UOL Notícias Internacional
 

06/07/2006

Um ano depois, terror nacional assusta britânicos

The New York Times
Alan Cowell*

em Londres
Faz um ano que três terroristas partiram em direção a Londres do bairro triste de Beeston, em Leeds, para atacar o sistema de trânsito da capital. O local que deixaram para sempre ainda mantém seus segredos.

Com alguma ansiedade, os britânicos ainda estão perguntando o que inspirou o ataque de muçulmanos nascidos no Reino Unido e se as correntes obscuras do dia 7 de julho de 2005 poderiam voltar à tona em um novo atentado.

Gous Ali, um incorporador de 31 anos, por exemplo, viajou para Beeston recentemente com uma única questão em mente: por que as pessoas daquela cidade do Norte, nascidas no Reino Unido como ele, da mesma geração de imigrantes que ele, foram para Londres em julho do ano passado em um carro alugado e mataram 52 pessoas, inclusive sua parceira, Neetu Jain, que morreu quando uma das bombas explodiu no ônibus número 30?

Mas ele nada concluiu.

"Eles não querem intrusos -querem ficar em paz", disse Ali em entrevista."Estão se escondendo da vergonha, do embaraço, do horror que foi criado aqui."

É mais uma opinião em um debate que se agrava, um ano depois dos quatro homens terem atacado três trens de metrô e um ônibus. O governo do primeiro-ministro Tony Blair está sendo recriminado por líderes muçulmanos, que dizem que as autoridades não conseguiram reduzir o descontentamento muçulmano.

Muitos muçulmanos, como Asghar Khan, 36, que trabalha nos Correios em Beeston, está insistindo que o governo faça mais para investigar as origens do ataque. "Por que fizeram isso? Como impedir que esse tipo de coisa aconteça? Que lições podemos tirar?" perguntou Khan em entrevista. Ele exigiu "respostas".

Em maio, as autoridades produziram o que chamaram de uma narrativa dos ataques de 7 de julho, a pior atrocidade do país em tempos de paz. Mas, disse Bevery Martin, que edita um site da Web dedicado a buscar mais detalhes sobre os atentados, "a narrativa gerou mais perguntas do que tentou responder em primeiro lugar."

Até a polícia diz que não compreende totalmente os eventos de 7 de julho.

"Precisamos saber quem mais, além dos atacantes, sabia o que estavam planejando", disse Peter Clarke, chefe da polícia de combate ao terrorismo de Londres, na segunda-feira (05/7). "Alguém os encorajou? Alguém os ajudou com dinheiro, alojamento ou conhecimento para a fabricação de bombas?"

Tais questões alimentaram um sentido intranqüilo de que o fervor extremista islâmico ainda pode afetar uma pequena minoria dos 1,6 milhões de muçulmanos do país.

Uma pesquisa de opinião publicada na terça-feira no The Times of London, por exemplo, disse que 13% dos muçulmanos britânicos acreditavam que os homens-bomba devem ser considerados "mártires" e 7% achavam que ataques suicidas contra civis eram justificáveis.

Outra pesquisa recente do Pew Global Attitudes Project, de Washington, revelou que 15% dos muçulmanos britânicos acreditavam que a violência contra alvos civis "algumas vezes" pode ser justificada.

Alguns líderes muçulmanos acusam o governo de não conseguir aliviar suas preocupações ou diminuir seu sentido de alienação. "Houve progresso limitado, mas há um desânimo", disse Sadiq Khan, membro muçulmano do Parlamento.

Blair argumenta que muçulmanos "moderados" devem fazer mais para combater o extremismo, resistindo ao que chamou de "um sentido completamente falso de reclamação contra o Ocidente".

"Você não pode derrotar esse extremismo com o que um governo faz", disse aos parlamentares na terça-feira. "Você só pode derrotá-lo com uma comunidade."

Suas observações irritaram alguns líderes, que disseram que os muçulmanos, mais uma vez, estavam sendo estigmatizados.

Beeston não tinha fama de extremista antes dos atentados; desde então, tornou-se objeto de exames minuciosos de repórteres e políticos. A experiência deixou o bairro na defensiva, sensível e desesperado para acabar com sua fama de lugar onde a privação criou um teste de terrorismo.

"Beeston poderia ser em qualquer lugar no país", disse Mark Harris, líder do Conselho da Cidade de Leeds. "Não há nada ali para dizer que fizeram o que fizeram por causa de Beeston."

É um bairro pobre e miscigenado, com fileiras de casas coladas e uma população de apenas alguns milhares, onde ondas sucessivas de imigrantes da Ásia nos anos 60 e agora da Europa Oriental e África espalharam-se por uma arquitetura vitoriana.

As cores rosa e turquesa dos saris das asiáticas oferecem alívio cromático das casas de tijolo sem graça. Há a Mesquita de Hardy Street e o Mac's Café, onde o chá adoçado com leite custa apenas centavos. Há a casa Churchill, de má reputação, onde polonesas dizem servir a jovens asiáticos. E em um canto, há uma casa fechada que costumava atender traficantes de crack, disse Stewart Shearer, morador de origem mista.

Foi deste bairro que três homens, Mohammad Sidique Khan, 30; Shehzad Tanweer, 22, e Hasib Mir Hussain, 18, junto com Germaine Lindsay, 19, de Aylesbury, norte de Londres, resolveram se matar, atacando a terra que os tinha alimentado e alienado ao mesmo tempo.

Em uma reunião de moradores em novembro, Neil Bishop, pregador metodista que mora em Beeston há 10 anos, disse: "A sensação era de que não íamos entender porque os homens-bomba saíram daqui, então era perda de tempo."

"A vida voltou ao normal", disse Bishop. "Os moradores pensam que não é nossa culpa, então vamos deixar o assunto para trás."

Alguns procuraram explicar os atentados usando como referência uma visão mais ampla das raízes do extremismo islâmico. Ali, por exemplo, reuniu-se com Shiraz Maher, 24, que se descreveu como ex-membro da Hizb ut-Tahrir, grupo radical islâmico que diz que é não violento, mas que Blair ameaçou banir.

Ali, que foi para Beeston participar de um documentário da BBC, e Maher conversaram em um banco de parque sob figueiras, enquanto crianças brincavam em torno de canteiros de rosas vermelhas e brancas.

Maher disse: "A guerra ao terror é um sofisma para a guerra ao islã."

Mas por que, então, disse Ali, os homens-bomba saíram para matar pessoas inocentes que nunca viram? Por que não foram atacar os que fizeram a política externa no Iraque, Afeganistão e outras partes que gerou o fosso entre muitos muçulmanos e sociedades européias aonde vivem?

"Eles querem gerar medo", disse Maher. "Eles não se vêem como destruidores do islã, mas como seus defensores."

Uma coisa que os moradores de Beeston não querem admitir é que, de alguma forma, os homens-bomba foram inspirados pelo que moravam a sua volta.

Eles apontam para evidências oferecidas pelas autoridades britânicas no relatório do dia 11 de maio, que dois dos homens -Khan e Tanweer- foram ao Paquistão e freqüentaram um campo de treinamento de terroristas. Eles gostam de dizer que os homens sofreram lavagem cerebral por jihadistas misteriosos e não identificados, de fora de Beeston.

Eles observam que antes dos ataques, Khan tinha feito uma gravação de vídeo de seu testamento político, como fazem os suicidas do Oriente Médio, chamando a si mesmo de soldado em guerra.

Depois das conversas em Beeston, Ali começou a formar suas próprias opiniões.

"Agora estamos na terceira geração de imigrantes", disse ele. "Eles cresceram com a televisão e a Internet e vêem seus irmãos muçulmanos sendo afetados no mundo por ações do mesmo país em que vivem."

De fato, o governo britânico, forte aliado dos EUA, admite que o argumento de que a política externa britânica no Iraque e Afeganistão fez jovens muçulmanos radicalizarem-se. Mas as autoridades britânicas parecem relutar em financiar maiores investigações enquanto perceberem uma ameaça de terroristas.

Um inquérito público, "terminaria desviando essa enorme quantidade de energia e recursos para algo que, no final, vai dizer o que já sabemos: que esses quatro indivíduos saíram e cometeram esse ato", disse Blair na terça-feira.

*Karla Adam contribuiu para este artigo, de Beeston Deborah Weinberg

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