UOL Notícias Internacional
 

07/07/2006

Estatal de energia brasileira age no mercado global

The New York Times
Paulo Prada

em Macaé, Rio de Janeiro
Quando a Petróleo Brasileiro, empresa de energia controlada pelo Estado do Brasil, disse que não ia gastar mais um centavo investindo na Bolívia após a nacionalização do setor de energia do país, não era uma ameaça vazia.

A Petrobras, que já trocou frangos por petróleo importado, concentrava-se somente em garantir o fornecimento de combustível para o Brasil, maior economia da América Latina, com 180 milhões de habitantes. Mas técnicas de perfuração offshore inovadoras e um plano agressivo de diversificação permitiram que a empresa mudasse seu foco da produção doméstica para se tornar uma agente no mercado global de energia e importante investidora estrangeira.

Antes praticamente desconhecida fora da América do Sul, a Petrobras na última década expandiu rapidamente no exterior, investindo em 18 países diferentes em três continentes. Em uma época em que muitos produtores de petróleo estão mantendo sua produção e aproveitando os preços recorde, a Petrobras está investindo fortemente em novas fontes e usando sua experiência em perfuração em águas profundas para começar a produzir em leitos antes remotos em Angola, Tanzânia, Turquia e Índia.

Mais perto de casa, vem aumentando seu perfil nos EUA, onde recentemente comprou uma refinaria. Indo contra a tendência, está aumentando seus investimentos no Golfo do México, onde novas operações estão sendo localizadas cada vez mais distantes da costa. A Petrobras planeja investir ali US$ 2 bilhões (em torno de R$ 4,4 bilhões) até 2010, uma das poucas empresas que se preparam para ir além das águas rasas que historicamente produziram o petróleo do golfo.

Com sua expansão no exterior, a Petrobras se sobressai entre as gigantes estatais que tradicionalmente dominaram o setor de energia da América Latina. "No atual mercado, uma empresa como a Petrobrás é uma exceção", disse Lawrence J. Goldstein, presidente da Pira Energy Group, firma de consultoria de Nova York. "Ela sai de suas fronteiras, explora novas oportunidades e diversifica-se, diferentemente de outras estatais."

Quando a maior parte das pessoas pensa em petróleo latino-americano, pensa na Venezuela e no México.

Mas a produção da Petróleos de Venezuela, ou Pdvsa, e da Petróleos Mexicanos, ou Pemex, continua em grande parte doméstica, estável ou caindo. O Brasil não pode competir com a Venezuela ou o México em termos de reservas, mas a Petrobras em breve poderá superar a Pdvsa para se tornar a segunda maior empresa em produção, depois da Pemex.

A Petrobras, que continua sendo 55,7% do Estado, está investindo seus lucros para reforçar a produção para 2,5 milhões de barris de petróleo por dia até 2010, subindo em média 1,9 milhão de barris neste ano. Sua produção do ano passado levou a vendas de US$ 45,22 bilhões (em torno de R$ 99,5 bilhões) e um lucro líquido de US$ 10,02 bilhões (em torno de R$ 22 bilhões) um aumento de 50% sobre os lucros de US$ 6,69 bilhões (cerca de R$ 14,7 bilhões) de 2004. Isso a coloca em uma base financeira muito mais forte do que a Pdvsa ou a Pemex, que perderam dinheiro no ano passado.

Os rápidos ganhos de produção se devem ao sucesso da Petrobras em desenvolver novas técnicas de perfuração em águas profundas, permitindo que a empresa bombeie mais longe da costa do que outros produtores e aumente sua produção mais rapidamente do que qualquer outro na América Latina.

As técnicas, similares às desenvolvidas mais tarde por gigantes como a Royal Dutch Shell e Chevron, permitiram nos últimos anos que a Petrobras bombeasse petróleo de profundezas antes consideradas inacessíveis, e o Brasil a atingir a muito ambicionada auto-suficiência em produção de petróleo no início deste ano.

Nos anos 80, as atividades estrangeiras da Petrobras tinham como alvo negociações de importações, e a empresa negociou máquinas e produtos agrícolas por petróleo do Oriente Médio. Atualmente, porém, ela está concentrada em desenvolver campos de águas profundas no exterior.

"A prioridade não é mais assegurar que o Brasil esteja importando petróleo suficiente", disse Nestor Cervero, diretor de operações internacionais da Petrobras, em entrevista em seu escritório com vista para a baía e as montanhas em torno do centro do Rio de Janeiro. "Nossa estratégia internacional agora é sobre novos mercados e expansão dos negócios e da marca."

Apesar de sua agilidade, a Petrobrás foi pega de surpresa em maio, quando Evo Morales, presidente da Bolívia, nacionalizou o setor energético do país. A Petrobras, maior investidora estrangeira na Bolívia, foi amplamente criticada por não prever a medida e agora precisa renegociar contratos que fornecem metade do gás natural ao Brasil.

O golpe, porém, permitiu que a Petrobras usasse sua influência crescente como investidora estrangeira. Com US$ 50 bilhões (cerca de R$ 110 bilhões) investidos na Bolívia, a empresa riscou planos de investir outros US$ 2 bilhões. Em vez disso, planeja dedicar-se a outras fontes, inclusive importações de gás natural liquefeito da África.

No final do mês passado, a Petrobras disse que ia aumentar seus investimentos gerais em mais de 66% nos próximos quatro anos, investindo ao menos US$ 87,1 bilhão (em torno de R$ 191 bilhões) -a maior parte em exploração e produção- entre 2007 e 2011. Desses, US$ 12,1 bilhões (aproximadamente R$ 26,6 bilhões) serão investidos no exterior, especialmente em novas plataformas offshore no Golfo do México e em novos campos na costa da Nigéria e Angola.

A Petrobras também está começando a comprar refinarias estrangeiras para processar sua produção global crescente e eventualmente planeja vender combustível em postos de gasolina nos EUA, Europa e Ásia, além da América do Sul. Em fevereiro, a Petrobrás pagou US$ 370 milhões (cerca de R$ 814 milhões) por uma participação de 50% em uma refinaria em Pasadena, Texas.

Os investimentos crescentes são um forte contraste em relação a muitas empresas estatais.

Apesar das enormes reservas da Venezuela, a PDVSA produz menos hoje do que produzia há cinco anos. Funcionários da empresa dizem que produz cerca de 3 milhões de barris por dia, todos no país. Ainda assim, mais de um terço disso é produzido por empresas estrangeiras, dizem analistas independentes, que neste ano tiveram que entregar uma participação de controle em suas operações à gigante doméstica.

Além disso, a PDVSA está investindo pouco em nova capacidade. Grande parte da renda é desviada para financiar os amplos gastos sociais do presidente Hugo Chavez, na Venezuela e em outros países da América Latina. Muitos analistas acreditam, então, que a Petrobras está superando a PDVSA como maior produtora da América do Sul.

"Uma empresa está investindo em seu futuro e a outra na diplomacia de petróleo de seu presidente", disse Rober Tissot, diretor da PFC Energy, firma de consultoria de Washington.

A estratégia da Petrobras, porém, tem seus riscos.

Muitos de seus novos investimentos -na Nigéria e no Golfo Pérsico, por
exemplo- estão em regiões politicamente instáveis. E a administração da empresa continua influenciada pelo governo de centro-esquerda do Brasil, dizem os críticos, que tem sido brando com os países vizinhos, como Bolívia, cujas políticas prejudicam os interesses da empresa.

Executivos negam sugestões de que a Petrobras opere diferentemente de uma empresa privada. E ao jogar sua rede bem longe, a Petrobras está minimizando sua exposição a qualquer país especifico.

Seus investimentos no Golfo do México são um exemplo.

Como a costa do Atlântico da África rica em petróleo, onde as similaridades geológicas da costa brasileira atraíram engenheiros da Petrobras, a perfuração no golfo é em águas cada vez mais profundas. A empresa na última década venceu licitações para a exploração de 276 blocos do golfo, de acordo com o Serviço de Administração de Minerais americano, que regula a exploração do petróleo.

Mas a maior parte desses blocos continua parada.

Isso porque a Petrobras espera introduzir plataformas que até recentemente não eram autorizadas no golfo: plataformas flutuantes de produção e armazenamento. Cada vez mais usadas pela Petrobras em casa, as unidades flutuantes são grandes barcos que, como as plataformas tradicionais, podem ser conectados por mangueiras aos pontos de bombeamento solo marinho.

Mas como as plataformas flutuantes de produção e armazenamento podem navegar -muitas são petroleiros convertidos- são mais ágeis em águas distantes e podem agüentar melhor ondas altas e ventos. Se for aprovado o pedido da Petrobras para introduzir sua primeira plataforma de produção flutuante, o navio aumentará sua produção na região dos atuais 8.000 barris por dia para mais de 100 mil, de acordo com estimativas da empresa.

No Brasil, a plataforma flutuante P-43 fica a uma viagem de helicóptero de 170 km do pequeno aeroporto de Macaé, base logística de um conjunto de 38 plataformas no nordeste do Rio de Janeiro, onde a Petrobras extrai 90% de seu petróleo. O navio de US$ 260 milhões (em torno de R$ 572 milhões), inaugurado em 2004, é simbólico do alcance inovador da empresa nas águas profundas.

Nos anos 70, a Petrobras construiu meia dúzia de pequenas torres de perfuração nas águas rasas perto de Macaé, onde o governo esperava que pequenos leitos de petróleo ajudariam a reduzir a dependência do Brasil em fontes estrangeiras. Testes geológicos em décadas posteriores, entretanto, indicaram grandes depósitos muito mais para fora -mais de 150 km para dentro do Atlântico e em mais de 1,5 km de profundidade.

O problema era que nenhuma empresa tinha perfurado tão fundo.

Então, engenheiros da Petrobras trabalharam com fabricantes para desenvolver instrumentos resistentes à pressão e progrediram mar adentro, rompendo recordes mundiais de profundidade. "A Petrobras tornou-se líder na perfuração de águas profundas. Seu petróleo era offshore, e isso fez da costa brasileira um grande projeto de pesquisa e desenvolvimento", disse Tom Marsh, da ODS-Petrodata, pesquisador de Houston que acompanha dados de projetos de energia offshore.

Em meio aos 20 computadores que compõem a sala de controle da P-43, equipes de analistas em tarde recente acompanhavam a produção e os sistemas navais. Dali, Rivadavia Freitas, gerente da plataforma, andou para a popa da embarcação, onde uma mangueira gigante esperava a chegada de outro navio para levar o cru.

"Da plataforma vai para as refinarias em terra ou para outros países", disse Freitas. "Exportamos diretamente daqui." Deborah Weinberg

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