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09/07/2006

Mexicanos do RBD querem explodir em escala mundial

The New York Times
Josh Kun
Em Los Angeles
Maite Perroni estava tendo dificuldades para dizer "you're". A cantora e atriz mexicana de 23 anos segurou firmemente os fones de ouvido na cabine do luxuoso estúdio de gravação em Sunset Boulevard e tentou de novo.

"Even in your sleep, when you're dreaming" [Mesmo dormindo, quando você está sonhando], ela cantou com uma voz vacilante, e então ergueu as mãos em desespero. "O 'you're' é mais rápido, certo?", perguntou ao produtor da canção, Peter Stengaard, que a mandou continuar enquanto algumas estrofes da balada "I Wanna Be The Rain" tocavam alto no estúdio, em uma seqüência repetitiva.

Dez tentativas depois, finalmente ela acertou.

"Eu estava tão nervosa", disse Perroni em um inglês com forte sotaque, parecendo um pouco pálida e sem fôlego. "Esse álbum é muito importante para nós".

Perroni faz parte do RBD, um fotogênico sexteto mexicano que começou como produto colateral de uma novela, mas hoje domina o mundo do pop latino com hinos adolescentes e shows produzidos no estilo de Las Vegas.

Mas o grupo continua praticamente desconhecido entre o público que fala inglês, um problema que seus membros pretendem solucionar gravando seu primeiro disco nessa língua. Previsto para este outono, o álbum é dirigido a ouvintes não-latinos dos EUA, assim como mercados no Canadá e até na Ásia.

"Estamos tentando começar do zero com um público totalmente novo", disse Cristiano Chávez, um membro do RBD que foi criado na fronteira do Texas com o México e, como o resto do grupo, mora na Cidade do México. "Não queremos parar com as canções em espanhol. Queremos tentar atingir mais gente e compartilhar nossa música com o maior número possível de pessoas."

Em outras palavras, não é apenas mais uma tentativa de adaptação latina. É a fabricação da primeira marca pop mexicana de alcance mundial. "Para a indústria mexicana é algo totalmente novo", disse Camilo Lara, presidente da EMI México, que contratou o RBD para o selo em 2004. "Eles são os primeiros artistas mexicanos a serem explodidos em escala global".

O México já teve vários sucessos teen-pop (Timbiriche nos anos 1980 e Magneto e OV 7 nos 1990), mas nenhum se aproximou da popularidade internacional do RBD. Entre os grupos de língua espanhola, só a banda de garotos porto-riquenhos Menudo chegou perto.

Os quatro álbuns do RBD venderam juntos 5 milhões de cópias em todo o mundo, um número incrível para uma atração pop mexicana. Seu single mais recente, "Mexico, Mexico", foi encomendado como hino oficial do país para a Copa do Mundo.

Quanto aos EUA, os artistas pop mexicanos geralmente não se saíram bem na versão em inglês. Mas como "Hips Don't Lie", da cantora colombiana Shakira, tornou-se a canção pop mais tocada na história da rádio americana (além de uma das canções mais baixadas na história do iTunes), talvez o RBD esteja armando sua reformulação lingüística na hora certa.

"Todo mundo quer entrar na cultura latina, seja Wal-Mart, Dr. Pepper ou Verizon", disse Chris Anokute, executivo da Virgin Records que contratou o álbum em inglês. "As únicas músicas que tiveram crescimento de vendas no ano passado foram country e latina. Para mim é muito simples. É só uma questão de colocar o RBD no mercado."

Há apenas um detalhe: "Eles precisam parecer verossímeis. Não podem surgir como um novo grupo hispânico tentando dar certo na América", ele disse. Não admira que Perroni estivesse tão nervosa.

Compositores de primeira

Para facilitar a transição, Anokute deu ao grupo uma série de canções de compositores e produtores de primeira linha, como RedOne, que produziu o sucesso "Hips Don't Lie" que Shakira e Wyclef Jean deverão apresentar na final da Copa do Mundo neste domingo.

Talvez o mais significativo seja que o álbum inclui duas faixas ("I Wanna Be The Rain" e "Tu Amor") feitas pela pena de ouro de Diane Warren, sete vezes indicada para o Oscar, compositora de sucessos monstruosos para artistas como Celine Dion ("Because You Loved Me"), Cher ("If I Could Turn Back Time") e Toni Braxton ("Unbreak My Heart").

"Para o mercado americano eu achava que a música deles era realmente bacana, mas tinha de ser ligeiramente modificada para funcionar aqui", disse Warren em seu escritório nos estúdios Realsongs, onde o grupo está gravando durante uma breve pausa em sua turnê americana. "Eles precisam de uma canção de apelo maciço."

Mas nem ela tinha ouvido falar no RBD até que um membro de sua equipe lhe mostrou uma reportagem sobre o grupo na revista "Billboard". "Eu não sabia que eles eram um fenômeno desse tamanho", ela disse.

O nome do fenômeno é Rebeldemania. O RBD foi formado originalmente como um elemento de marketing para "Rebelde", uma telenovela de grande sucesso no México da qual todos os membros do RBD participaram como atores. Dois dos maiores singles do grupo, "Rebelde" e "Nuestro Amor", se alternavam como música-tema do programa.

Ambientada em um internato privado na Cidade do México, "Rebelde" acompanha as aventuras de Miguel, Mia, Diego, Roberta, Lupita e Giovanni, um grupo de amigos que decide formar uma banda quando não estão sabotando professores e se apaixonando.

O visual sensual do programa é colegial punk chique: os rapazes usam gravatas vermelhas e suspensórios caídos, as garotas vestem blusas brancas justas, saias xadrez e meias até os joelhos. Os personagens com freqüência temperam suas falas com expressões em inglês como "What's up?" e "Hello?"

Dinheiro de Israel

O fato de o RBD acabar tendo aspirações internacionais é bem apropriado a "Rebelde", um programa que tem uma história de fundo global. Baseada em "Rebelde Way" (novela argentina de 2002 que também se passava em um internato de elite e também apresentava sua própria banda, a Erreway), "Rebelde" foi financiada pela Dori Media, uma produtora israelense.

A Dori vendeu "Rebelde Way" com sucesso para países que vão da Índia à Grécia e à Ucrânia. Tornou-se um manual para a era transnacional da telenovela: financiada em um país, transmitida em outro e depois licenciada para mais de 50 mercados diferentes.

"A globalização no mundo dos adolescentes é muito mais enraizada do que no dos adultos", disse Leora Nir, vice-presidente da Dori Media para programação de televisão.

"A garotada em quase todo o mundo enfrenta os mesmos problemas e questões, e se habituou a ver a TV como uma ferramenta legítima para buscar e encontrar respostas. A idéia foi entrar no mercado internacional por meio de uma boa telenovela adolescente com valores elevados, que incluiria um dos elementos mais importantes da vida dos jovens: a música", afirmou Nir.

O conglomerado de mídia Televisa licenciou o programa para o México e contratou Pedro Damian, um nome chave na indústria de novelas há mais de duas décadas, para adaptá-lo a públicos locais. Ele montou o elenco sabendo que montava também um grupo pop com um grande contrato musical esperando nos bastidores.

"O programa ajuda a música e a música ajuda o programa", disse outro membro do RBD, Alfonso Herrera, 22, que começou na Cidade do México em produções teatrais como "Antígona" antes de passar para as novelas. "Sabemos que começamos como 'Rebelde', mas isso não significa que não levemos muito a sério nosso papel de músicos."

Audiência de 23%

O programa estreou em 2004 e rapidamente surgiu como uma das novelas jovens mais populares na história do gênero. No México, "Rebelde" durou três temporadas, em vez de uma, como é normal; durante a maior parte desse período, 23% de todos os lares mexicanos a sintonizaram para uma dose diária. Esse era o público cativo do RBD.

"O grupo começou como uma ficção no programa e então ganhou vida real", disse Damian, que fala inglês com leve sotaque britânico. "Agora a vida real superou a ficção. Quando eles decidiram gravar um disco no programa, já tinham vendido 3 milhões de discos no mundo real."

O último episódio foi transmitido no mês passado no México, mas o programa continua sendo exibido diariamente nos EUA (na Univision, que alcança 98% das residências hispânicas do país) e 15 outros países, da Espanha à Romênia e Israel.

Uma nova série derivada para a TV mexicana, que reencontra os garotos um ano depois da formatura ("uma dramédia", segundo Damian), começa a ser gravada neste outono.

Além do habitual ataque de merchandising de camisetas e tons para celulares, já existe uma série de revistas de quadrinhos "Rebelde", gomas de mascar, bolsas, doces e papéis de carta, e cada membro do RBD tem uma linha pessoal de perfumes.

Quando o grupo tocou no Coliseum de Los Angeles em abril, atraiu 65 mil fãs e faturou ao todo US$ 3,1 milhões, a segunda maior receita da história desse estádio (à frente de Madonna e do U2, pouco atrás dos Rolling Stones).

Nos prêmios Billboard Latin deste ano, teve três dos quatro álbuns indicados como Melhor Álbum Pop do Ano, e seu disco de estréia, "Rebelde", ganhou.

Os concertos e aparições públicas do grupo hoje dão origem a histeria de massa; uma tarde de autógrafos no Brasil em fevereiro tornou-se um evento caótico que deixou três mortos e 38 feridos.

"Quando eles me contrataram, pensei que seria apenas uma novela com esse grupo dentro", admitiu Christopher Uckermann, de 19 anos, que interpreta Diego, o filho problemático de um político. "Simplesmente não era possível imaginar algo nesta escala. Nenhum de nós jamais pensou que esse tipo de sucesso e reconhecimento poderia acontecer. Todos ainda estamos chocados".

Somente dois membros do grupo têm experiência profissional como cantoras: Anahi Puente, 23, e Dulce Maria Espinoza, 21, que começaram a gravar quando adolescentes.

Perroni, por exemplo, era aluna da escola de teatro interna da Televisa quando conseguiu este seu primeiro trabalho profissional, e Herrera confessou que só começou a ter aulas de canto quando foi escolhido para fazer Miguel, o estudante bolsista. O grupo não compõe suas canções nem toca instrumentos.

Mas os membros do RBD insistem que não são produtos fabricados pela mídia. Eles se consideram seguidores daquela antiga crença pop de que a música mais simples, quando apresentada com a combinação certa de passos de dança, jogo de quadris e harmonias vocais, pode provocar a mais pura alegria.

"O problema de grupos anteriores como o Timbiriche é que eles desistiram do poder da música pop", disse Chávez, de cabelos cor-de-rosa, que tem a voz masculina mais forte do grupo. "Eles começaram a misturar com rock e a fazer fusões. Acharam que o pop não era suficientemente bom. Esse é o nosso ingrediente especial. Realmente acreditamos no pop puro."

Damian também fala sobre o desenvolvimento da banda como uma questão de fé. "Sabíamos que precisávamos criar uma vida para 'Rebelde' que fosse além da novela", ele explicou. "Conversamos sobre uma revista, um programa de rádio, merchandising, patrocínios, um grupo musical, shows. Era todo um conceito 'Rebelde'. A idéia era que todo mundo quer ser um rebelde."

"Ser rebelde costumava significar que você tinha de usar uma máscara e uma arma e sair da selva", ele continuou, referindo-se ao Subcomandante Marcos, o líder rebelde zapatista que começou uma revolução armada na selva mexicana em 1994. "Hoje você precisa ter uma saia curta e uma gravata vermelha e ser muito bonito e simpático. É a rebelião como estilo de vida e como estética".

Tema de campanha

Damian talvez esteja certo. Quando Enrique Pena Nieto se candidatou a governador pelo estado do México em 2005, atraiu jovens eleitores escolhendo a música "Rebelde" do RBD como tema de campanha. E venceu.

Em um show recente do RBD num estádio de tênis em Indian Wells, Califórnia, milhares de "rebeldes" fãs do grupo (um mar de jovens latinas aos gritos e lágrimas e seus pacientes pais) estavam em plena ação. A maioria delas usava sua própria versão do uniforme escolar de "Rebelde".

"Obrigado por fazerem parte da geração Rebelde", Puente disse em espanhol à multidão, colocando a mão sobre o coração. "Vocês são os verdadeiros rebeldes".

A idéia original do RBD foi que seus membros se apresentariam como eles mesmos, e não como os personagens da novela. Mas no palco eles repetidamente alternam com os personagens. Os fãs reagiram de acordo. Assim, Alfonso Herrera foi recebido com uma placa "Te amo Alfonso" por uma garota de 7 anos na platéia e uma faixa "Te amo Miguel", por seu personagem na TV, das arquibancadas.

"Às vezes sou Miguel e às vezes sou Alfonso", disse Herrera, suado e sorridente, nos bastidores depois do show.

A questão da identidade logo se tornará uma decisão comercial séria. No início do próximo ano o RBD vai para o Canadá para começar a gravar seu primeiro filme longa-metragem.

Os membros ainda não sabem se ele vai seguir as aventuras dos personagens de "Rebelde" ou, como num "Hard Day's Night" mexicano, contará a história real dos membros do RBD: seis jovens de 20 e poucos anos que engatinham na onda do estrelato pop global.

"Ainda não sabemos como vamos lidar com isso", admitiu Damian com um sorriso. "Eu carrego meu laptop comigo todos os dias, porém, e leio os e-mails dos fãs. Eles vão me ajudar a descobrir o que fazer." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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