentou suas queixas, e como o sistema é muito transparente, elas podem ser resolvidas enquanto o processo continua", disse Chris Sabatini, diretor de políticas da Sociedade das Américas, que tem observadores eleitorais no México.

O processo será o foco de intenso escrutínio por líderes do partido e cidadãos ordinários. Manifestantes começaram a se reunir para exigir justiça diante dos escritórios da comissão eleitoral. Alguns carregavam votos para Lopez Obrador encontrados no lixo em Milpa Alta. Outros levavam cartazes improvisados que pediam à comissão eleitoral: "IFE, não roube nossa esperança".

"Se eles contarem os votos com justiça, e perdermos a eleição, reconheceremos isso", disse sara Matamoros, 34. "Mas queremos que contem os votos."

"Votamos pela mudança", acrescentou, "chega disso que está aí".

Ao explicar os votos não contabilizados, Ugalde, presidente do conselho eleitoral federal, disse que 600.000 cédulas podem não ter chegado aos escritórios do conselho para serem incluídas na contagem preliminar.

Enquanto isso, ele disse, até 13.000 relatórios -que incluem cerca de 2,6 milhões de votos- foram separados para contagem final porque não estavam legíveis ou tinham outras inconsistências.

Outra autoridade da comissão disse que há cerca de 800.000 votos nulos que devem ser cuidadosamente avaliados durante a contagem final.

Ugalde disse que apesar do sistema eleitoral mexicano estar anos luz na frente do que era há 10 anos, ainda depende de materiais simples, como cédulas de papel e lápis. E em um esforço para abrir o sistema para maior transparência, cidadãos comuns contam os votos e redigem à mão os relatórios para a comissão eleitoral.

"A coisa mais importante é que esta eleição não foi decidida pela contagem preliminar", disse Ugalde. "Ela foi decidida no domingo, e a contagem oficial dessas cédulas vai começar amanhã." Deborah Weinberg

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