UOL Notícias Internacional
 

07/07/2006

A odisséia sombria de um argelino pela rede antiterror

The New York Times
Craig S. Smith e Souad Mekhennet*

em Argel, Argélia
Há dois anos, um grupo variado de prisioneiros passou noite após noite repetindo seus números de telefone uns para os outros, dentro das celas escuras e sujas onde estavam sendo mantidos no Afeganistão. Qualquer um que saísse, eles disseram ter concordado, usaria os números para contatar as famílias dos outros para informá-las que eles ainda estavam vivos.

Pelo menos dois daqueles homens agora estão livres e, graças ao exercício de memorização, voltaram a entrar em contato um com o outro.

Samantha Appleton/The New York Times 
Laid Saidi, fotografado na Argélia, passou 16 meses sob custódia americana no Afeganistão

O caso de um deles, Khaled el Masri, um cidadão alemão que foi detido como parte de um programa antiterrorismo dos Estados Unidos, foi revelado no ano passado, com autoridades alemãs e americanas reconhecendo que ele foi detido erroneamente pelos Estados Unidos. Mas a história do outro, um argelino chamado Laid Saidi, nunca foi contada antes e apresenta uma nova série de alegações contra o programa secreto de detenção dos americanos.

Em maio de 2003, Saidi foi expulso da Tanzânia, onde dirigia uma filial da Fundação Islâmica Al Haramain, uma caridade internacional com sede na Arábia Saudita, que promovia a linha fundamentalista Wahhabi de Islã e que foi fechada após ser acusada de financiar grupos terroristas. Os jornais tanzanianos noticiaram a expulsão de Saidi na época, mas nada se falou sobre para onde ele foi.

Em uma recente entrevista, Saidi, 43 anos, disse que após ter sido expulso do país ele foi entregue para agentes americanos e enviado ao Afeganistão, onde foi mantido por 16 meses antes de ser entregue para a Argélia e libertado sem nunca ter sido acusado ou informado sobre o motivo de ter sido preso. Ele reconheceu que portava um passaporte falso quando foi detido, mas disse que nunca teve ligação com o terrorismo.

Vestindo um manto branco e um barrete branco no escritório de seu advogado em Argel, ele guardou os dois sapatos brancos que ele disse que seus captores lhe deram antes de libertá-lo, em agosto de 2004. A única outra evidência física que apresentou de seu aprisionamento foi as cicatrizes que estavam desaparecendo em seus pulsos, que ele disse terem sido causadas pelo acorrentamento ao teto da cela por cinco dias.

"Às vezes eu choro e tremo quando penso a respeito", ele disse em sua
primeira entrevista sobre seu aprisionamento. "Eu achava que não veria mais minha família."

Apesar das alegações de tortura de Saidi não poderem ser corroboradas,
outros elementos de sua história podem.

Autoridades americanas, tanzanianas e argelinas se recusaram a comentar as alegações de Saidi, mas Masri disse que viu Saidi na prisão afegã onde foi mantido. Promotores alemães que estão investigando a detenção de Masri agora querem entrevistar Saidi, disse Martin Hofmann, um promotor em Munique.

Além disso, uma investigação criminal das mortes de dois afegãos, em 2002, que estavam detidos no centro de detenção militar americano em Bagram, ao norte de Cabul, revelou que os prisioneiros eram freqüentemente acorrentados ao teto pelos pulsos como punição, como Saidi disse que foi. Mas oficiais militares disseram que a prática foi suspensa após as mortes.

Um porta-voz da CIA se recusou a discutir as alegações de Saidi. "Apesar da CIA normalmente não comentar publicamente estes tipos de alegações, a agência já disse repetidas vezes que não tolera a tortura", disse o porta-voz, Paul Gimigliano. Ele acrescentou que as extradições, o processo de transferir suspeitos de terrorismo capturados para outros países para interrogatório, "são uma ferramenta antiterror que os Estados Unidos têm usado há anos de acordo com suas leis e obrigações de tratados".

Saidi é um entre um punhado de homens que alegam publicamente que foram
abduzidos no programa de extradição e então maltratados ou torturados, antes de serem libertados sem qualquer acusação ou explicação. Como os
prisioneiros libertados do centro de detenção militar americano em
Guantánamo, Cuba, eles representam não apenas um crescente problema
político, mas um potencial problema legal para os Estados Unidos e seus
aliados que participaram nas abduções extrajudiciais.

As repercussões internacionais das extradições prosseguiram na quarta-feira, quando promotores em Milão prenderam dois agentes da inteligência italiana sob acusação de que ajudaram a CIA no seqüestro, em 2003, de um clérigo egípcio radical na Itália. O clérigo foi então enviado ao Egito, onde está aprisionado.

A abdução de Saidi ocorreu enquanto os Estados Unidos e a Arábia Saudita investiam contra a Haramain, que os Estados Unidos posteriormente declararam ter fornecido "apoio financeiro e operacional" para os atentados de 1998 contra as embaixadas no Quênia e na Tanzânia.

Mas não se sabe quais suspeitas específicas as autoridades tinham em relação a Saidi, se é que tinham alguma. Um relatório de inteligência alemão de 2004 sobre a Haramain apontava a deportação de Saidi, mas dizia: "Ainda não está claro se existem evidências concretas de que esta pessoa tem ligações com o terrorismo". Ele acrescentou que "o governo tanzaniano justificou seu procedimento com um argumento não muito crível de que ele violou as leis para estrangeiros".

Além dos promotores alemães, o Conselho da Europa, um monitor multinacional de direitos humanos, quer entrevistar Saidi como parte de sua investigação sobre se algum país europeu violou a Convenção Européia de Direitos Humanos ao participar das extradições.

Saidi disse acreditar que seus captores eram americanos, porque falavam
inglês e pareciam no comando da prisão afegã. Ele disse que espera impetrar um processo contra o governo ainda neste ano. "Nós ainda não sabemos ao certo quem processar", disse Mostefa Bouchachi, o advogado de Saidi. "Nós não sabemos quem é o responsável, a CIA ou o FBI."

Caindo a rede do terror

Saidi disse que deixou a Argélia em 1991, para escapar da violência que
tomava o país na época. Ele estudou no Iêmen antes de se mudar para o Quênia e depois para a Tanzânia, no início de 1997. Ele começou a trabalhar para a Haramain e se tornou diretor de sua filial na cidade costeira de Tanga, um emprego que lhe deu visibilidade.

Ele disse que na época ele usava um passaporte tunisiano falso e viveu sob o nome de Ramzi ben Mizauni ben Fraj. Ele disse que perdeu seu passaporte e comprou um falso porque tinha medo de ir até a embaixada argelina enquanto a Argélia travava uma guerra civil brutal com islamitas. Ele negou que tinha algum motivo para esconder sua identidade ou que as atividades da Haramain envolvessem algo que não fosse caridade.

As autoridades americanas de inteligência há muito suspeitavam que a
Haramain estava envolvida no financiamento do terrorismo, segundo o
relatório da Comissão de 11 de Setembro. As suspeitas surgiram depois dos atentados de agosto de 1998 contra as embaixadas americanas no Quênia e na Tanzânia. Após os ataques de 11 de setembro, as autoridades americanas e sauditas alegaram que parte do dinheiro da Haramain estava sendo desviado para grupos terroristas e que a organização tinha sido infiltrada por pessoas com ligações com tais grupos. Em 2003, várias filiais da Haramain foram fechadas e no ano seguinte as autoridades sauditas dissolveram totalmente a caridade.

Não se sabe se a ação contra a Haramain levou à detenção de Saidi, mas no sábado, 10 de maio de 2003, a polícia tanzaniana cercou seu carro enquanto ele saía de casa para o trabalho, segundo Saidi, sua esposa e a imprensa da época. Naquela noite a polícia o levou para Dar es Salaam e o colocou na cadeia.

"Eu achei que estava sendo preso por causa do passaporte falso, mas não
contei para eles que era falso", ele disse.

Três dias depois, ele disse, ele foi colocado em um Land Rover branco e
levado para a fronteira de Maláui, onde foi entregue para malauianos em
trajes civis que estavam acompanhados por dois homens caucasianos de
meia-idade trajando jeans e camiseta. Eles falavam inglês com os malauianos, disse Saidi. Foi quando ele percebeu que algo pior estava acontecendo.

Um lugar 'fora do mundo'

Logo após a expulsão, um advogado que representava a esposa de Saidi
impetrou uma declaração no tribunal tanzaniano dizendo que documentos de imigração mostravam que Saidi tinha sido deportado pela fronteira entre Kasumulu, Tanzânia, e Maláui.

Após ser mantido por uma semana em uma prisão nas montanhas de Maláui, disse Saidi, um grupo de pessoas chegou em um utilitário esportivo: uma mulher caucasiana de cabelos grisalhos e cinco homens de preto vestindo máscaras pretas que revelavam apenas seus olhos.

Os malauianos o vendaram e suas roupas foram arrancadas, ele disse. Ele
ouviu alguém tirar fotografias. Então, ele disse, a venda foi removida e os agentes cobriram os olhos dele como algodão e fita adesiva, inseriram um tampão em seu ânus e colocaram uma frauda descartável nele antes de vesti-lo. Ele disse que eles cobriram seus ouvidos, acorrentaram suas mãos e pés e o conduziram a um avião, onde o puseram no chão.

"Foi uma longa viagem, da noite de sábado até a manhã de domingo", lembrou Saidi. Quando o avião pousou, ele disse, ele foi levado ao que descreveu como uma "prisão escura", repleta de música ocidental ensurdecedora. As luzes raramente eram acesas.

Homens de preto chegaram, ele disse, e lembrou de um ter gritado com ele por meio de um intérprete: "Você está em um lugar que está fora do mundo. Ninguém sabe onde você está, ninguém vai defender você".

Ele foi acorrentado por uma mão à parede em uma cela sem janela e deixado com um balde e uma garrafa no lugar de uma latrina. Ele permaneceu lá por quase uma semana, ele disse, e então foi vendado e atado de novo e levado para outra prisão. "Lá, eles me colocaram em uma sala, me suspenderam pelos braços e prenderam meus pés aos chão", ele lembrou. "Eles cortaram minhas roupas rapidamente e tiraram minha venda."

Um homem mais velho, grisalho nas têmporas, entrou na sala com uma mulher jovem com cabelo loiro na altura do ombro, ele disse. Eles falavam inglês, que Saidi entende um pouco, e o interrogaram por duas horas por meio de um tradutor marroquino. Finalmente, ele disse, ele pensou que descobriria o motivo pela qual estava lá, mas as perguntas apenas o confundiram.

Ele disse que os interrogadores se concentraram em uma conversa telefônica, que eles disseram que ele manteve com a família de sua esposa no Quênia, sobre aviões. Mas Saidi disse que não se lembrava de ter conversado com alguém sobre aviões.

Segundo ele, os interrogadores o deixaram acorrentado por cinco dias sem roupas ou comida. "Eles me batiam e jogavam água fria em mim, cuspiam em mim e às vezes me davam água suja para beber", ele disse. "O americano me disse que eu morreria lá."

Ele disse que suas pernas e pés ficaram dolorosamente inchados por ter sido forçado a ficar em pé por tanto tempo com seus pulsos acorrentados ao teto. Após o terem removido das correntes, ele disse, ele foi levado de volta para a prisão "escura" e um médico lhe deu uma injeção para suas pernas.

Após uma noite lá, ele foi transferido para uma terceira prisão. Ele disse que os guardas nesta prisão eram afegãos, e um deles lhe disse que estava nos arredores de Cabul.

Havia duas fileiras de seis celas no porão, que ele descreveu como "imundas, impróprias até para animais". Cada cela tinha uma pequena abertura na porta revestida de zinco pela qual os prisioneiros podiam vislumbrar uns aos outros enquanto eram trazidos ou levados de suas celas. À noite, eles conversavam.

"Foi aí que conheci Khaled el Masri", disse Saidi. Um desenho da prisão
feito por ele se assemelha ao desenhado por Masri.

Masri foi abduzido na Macedônia em dezembro de 2003, e posteriormente foi revelado que ele aparentemente foi confundido com um suspeito de terrorismo com nome semelhante. Ele disse que só foi capaz de vislumbrar Saidi umas poucas vezes no Afeganistão. Mas ele disse que suas celas eram próximas o bastante para conversarem à noite.

"No início de nosso tempo de prisão juntos, eu estava na última cela e ele estava a duas celas da minha", disse Masri por telefone, na Alemanha. "Sempre que eu queria ir ao banheiro ou era levado para interrogatório, eu passava pela porta dele."

Masri e Saidi disseram que passaram a conhecer outros prisioneiros,
incluindo dois irmãos paquistaneses da Arábia Saudita, cujo telefone Masri também memorizou. Usando tal número, o "The New York Times" chegou a parentes dos irmãos, Abdul al Rahim Ghulam Rabbani e Mohammed Ahmad Ghulam Rabbani, que disseram ter tomado conhecimento por meio da Cruz Vermelha, há dois anos, de que os irmãos estavam presos no Afeganistão. Documentos do Pentágono mostram que dois homens com estes nomes atualmente estão detidos em Guantánamo.

Um terrível mal-entendido

Na prisão, disse Saidi, ele era interrogado diariamente, às vezes duas vezes por dia, por semanas. No final, ele disse, seus interrogadores apresentaram uma gravação em áudio da conversa na qual ele supostamente falou sobre aviões. Mas Saidi disse que estava falando sobre pneus, não aviões, que seu cunhado planejava vender do Quênia para a Tanzânia. Ele disse que estava misturando inglês e árabe e usou a palavra "tirat", transformando "tire" (pneu) em plural acrescentando o som árabe "at". A pessoa que estava monitorando a conversa aparentemente entendeu a palavra como "tayarat", árabe para aviões, disse Saidi. "Quando ouvi, eu perguntei ao tradutor marroquino se ele tinha entendido o que estávamos dizendo na gravação", disse Saidi. Depois que o marroquino explicou para os interrogadores, disse Saidi, ele nunca mais foi interrogado novamente.

"Por que eles me levaram para o Afeganistão para fazer tais perguntas?" ele disse na entrevista. "Por que não me interrogaram na Tanzânia? Por que tiveram que me afastar da minha família? Me torturar?"

Saidi disse que os interrogadores também o acusaram de esconder foguetes em sua casa e de canalizar dinheiro para a Al Qaeda, alegações que ele nega fortemente e para as quais evidências nunca foram apresentadas.

Mas enquanto ele estava na prisão, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos pediu para que a ONU adicionasse a filial tanzaniana da Haramain na lista de caridades suspeitas de financiar organizações terroristas. Em seu anúncio em janeiro de 2004, o departamento disse que um ex-diretor não citado nominalmente da Haramain, na Tanzânia, foi responsável pelos preparativos para o grupo avançado que planejou os atentados de 1998 contra a embaixada. Mas o departamento se recusou a identificar o ex-diretor ou comentar o caso de Saidi.

Saidi disse que os interrogadores perguntavam repetidamente sobre o diretor da Haramain que o precedeu, um saudita chamado Muammar al Turki. Mas ele disse que não tinha mais contato com ele.

Segundo Saidi, no final os interrogatórios pararam. Na metade do primeiro semestre de 2004, ele disse, ele foi levado de avião para a Tunísia, aparentemente porque seus captores imaginaram que ele fosse tunisiano. Mas quando homens que falavam árabe embarcaram no avião, ele lhes disse que era da Argélia e que seu passaporte tunisiano era falso.

"Eu não queria entrar em mais apuros", ele explicou.

Ele passou mais 75 dias na cadeia, ele disse. No final de agosto de 2004, ele se preparou novamente para viajar. Seus captores lhe deram o par de sapatos brancos que ele ainda tem. O vôo levou cerca de 10 ou 12 horas, e quando o avião pousou, ele disse, ele foi entregue para as autoridades de inteligência argelinas. Elas o mantiveram detido por uns poucos dias, então lhe compraram algumas roupas, lhe deram uma pequena quantia de dinheiro e o levaram de carro até um ponto de ônibus em Bir Khadem, um bairro de Argel.

Após 16 meses, Saidi estava livre. Ele foi reunido com sua esposa e filhos. Masri tinha sido libertado poucos meses antes. Ele tentou contatar Saidi pelo telefone tanzaniano que memorizou, mas o número tinha sido desligado. No final, Saidi lhe enviou uma mensagem de texto com o novo número na Argélia, para o qual Masri telefonou.

"Eu o conheço pela voz", disse Masri, "e reconheci sua voz na primeira
conversa telefônica que tivemos após sua libertação".

*Mark Mazzetti contribuiu com reportagem em Washington. George El Khouri Andolfato

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