UOL Notícias Internacional
 

06/07/2006

Ex-presidente da Enron morre enquanto aguardava sentença de prisão

The New York Times
Kurt Eichenwald
Kenneth L. Lay, que como fundador da Enron Corporation atingiu o píncaro da influência nos negócios e na política, apenas para cair em desgraça em meio a um escândalo, morreu na madrugada de quarta-feira (05/07) em Aspen, no Colorado, enquanto aguardava que um juiz pronunciasse neste outono uma provável sentença de décadas de prisão.

Michael Stravato/The New York Times - 24.abr.2006 
Foto de arquivo de Kenneth L. Lay, tirada do lado de fora de um tribunal em Houston

Lay, 64, morreu de doença da artéria coronária, de acordo com Scott Thompson, investigador do condado de Pitkin, no Colorado. A conclusão se baseou em uma autópsia realizada na própria quarta-feira.

A morte de Lay se constituiu em um capítulo final e inesperado em um drama pessoal e corporativo complexo, que chamou a atenção do público durante os anos que se seguiram ao colapso falimentar da Enron, no final de 2001. O fato ocorreu em um momento de enorme estresse para Lay, que estava aguardando uma sentença, após a sua condenação em 25 de maio último, devido a acusações múltiplas de fraude e conspiração relativas às suas ações nas semanas que antecederam a falência da Enron.

Embora pesaroso e incrédulo com relação à sua condenação, segundo pessoas que mantiveram contato com ele nos últimos dias, Lay vinha falando sobre a sua provável sentença de prisão de uma forma quase resignada.

"Ele parecia saudável, em paz e dono de uma visão boa e positiva em relação à sua vida e ao seu futuro", disse Stephen P. Wende, pastor de Lay na primeira Igreja Metodista Unida de Houston, referindo-se a um encontro que teve com o ex-presidente da Enron na última quinta-feira. "Ele com certeza não queria ir para a prisão, mas, caso fosse para lá, achava que Deus poderia usá-lo na penitenciária".

Lay passou a semana em Old Snowmass, no Colorado, tendo ficado na companhia de amigos e da mulher, Linda, no Rancho Pabst. Um paramédico foi chamado à casa em que ele estava hospedado à 1h41 da quarta-feira, segundo uma declaração de Joe DiSalvo, diretor de investigações do Escritório do Xerife do Condado de Pitkin. Lay foi transportado para o Hospital Aspen Valley, e foi declarado morto às 3h11.

Com a morte de Lay, o seu sucessor na Enron, Jeffrey Skilling - o homem que é tido como o cérebro por detrás da ascensão da empresa, e que foi condenado por fraude, juntamente com Lay, em um julgamento conjunto - enfrentará sozinho o tribunal para ser sentenciado pelo seu papel naquele que é considerado o maior escândalo corporativo da história norte-americana.

Antes do escândalo, Lay se constituía em um exemplo de pobre que virou milionário. Ele era tido como o garoto de uma fazenda do Missouri que ascendeu à elite do empresariado norte-americano. Lay circulou entre presidentes e pesos pesados políticos, que recorreram a ele para receberem conselhos e verbas de campanha. Ele foi um visitante regular da Casa Branca durante a administração do presidente Bush, que colocou em Lay o afetuoso apelido "Kenny-boy".

Mas todo esse cenário desabou à medida que a Enron entrou em queda livre rumo à bancarrota, gerando um escândalo que sacudiu Houston, a sede da empresa, e transformou o outrora reverenciado Lay em uma figura nacionalmente repudiada. Uma corporação que muitos acreditavam que representava a fina flor do mundo empresarial revelou ser o que havia de pior naquele mundo, eivada de criminalidade e incompetência. Aquilo que parecia ser um poder financeiro incontido foi desmascarado como sendo o produto de manipulações contábeis e embustes.

E o próprio Lay, que era um homem que valia centenas de milhões de dólares, se transformou em alguém à beira da ruína financeira.

Na sexta-feira passada, o governo entrou com um pedido junto ao tribunal federal em Houston para confiscar os bens remanescentes de Lay, incluindo a sua casa em Houston, embora a sua morte signifique que as autoridades talvez se vejam impedidas de dar continuidade a essa ação.

Embora as suas ações criminosas só tenham sido cometidas nos últimos meses que precederam a queda da Enron, Lay se transformou no símbolo do escândalo, condenado como mentiroso e enganador. Durante todo aquele período, e até o dia da sua morte, Lay afirmou ser inocente, se autodescrevendo como um homem honesto e trabalhador que foi chantageado por promotores e enganado por um diretor financeiro desonesto da Enron, Andrew Fastow, a quem ele culpou pelo desmoronamento da companhia.

A casa campestre na qual, segundo os moradores locais, Lay estava hospedado, fica a 24 quilômetros e a um universo de distância do esplendor de Aspen.

Cercada por uma pastagem de cavalos e tendo um curral à sua frente, a casa de madeira relativamente modesta, à beira de uma sinuosa estrada rural de cascalho, tinha ferramentas agrícolas enferrujadas e algumas construções cinzentas ao derredor.

Um delegado de polícia impediu que visitantes entrassem na área circunjacente à casa. Mas uma mulher que se apresentou como I.V. Pabst falou a um repórter, elogiando Lay. "Ken Lay era um homem maravilhoso, de bom coração e generoso", disse ela. "Todos nós estamos muito tristes". Ela se recusou a fazer mais comentários. I.V.Pabst é dona do Rancho Pabst, e é bisneta do fundador da cervejaria Pabst Brewing Company.

Kimberly, a porta-voz da família, confirmou em uma declaração que Lay morreu. "Os Lay têm uma família muito grande com a qual precisam se comunicar, e por respeito à família só divulgaremos maiores detalhes mais tarde", disse ela na sua declaração.

Segundo Kimberly, o ex-presidente da Enron não apresentava nenhum sinal de problemas de coração, e continuava se exercitando todos os dias, um hábito que desenvolveu há anos. Embora Lay tivesse exibido sinais de exaustão física e emocional durante o julgamento na última primavera, os seus amigos disseram que nas últimas semanas ele exibia a sua aparência mais saudável em muitos anos.

No entanto, não é incomum que o estresse do julgamento contribua para a morte de réus de colarinho branco. Em 1988, por exemplo, David W.C. Clark, um advogado de Nova York condenado em um escândalo comercial, morreu de alcoolismo crônico apenas alguns dias antes de receber a sentença.

Lay era um homem baixo, de fala mansa, e dono de maneiras corteses, mas que podia também exibir explosões de cólera e de impaciência - uma faceta combativa que emergiu quando ele testemunhou em sua própria defesa, prejudicando a sua situação perante o tribunal. Ele disse que planejava apelar da condenação, enquanto aguardava a sua sentença por dez crimes, incluindo seis acusações diretamente relacionadas ao seu trabalho na Enron, e outras quatro por fraude bancária envolvendo as suas finanças pessoais. Agora, o seu caso chegou a um final inesperado, que deixou alguns dos seus ex-colegas desnorteados.

"Creio que o que ocorreu foi trágico", afirma Mark Palmer, ex-porta-voz da Enron que disse que não falava com Lay desde 2002. "Mas Ken era um cara espiritualizado, e acreditava que Deus tinha um plano para ele. Se este for de fato o caso, eu espero que ele esteja em paz".

Kenneth Lee Lay nasceu em 1942, filho do meio de uma família pobre e profundamente religiosa do Estado de Missouri. O primeiro ponto de inflexão na vida de Lay ocorreu no seu primeiro ano na Universidade do Missouri, quando ele se matriculou em um curso de introdução à economia. Lay ficou fascinado pelas teorias de mercados livres, e abandonou os seus planos de cursar a faculdade de direito, resolvendo se dedicar a uma carreira empresarial.

No final da década de 1960 ele deu início a uma carreira no setor de energia, que foi interrompida por um período na Marinha e por outro na Federal Power Comission, uma agência federal em Washington.

Na década de 1980, quando retornava ao setor de energia, Lay estabeleceu a reputação de ser um dínamo intelectual em uma indústria que não era conhecida como centro de raciocínios brilhantes, o que fez com que aos 42 anos passasse a administrar a companhia que se transformaria na Enron, quando Lay ajudou a planejar a fusão de duas empresas de gasodutos, a Houston Natural Gas e a Internorth, uma companhia de energia de Omaha.

Sob a direção de Lay, a Enron embarcou em um ambicioso projeto de expansão que garantiu a ele um lugar na linha de frente dos principais empresários norte-americanos.

Mas, conforme mais tarde ficaria óbvio, as finanças da Enron estavam longe de ser tão robustas quando os relatórios financeiros da companhia davam a entender.

Durante a década de 1990, a Enron se tornou gradualmente viciada em esquemas contábeis permitidos por uma técnica conhecida como "finanças estruturadas". Este mecanismo legítimo é usado pela maioria das grandes empresas para ajudá-las a diversificar o risco, trazendo investidores externos e transferindo bens e dívidas para entidades não registradas.

Em 1998, a Enron contava com volumosas parcerias não contabilizadas, costuradas por Fastow, o diretor financeiro da empresa. No entanto, Fastow havia começado anos antes a usar esses artifícios para dirigir o dinheiro corporativo para o próprio bolso e os de alguns aliados de confiança - sem o conhecimento de Lay, segundo o testemunho de Fastow.

Lay tinha conhecimento da existência de muitas dessas entidades não contabilizadas, mas não da amplitude dos seus objetivos. E, em 1999, ele, juntamente com a diretoria da Enron, aprovou a criação de um fundo especial chamado LJM, que era dirigido por Fastow, e que deveria ser usado para negócios relativos às finanças estruturadas.

Em vez disso, o LJM e o seu sucessor, o LJM2, se transformaram em instrumentos para o crime, tendo sido utilizados para camuflar a podridão financeira que estava por baixo do verniz de sucesso da Enron.

No início de 2001, Lay transferiu as rédeas do controle executivo da companhia para Skilling, embora mantivesse o título de presidente. Mas, em agosto daquele ano, Skilling renunciou inesperadamente ao seu cargo na companhia, e Lay retornou ao seu velho posto.

A renúncia de Skilling gerou suspeitas de que haveria algo de profundamente errado no seio da Enron, mas Lay passou a desempenhar o seu papel muito familiar de animador de torcidas, garantindo aos funcionários e aos investidores que tudo corria bem. Ao dar tais declarações, segundo o júri determinou no tribunal, Lay mentiu para o público, não tendo revelado as preocupações internas a respeito da condição financeira precária da companhia e das suas práticas contábeis questionáveis.

Nas suas declarações, Lay garantiu aos empregados que estava comprando ações da Enron - uma alegação que só era verdadeira no mais limitado dos sentidos.

Embora ele tivesse adquirido algumas ações no mercado aberto, durante meses Lay vinha vendendo um número bem maior de ações de volta para a companhia, e usando grande parte da renda obtida com tal prática para saldar empréstimos bancários. As transações complexas resultaram na transferência de cerca de US$ 100 milhões da Enron para Lay, e em última instância para os seus credores.

As dúvidas quanto à situação financeira da Enron fizeram com que a empresa cambaleasse, e em dezembro de 2001 ela entrou com um pedido de falência.

Além de Lay e Skilling, 22 outros indivíduos se declararam culpados ou foram condenados por acusações relacionadas ao fracasso da companhia.

O colapso da empresa - que custou aos investidores bilhões de dólares, e a milhares de funcionários os seus empregos e as suas aposentadorias - devastou Lay, segundo pessoas que o conheciam.

"Ele sentiu intensamente a dor daqueles que perderam os seus meios de vida, as suas poupanças e os seus empregos de toda uma vida na Enron", afirmou Wende, o pastor de Lay. "O homem que eu vi carregava isso consigo em um nível emocional profundo". Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,84
    3,146
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,35
    68.594,30
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host