UOL Notícias Internacional
 

08/07/2006

Oposição mexicana protesta, e aumenta a tensão no país

The New York Times
James C. McKinley Jr. e Ginger Thompson*

na Cidade do México
O México estava imerso em um limbo na sexta-feira (07/07), à medida que aumentava a tensão entre aqueles que querem uma recontagem dos votos da eleição presidencial e os que desejam aceitar Felipe Calderon como vencedor do pleito e seguir em frente.

Após uma recontagem ter demonstrado que a diferença entre os dois principais candidatos foi de apenas 243 mil votos, a eleição expôs profundas divisões na sociedade mexicana, ao longo de eixos regionais e de classes sociais. A eleição submeteu a uma dura prova a força da jovem democracia.

Um dia após as autoridades terem anunciado que Calderon, um defensor do livre comércio, obteve a vitória por uma margem diminuta de votos, o país parecia estar à beira de um colapso, e não em um clima de comemoração.

Os apoiadores do rival esquerdista de Calderon, Andres Manuel Lopez Obrador, se preparam para brigas nos tribunais e nas ruas. Essas disputas terão início no sábado, com uma manifestação popular. Os apoiadores e aliados de Calderon pediram a Lopez Obrador que reconhecesse a derrota pelo bem do país.

A incerteza causou consternação entre os cidadãos comuns de todas as tendências políticas.

"Este homem, Lopez Obrador, amedronta as pessoas, e o seu principal problema é o fato de ele mentir para o povo e estimular a violência", acusou Sandra Sanchez, 38, uma designer que votou em Calderon. "Ele já deveria ter reconhecido a sua derrota, porque se diz que defende o povo, deveria saber que a população não quer lutar".

Consuelo Castillo Guerrero, 63, uma vendedora aposentada vestida de forma impecável, pretende participar das manifestações de apoio a Lopez Obrador. "Queremos transparência absoluta, porque não estamos convencidos desse resultado", afirmou Castillo. "Acho que se as coisas são tão transparentes quanto eles alegam, não há motivo para que alguém considere a recontagem dos votos inconveniente".

A Casa Branca não perdeu tempo em apoiar Calderon. O presidente Bush ligou para cumprimentá-lo no início da tarde pelo fato de ter recebido o maior número de votos, ainda que Calderon não tivesse sido oficialmente declarado presidente-eleito.

A lei mexicana determina que o tribunal eleitoral precisa ratificar os resultados.

"O presidente também mencionou as bases sólidas do relacionamento entre Estados Unidos e México, e afirmou que tem confiança nas instituições democráticas mexicanas", afirmou Frederick Jones, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos.

Calderon assumiu o papel de presidente-eleito na sexta-feira em uma reunião com correspondentes internacionais. Ele discutiu planos para melhorar as relações com o resto da América Latina, fortalecer o compromisso com os acordos internacionais de direitos humanos e transformar o país em um pólo de atração de investimentos para ajudar a gerar empregos e evitar que os mexicanos emigrem para os Estados Unidos.

Quando lhe perguntaram sobre a polarização que ameaça abalar a confiança no seu governo, Calderon, 43, disse que trabalharia no sentido de reconstruir as relações com os seus rivais no Partido Revolucionário Democrático, de Lopez Obrador.

Calderon também deixou claro que está preparado para usar a maioria das vagas que o seu Partido da Ação Nacional detém no Congresso para obter o apoio de outros partidos, e governar sem o partido de Lopez Obrador, caso este tente bloqueá-lo.

Calderon afirmou que não está preocupado com questionamentos da eleição junto à justiça eleitoral, porque todas as evidências indicam que ele foi o vitorioso na eleição presidencial mais transparente da história mexicana. Ele disse que as irregularidades descobertas na primeira apuração foram de pequena dimensão. E deixou claro que não tolerará uma nova recontagem.

"Este é um grande país", afirmou Calderon. "E a principal responsabilidade de todos, e especialmente a minha, é a reconciliação". Calderon disse ter recebido um telefonema congratulatório do presidente Vicente Fox, que se absteve de fazer comentários públicos sobre a eleição no último domingo. Mais tarde, Calderon recebeu mais congratulações de governantes estrangeiros, incluindo os do Canadá, da Espanha e dos Estados Unidos.

A bolsa de valores mexicana oscilou durante toda a semana, à medida que as notícias apontavam para rumos distintos. Ao final da semana, o índice da bolsa havia subido 3,6%. Os analistas de Wall Street afirmam que a vitória de Calderon parece ser irrefutável, mas advertem os investidores para se prepararem para uma longa espera até que o resultado da eleição seja confirmado.

O embaixador dos Estados Unidos no México, Antonio O. Garza, afirmou:
"Embora o processo eleitoral ainda não tenha terminado, acredito que as ações do atual governo e dos partidos políticos mexicanos, além da transparência do IFE, não só fortaleceram o orgulho cívico, mas também garantiram ao México um lugar no mundo como um grande exemplo de democracia forte e vital".

O IFE, citado por Garza, é o Instituto Federal Eleitoral.

Lopez Obrador, que têm contestado freqüentemente o resultado da eleição, se preparou para tentar provar que o sistema eleitoral continua viciado. A ação que ele moveu junto ao Tribunal Federal Eleitoral poderá adiar a nomeação de um novo presidente até setembro.

Assessores de Lopez Obrador, que é ex-prefeito da Cidade do México, disseram que ele contestará os resultados apurados em cerca de um terço dos 130 mil postos de votação, concentrando-se naqueles que apresentaram grande quantidade de votos nulos, ou nos quais não havia representantes do seu partido para fiscalizar a contagem dos votos.

Os assessores admitiram que os erros encontrados em cada urna aberta na contagem final foram pequenos, mas argumentaram que juntos eles poderiam resultar em votos suficientes para alterar o resultado da eleição.

"Se eles recontarem os votos e Calderon ganhar por um voto, a eleição estará decidida", afirmou o prefeito-eleito Marcelo Ebrard, da Cidade do México, um assessor próximo de Lopez Obrador. "Mas se não recontarem os votos, sempre haverá uma dúvida quanto à legitimidade desta eleição".

O Instituto Federal Eleitoral divulgou a contagem final dos votos no final da quinta-feira. Ele submeterá a contagem ao Tribunal Eleitoral para aprovação no domingo, o que é uma formalidade legal. Depois disso, Lopez Obrador terá até segunda-feira para apresentar os seus argumentos por uma recontagem dos votos, informaram os funcionários do instituto eleitoral.

Caso o tribunal não ordenar que haja uma recontagem, Lopez Obrador não deixou dúvidas, durante uma entrevista coletiva à imprensa, na última quinta-feira, de que poderá promover passeatas gigantescas como o próximo passo de protesto. "Isso é um direito nosso", afirmou.

Por trás da confiança que tomou conta de um campo político, e da indignação que predomina no outro, desenrola-se um debate no sentido de determinar se as eleições mais disputadas da história mexicanas foram um fator positivo ou negativo. Para certas pessoas, a série de resultados díspares fez com que ressurgissem fantasmas de um passado não muitos distante, quando o Estado manipulava as eleições. Outros temem que se o México continuar se curvando a esses velhos fantasmas, o país jamais se libertará deles.

A única coisa que parecia clara era que o México está polarizado. Quem conversa com eleitores de Calderon e depois com apoiadores de Lopez Obrador percebe nitidamente o abismo econômico que divide o país.

Manuel Arango, um corretor de imóveis rico que participa ativamente de programas filantrópicos, traduziu o sentimento de vários apoiadores de Calderon, ao dizer: "Eu espero que tudo seja decidido no âmbito das instituições, e não nas ruas".

"Nós pedimos prudência", disse Jose Luis Barraza, diretor do Conselho Coordenador do Empresariado, a principal coalizão empresarial do país. "Se houver inconsistências, reclamações e questões de ordem legal, que eles protestem. É claro que eles têm o direito de assim proceder. Mas que o façam através dos canais legais, e não mobilizando o povo, e tentando manter toda a sociedade polarizada".

Juan Huerta, 55, que trabalha em uma banca de revistas em frente a uma loja de artigos de luxo, disse acreditar que a eleição foi repleta de fraudes. Huerta disse que tentou votar em Lopez Obrador, mas lhe disseram que as urnas estavam encharcadas devido a uma forte chuva.

"Isso é uma fraude contra o povo", afirmou. "O PAN (Partido da Ação
Nacional) está jogando com a paz social do país. Se houver violência, que assim seja. O povo está farto. Foi por isso que houve a Revolução".

*Elisabeth Malkin contribuiu para esta matéria Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,235
    Outras moedas
  • Bovespa

    18h20

    -0,10
    74.518,79
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host