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06/07/2006

Em busca de flores antigas e tirando uma lição de responsabilidade

The New York Times
Ginia Bellafante
Aos 25 anos, ele raramente tende à efusão, mas a visão da flor o fez sorrir de tal forma que todo seu rosto ondulou, como um lago no qual uma pedra foi arremessada.

Mark Graham/The New York Times 
Chris Weisinger mostra alguns de seus bulbos Grand Primos, que cultiva no Texas

A planta, mais conhecida como lírio do vento, estava florida em um terreno baldio cercado por quatro bangalôs, todos fechados com tábuas.

"Não há nada mais aqui", disse Wiesinger enquanto caminhava na direção das flores. "Ninguém toca ou cuida delas, mas veja só. Minha nossa."

Wiesinger ganha a vida encontrando coisas belas em locais arruinados. Em 2004, ele abriu a Southern Bulb Company com a meta de reintroduzir flores há muito fora de moda, se comprometendo exclusivamente àquelas que conseguiram resistir bem às crueldades particulares de um clima excessivamente quente por décadas, talvez séculos.

Apesar da busca por herdeiras botânicas ter um ar de elitismo, Wiesinger vai atrás do que alguém poderia considerar as Barbara Stanwycks da floricultura: flores resistentes sem conotação nobre e que prosperam em áreas praticamente ignoradas pela recuperação econômica do Novo Sul. O mundo dele é o das velhas cidades do algodão, propriedades condenadas, prédios abandonados e casas onde sofás queimam em varandas abauladas.

"Na maior parte do tempo você não encontra estas coisas em bairros elegantes de Dallas", ele disse, "mas em locais onde as pessoas não têm dinheiro para plantar coisas novas".

Seguindo um plano de negócios que ele concebeu três anos atrás como aluno do programa de horticultura da Texas A&M University, ele coleta bulbos e os planta em sua pequena fazenda em Mineola, a cerca de duas horas ao leste de Dallas. Depois ele os distribui para viveiros e pela Internet, por meio de seu site, southernbulbs.com.

Sua paixão por recuperar antigas variedades, algumas do Texas, algumas do Sudeste, já atraiu atenção considerável, lhe valendo um destaque na lista da revista "House & Garden" dos mais importantes formadores de opinião em abril, o transformando em um orador muito procurado pelo circuito de clubes de jardinagem.

De muitas formas, Wiesinger representa a mais recente versão do caçador de plantas. Da Era Vitoriana até grande parte do século 20, a caça a plantas era uma diversão de aventureiro, levando seus praticantes até montanhas do Congo ou Peru para trazerem aos Estados Unidos ou para a Europa Ocidental as espécies mais exóticas.

Wiesinger faz parte de um movimento mais recente voltado para a obtenção de plantas locais. Além disso, ele está cultivando bulbos em um momento em que virtualmente todos os que cultivam ainda são holandeses, explicou Tom Christopher, um repórter de jardinagem e editor colaborador da "House & Garden". "Chris está transmitindo para os jardineiros comuns algo que se restringia a um punhado de colecionadores", ele disse.

Um bulbo cultivado na Holanda, ou uma planta importada do Himalaia, não
necessariamente se desenvolverá bem em um clima quente. "Nós estamos
condicionados a considerar resistência em ternos do que pode suportar o
tempo frio", disse Christopher, "não em termos do que sobreviverá ao calor extremo e umidade".

A inovação de Wiesinger é seu interesse específico no fornecimento ao
mercado de jardinagem, cujas necessidades vinham sendo praticamente
ignoradas. A proliferação de viveiros com catálogos distribuídos
nacionalmente e varejistas como a Home Depot e Lowe's contribuiu para uma cultura de jardinagem homogeneizada, que não leva em consideração as diferenças regionais, disse Jason Powell, proprietário da Petals From the Past, um viveiro em Jemison, Alabama. "Aos poucos", disse Powell, "estamos vendo menos flores incomuns, difíceis, menos plantas testadas e resistentes".

A vantagem das "heirlooms" (variedades que sobreviveram por várias gerações) não é meramente atender a um interesse cultural por nostalgia, mas sim porque tendem a vingar de forma eficiente, exigindo menos água, cuidados e vigilância. "Estes tipos de plantas são como pratos caseiros", explicou Felder Rushing, um horticulturista de Jackson, Mississippi. "É possível cuidar delas quase que instintivamente."

Após avistar o lírio do vento em Lufkin, Wiesinger foi até a casa mais
próxima com sinais de atividade humana, bateu à porta e foi recebido por uma mulher de meia-idade que lhe disse que a propriedade pertencia ao irmão de um vizinho. Wiesinger explicou que colecionava plantas e buscava obter a permissão do proprietário para pegar um bulbo ou dois. A mulher lhe assegurou que ninguém se importaria, contou sua história de infortúnio -a casa dela estava prestes a ser condenada caso não fizesse várias melhorias- e finalmente perguntou se ele queria uma pá emprestada.

O empreendimento de Wiesinger depende da noção de que estranhos lhe
concederão uma boa dose de generosidade. Quando procura por bulbos ele segue um protocolo rígido, o que significa que ele nunca apenas pega o que vê, mas quase sempre consegue o que quer. Se ele avista um crino ou um narciso do lado de fora de uma casa abandonada em algum lugar no, digamos, Alabama, ele contata a prefeitura local em busca do nome do proprietário, contata a pessoa e explica seu propósito.

Em muitos casos o proprietário está distante, pagando impostos da antiga casa da família.

"É impressionante quão atenciosas as pessoas são", disse Wiesinger. Ele
conseguiu rastrear o proprietário de uma casa surrada, telefonando para ele em Victoria, no Sul do Texas. "Eu lhe perguntei se podia pegar alguns bulbos e ele disse: 'Pegue todos, e pode ficar também com a casa, se quiser'."

Em certos casos ele se sente obrigado a pagar por seu inventário. Há poucos meses ele tirou vários milhares de bulbos de narciso do quintal da frente de uma casa móvel em Wells, Texas, e pagou US$ 100 para a família que morava lá. "Eu tento sempre dar algo em troca", disse Wiesinger. "Se não for dinheiro, então eu planto algo novo no lugar de onde tirei algo ou, no caso de interessados em jardinagem, eu ofereço trocar por algo que possam não ter."

Mas raramente alguém lhe pede algo em troca, ele disse.

Os cemitérios têm um grande papel na vida de alguns caçadores de plantas. Há mais de 25 anos um grupo chamado Rose Rustlers (ladrões de rosas), também baseado no Texas, começou a pegar mudas delas em um esforço para localizar e ressuscitar várias variedades de rosas antigas. Wiesinger freqüentemente usa a vida da planta perto das lápides como indicador do que pode esperar encontrar na área, mas seu próprio código de ética o proíbe de remover amostras das plantas ou arrancá-las.

"A etiqueta de túmulos é uma coisa estranha", ele disse. "Algumas pessoas dirão: 'Há grandes flores lá! Arranque!' Mas eu não sei, eu não consigo deixar de lado a sensação de que é errado."

Uma pessoa que vive ao ar livre e que gosta de camisas de tecido Oxford, Wiesinger possui um modo recatado. Se as pessoas parecem ansiosas em lhe dar coisas, é em geral porque ele parece nervoso em pedir. Ele passa a maior parte de seus dias viajando, passando grande parte do tempo em conversas prolongadas com pessoas em cujas portas ele vai parar.

Após visitar Lufkin, Wiesinger fez uma parada na vizinha Alto para perguntar sobre uma açucena robusta. A mulher que era dona dela, Darline Lindsey, começou a conversar sobre seu ombro machucado, um chuveiro que estava instalando, um de seus parentes na Pensilvânia, uma filha que estava para mudar ou não para a área.

Em Nacogdoches, mais ou menos uma hora depois, um médico que conheceu em uma palestra, que lhe prometeu alguns crinos, conversou sobre sua carreira médica em San Francisco, seu interesse por ópera, sua esposa e o tumor no cérebro que ela enfrentou.

"Esta é uma grande parte do que faço", disse Wiesinger, de volta à picape. "Eu escuto. Eu escuto as histórias sobre reforma do banheiro. Muitas vezes as pessoas estão preparando o almoço, então elas me convidam para ficar, então fico para o almoço. Avós querem me apresentar para suas netas. Às vezes me dizem: 'Você tem esposa? Eu tenho esta neta adorável'. E eu respondo: 'Obrigado, senhora, mas agora preciso seguir meu caminho'."

"Eu já namorei um pessoa por três meses, mas estava sempre comigo na
estrada."

Sua própria história, ele está ciente, ajudou a contribuir de forma
significativa para seu renome.

Wiesinger dirige a Southern Bulb Company em um trailer com a ajuda de três amigos: Brad Gaultney e Ben Arcuni, que faziam parte com ele do corpo de cadetes na Texas A&M, e Amanda George, uma ex-estagiária da Casa Branca para Laura Bush. Os três homens moram juntos em uma cabana alugada de 25 metros quadrados, perto da fazenda que ele possui em Mineola, dormindo em colchonetes no chão.

Neste verão um quarto colega de quarto, Grant Cox, um estagiário na Southern Bulb, se mudou para lá.

George, que nasceu em Mineola e diz que seu tataravô foi morto por Gerônimo, mora na mesma rua com sua mãe e está aprendendo árabe sozinha. Toda noite o grupo se reúne para jantar na cabana, freqüentemente comendo a perca que pescam no lago nos fundos.

Como moram em um condado seco e não conhecem nenhuma outra pessoa da idade deles, eles lêem romances de Patrick O'Brian antes de ir para a cama e dormem cedo.

Filho de um executivo do petróleo, Wiesinger cresceu em Houston e na
Califórnia, onde freqüentou a o colégio cristão Bakersfield e jogou futebol. Certo dia no segundo colegial, alguém deixou algumas caixas de roseiras como doação para a escola. Wiesinger as plantou e assim teve início seu interesse por jardinagem. "Todos os que ficavam na detenção tinham que vir me ajudar a plantar", ele disse.

A Southern Bulb Company ainda não obteve lucro, e Wiesinger não pode pagar muito para seus amigos, ele disse. Todos no grupo trabalham seis dias por semana, cuidando da fazenda, cultivando os bulbos, atendendo aos pedidos e ocasionalmente se juntando a ele nas expedições exploratórias. George e Cox visitam feiras nos fins de semana para promover o produto.

Se o foco parece incomumente intenso, é porque o interesse deles por
jardinagem é motivado menos pela predileção estética e mais pela crença
filosófica. Wiesinger e seus amigos disseram ser cristãos praticantes que consideram a jardinagem como uma lição de política de responsabilidade pessoal e do valor da recompensa a longo prazo.

"Não é possível tirar um dia de folga da vida e as plantas lhe ensinam isto", disse Wiesinger. "Há sempre responsabilidade, com tudo, sempre. Muitas pessoas da minha idade não entendem isto, ou não entendem que a falta de sua própria responsabilidade prejudicará alguém."

Gaultney deixou um emprego bem-remunerado na General Electric, em Dallas, para trabalhar na Southern Bulb Company, porque a vida em um cubículo o deixou se sentindo vazio, ele disse.

Após o término de seu estágio na Casa Branca, George, que está saldando uma dívida de cartão de crédito por seu apartamento de US$ 1.900 por mês em Washington, voltou para Mineola para procurar por um emprego que lhe fornecesse plano de saúde. A Southern Bulb ofereceu.

"O fato de Chris ser tão passional e da minha idade foi muito atraente", disse George. "Mas ele também entende todas as coisas que estimo. Nós estamos todos muito condicionados a esperar as coisas na hora em que as queremos e a jardinagem é uma abordagem muito diferente para a vida."

Certo dia a caminho do casamento de um amigo em Austin, Wiesinger conversou sobre suas grandes ambições. A pobreza que ele encontra em seu trabalho estimula seus impulsos filantrópicos. Ele sonha em ganhar dinheiro suficiente para comprar casas velhas, criar novos jardins e revigorar comunidades em depressão.

"Ross Perot é do Leste do Texas", ele comentou. "Ross Perot e Southern Bulbs se associam para restaurar o Leste do Texas. Isto não seria legal?" George El Khouri Andolfato

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