UOL Notícias Internacional
 

05/07/2006

Na Louisiana, trabalhadores baratos vestem cor de laranja

The New York Times
Adam Nossiter

em Lake Providence, Louisiana
Em churrascos, eventos esportivos e funerais, na Primeira Igreja Batista, na fábrica de molho apimentado e em escolas privadas- os homens de laranja estão em toda parte.

Lee Celano/The New York Times 
Apesar de não estar vestindo laranja, Roy Herbert é condenado da Louisiana que trabalha

Muitas pessoas da paróquia de East Carroll, como são chamados os condados do Estado, dizem que não conseguiriam se virar sem os prisioneiros, mais de 10% da sua população e a maior parte de sua força de trabalho. Eles são ridiculamente baratos, algumas vezes gratuitos, sempre complacentes, prontos e descartáveis.

Você liga para a delegacia e pronto, os presos já estão a caminho. "Eles me trazem corpos quentes, 10 corpos quentes pela manhã. Eles fazem qualquer coisa que você pedir", disse Grady Brown, proprietário da Panola Pepper Corp.

É um arranjo ideal, dizem muitos no condado.

"Você liga para eles, deixa-os no local de trabalho e os pega à tarde", diz Paul Chapple, proprietário de um posto de gasolina.

Especialistas carcerários nacionais dizem que apenas Louisiana permite que os cidadãos usem o trabalho de presos em tal escala, sob a supervisão dos delegados locais. O Estado tem o maior índice de encarceramento do país, e a paróquia East Carroll, uma jurisdição pobre de 8.700 habitantes ao longo do rio Mississippi, no canto nordeste remoto de Louisiana, tem um dos índices mais altos do Estado.

Como resultado, é aqui que a cultura da prisão alcança sua síntese final com a economia local. O sistema carcerário converte um segmento substancial da população em um bem que está em falta -mão-de-obra barata- e os presos locais são integrados em todos os aspectos da vida econômica.

A idéia é antiga, um estranho vestígio do sistema de aluguel de presidiários abusivo que começou no Sul, em torno da Reconstrução. É também um resultado da prática em Louisiana de lotar as prisões dos condados -muito mais que em qualquer outro Estado. Em nenhum outro lugar o delegado teria tantos presos à mão, criando um potencial instrumento político na época de eleições e uma base para sua popularidade.

Algumas vezes os homens são pagos -salário mínimo, no exemplo dos que trabalham para Brown. Mas quando o delegado retira sua parte, que inclui alojamento, transporte e roupas, eles ficam com menos da metade disso, dizem os presos.

As regras são flexíveis e dão aos delegados bastante espaço para agir. A lei estadual dita apenas quais prisioneiros podem sair para o mundo (em geral, perto do final de suas sentenças) e quanto dos salários as autoridades podem tirar, mas não o tipo de trabalho que podem fazer. Não há regras para evitar a possibilidade de um delegado usar o trabalho do preso para conquistar favores ou benefícios pessoais.

"Se você conversa com as pessoas por aqui, elas brincam chamando o serviço de 'alugue um preso'", diz Michael Brewer, advogado e ex-defensor público em Alexandria, no centro de Luisiana. "Há algo ofensivo nisso. É quase uma forma de escravidão."

Essa não é a opinião de muitos na paróquia de East Carroll.

"Fui a festas onde as pessoas riam sobre isso", disse Jacques Roy, outro advogado de Alexandria. "As pessoas em Alexandria pedem isso. É mais barato."

Os prisioneiros não são obrigados a trabalhar, mas muitos entrevistados dizem que gostam da oportunidade de sair da prisão lotada, ao menos durante o dia. Ainda assim, "se um deles se recusa, pode imaginar as repercussões", disse Brewer.

Quase metade dos prisioneiros de Louisiana é alojada em pequenas prisões municipais. Isso evita que o Estado tenha que construir novas prisões e gera lucros para os delegados de Louisiana, bem compensados pelo privilégio.

"Estão fazendo muito dinheiro", disse Bruk Foster, ex-professor de justiça criminal da Universidade de Louisiana-Lafayette, e autor de um livro texto recente: "Corrections: The Fundamentals" (correções: os fundamentos). Os delegados recebem US$ 22,39 (em torno de R$ 50) por prisioneiro por dia, para acomodá-los em instalações rudimentares.

As acomodações aqui parecem ser feitas de nada mais que metal corrugado.
"Ei, estamos dormindo no chão", gritou um preso de trás da cerca na prisão da paróquia na semana passada, antes do visitante ser escoltado para fora por um guarda raivoso.

Entretanto, não está claro exatamente quanto os delegados embolsam.

"Os delegados deliberadamente evitam divulgar quanto dinheiro fazem", disse Foster, especialista nas prisões do Estado. Uma porta-voz do departamento de correções do Estado não quis comentar a idéia de que os delegados lucravam por abrigar presos estaduais.

O xerife daqui, Mark Shumate, não retornou chamadas telefônicas ou mensagens eletrônicas, mas um de seus investigadores, Brandon Wiltcher, tinha uma explicação para a popularidade do trabalho prisioneiro aqui. "É tamanha a falta de pessoal para trabalhar", disse Wiltcher. Esta paróquia, a mais pobre de Louisiana, perdeu 20% de seus habitantes entre 1980 a 2000. A população carcerária, porém, cresceu.

Shumate é um homem muito respeitado nesses municípios de milho verde, algodão e campos de soja que se estendem pelo horizonte no calor escaldante.Os moradores dizem que seus prisioneiros cozinham hambúrgueres para as reuniões da comunidade; servem lanches nos jogos de beisebol das crianças; cavam covas, capinam as estradas e consertam igrejas.

"São uma presença constante, em cada um desses eventos comunitários", disse Danny Terral, que trabalha com suprimentos agrícolas. "Eu ouso dizer que nunca estive em um evento comunitário em que não estivessem, essas camisas cor de laranja".

Eles construíram abrigos e cuidaram dos campos de atletismo da Academia Briarfield, uma escola privada -de graça. "Eles fizeram um trabalho excelente", disse o diretor da escola, Morris Richardson. "Tentamos dar almoço para eles."

Wiltcher, do escritório do delegado, disse que não havia nada de errado em ajudar uma escola privada.

O serviço "não só é usado nesta escola particular, é usado em todo o condado", disse ele. "Como é usado por todos que precisam dele, não vejo porque haveria problema."

As igrejas também são beneficiárias agradecidas. "Eles me enviam prisioneiros por um mês" para tarefas domésticas na Primeira Igreja Baptista, disse Reynold Minsky. "Tudo totalmente gratuito", acrescentou Minsky. "É realmente um bom acordo. Todo mundo sai feliz."

Muitos aqui vêem os prisioneiros essencialmente como bens, que podem ser devolvidos às prisões quando acaba a colheita e a necessidade de mão-de-obra é reduzida.

"Uma coisa boa é que, no inverno, você pode trancá-los -colocá-los no armário", disse Billy Travis, agricultor e comissário do condado. "Chamo de congelamento profundo."

Na principal estrada para a cidade, na base da represa, acima do Economy Inn e da Scott Tractor Co., a agência de emprego por trás do arame farpado está bem a vista. Ao meio dia, quem passa de carro vê os presidiários saindo para um pequeno exercício. "Eles misturam DOC com prisioneiros da paróquia", reclamou outro preso, referindo-se aos presos do Departamento de Correção que se misturam livremente com os que cometeram crimes menores.

No Country Club de Lake Providence, em uma tarde na semana passada, durante um encontro do Rotary Club, falava-se de organizar uma fritada de peixe. "Imagino que o delegado possa fazer isso", lembrou-se um homem. "Ouvi dizer que ele faz um bom serviço", disse outro.

Do lado de fora da cidade pequena e decadente, uma sucessão de lojas vazias e outras quase falidas, via-se presos limpando o que restava de uma igreja arruinada, enquanto um guarda descansava na sombra; outros recolhiam lixo e capinavam em torno das estradas.

Mais acima na estrada, na direção de Arkansas, os prisioneiros estão trabalhando na asfixiante linha de produção da pequena fábrica de molho de pimenta, suando como os trabalhadores livres. Outro está consertando uma casa ao lado que Brown comprou para alugar.

O proprietário da fábrica o elogia, chamando-o de confiável e honesto. O preso, Roy Hebert -que está preso por fraude- sorri. "Sr. Brown, ele cuida de mim", disse Hebert. Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    14h29

    0,94
    3,288
    Outras moedas
  • Bovespa

    14h32

    -1,87
    61.470,66
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host