UOL Notícias Internacional
 

10/07/2006

Grupo armado executa dezenas de pessoas nas ruas de Bagdá

The New York Times
Kirk Semple
Em Bagdá
Um grupo de homens armados entrou em um frenesi de violência ostensiva, em plena luz do dia, em um bairro predominantemente sunita no oeste de Bagdá, no domingo (9), arrancando pessoas de seus carros e casas e matando dezenas delas.

Autoridades e moradores descreveram o episódio como um espasmo de vingança por parte de milícias xiitas devido ao ataque a bomba contra uma mesquita xiita no último sábado.

Horas mais tarde, dois carros-bomba explodiram ao lado de uma mesquita xiita em um outro bairro de Bagdá, numa aparente retaliação, e as autoridades informaram que 19 pessoas morreram e 59 ficaram feridas devido às explosões.

Embora Bagdá venha sendo devastada pelo derramamento de sangue entre sunitas e xiitas nos últimos meses, até mesmo pelos padrões atuais a violência presenciada aqui no domingo foi assustadora, perpetrada com aparente impunidade por justiceiros armados nas ruas.

Apesar de não haver ainda uma relação oficial de mortos, algumas agências de notícia afirmaram que as baixas chegaram a 40.

Em meio à confusão, e com a dificuldade de movimentação no oeste de Bagdá depois que a área foi isolada por militares para o combate à violência, ficou difícil verificar a veracidade dos fatos anunciados.

Mas, imersos na cultura de vingança que tomou conta do Iraque, os moradores se prepararam para uma escalada no ciclo de agressões retaliatórias entre xiitas e sunitas, que ameaça se ampliar, provocando uma guerra civil generalizada.

Estupro e assassinatos

O último episódio de violência sectarista coincidiu com o anúncio feito por oficiais militares dos Estados Unidos de que mais quatro soldados norte-americanos foram formalmente acusados de estuprar e assassinar uma adolescente iraquiana, além de executar três membros da família da garota.

Um quinto soldado foi acusado de negligência para com o dever por ter deixado de informar os seus superiores sobre os crimes. Uma fotografia do passaporte da garota, distribuída por agências de notícias no domingo, revelou que ela tinha 14 anos.

O último anúncio feito pelas forças armadas dos Estados Unidos faz com que suba para seis o número de soldados implicados nesse caso, um a mais do que havia sido anunciado anteriormente.

O episódio enfureceu o primeiro-ministro Nouri Kamal al-Maliki, e motivou pedidos de desculpas por parte das mais altas autoridades militares e civis dos Estados Unidos no Iraque.

Inaugurado há apenas sete semanas, o governo de al-Maliki está enfrentando obstáculos cada vez mais difíceis. O recrudescimento da violência arrasou o seu novo plano de segurança, e atrapalhou o seu projeto de desarmar as milícias sectaristas do país.

Ao mesmo tempo, o furor crescente motivado pelas acusações criminais contra soldados dos Estados Unidos fez com que fossem testadas as lealdades de al-Maliki, divididas entre os seus aliados norte-americanos e uma população iraquiana que se sente cada vez mais incomodada com a presença de tropas dos Estados Unidos.

Os crimes

Os assassinatos do domingo no bairro de Jihad, na zona oeste de Bagdá, tiveram início no final da manhã, perto do local em que um carro-bomba explodiu em frente a uma mesquita xiita no sábado, informaram moradores e autoridades.

Segundo relatos iniciais, o atentado a bomba matou três pessoas, mas as forças armadas dos Estados Unidos informaram no domingo que pelo menos 12 pessoas, incluindo três crianças, morreram devido à explosão, e que no mínimo 18 ficaram feridas.

De acordo com alguns moradores e com autoridades árabes sunitas entrevistadas pelo telefone, os atiradores, que eles acusam de serem membros de uma temida milícia xiita, estabeleceram postos de revista por todo o bairro, e retiraram indiscriminadamente vários árabes sunitas de seus carros e casas, executando-os na rua.

Outros corpos foram encontrados com as mãos amarradas para trás e com tiros na cabeça, disseram os moradores do bairro.

Mas, como ocorre freqüentemente no Iraque, os relatos sobre a violência variaram bastante. Moradores e algumas autoridades iraquianas disseram em entrevistas que mais de 35 pessoas foram mortas nos ataques.

A agência de notícias Associated Press citou o tenente Maitham Abdul-Razzaq, da polícia iraquiana, que disse que 41 corpos foram recolhidos e levados a hospitais.

E um funcionário do Hospital Yarmouk, o principal centro médico na zona oeste de Bagdá, disse numa entrevista por telefone que pelo menos 23 corpos trazidos de Jihad deram entrada na instituição, e que dez pessoas chegaram de lá com ferimentos causados por armas de fogo.

Mas autoridades norte-americanas e alguns funcionários das forças de segurança iraquianas afirmaram que o número de baixas foi bem menor. O coronel Jonathan B. Withington, porta-voz da 4ª Divisão de Infantaria, que fiscaliza a segurança em Bagdá, declarou que a polícia iraquiana anunciou ter encontrado 11 corpos. Não ficou claro se este número incluía as vítimas levadas para o necrotério.

Autoridades de segurança norte-americanas e iraquianas também informaram que não foram capazes de confirmar o número de pessoas mortas durante essa ação de rua aparentemente arbitrária, e Withington afirmou que as forças de segurança iraquianas foram mobilizadas imediatamente após relatos de "tiroteios esporádicos" em Jihad.

No início da tarde, forças iraquianas e norte-americanas haviam isolado o bairro e imposto um toque de recolher na área.

Alguns moradores de Jihad e líderes árabes sunitas acusaram o Exército Mahdi de cometer os assassinatos de domingo, mas membros graduados da organização de al-Sadr negaram tal acusação.

"O Exército Mahdi se preocupa com os interesses nacionais", garantiu à rede de televisão árabe Al Jazira o porta-voz de al-Sadr, Abdel Hadi al-Daraji.

Apelos pela calma

Al-Sadr fez coro a outras lideranças governamentais, fazendo apelos públicos pela calma. Ele solicitou uma reunião de emergência do parlamento para discutir a crise e "prevenir um mar de sangue", segundo um comunicado do seu escritório.

O presidente Jalal Talabani advertiu os iraquianos para que não sejam vítimas de "atos de violência que algumas pessoas desejam descrever como sectaristas".

As ruas permaneceram tensas no decorrer do dia, já que milícias de todas as facções pareciam estar se preparando para os desdobramentos dos ataques ocorridos durante a manhã.

Os combatentes do Exército Mahdi entrevistados por telefone disseram que estavam se mobilizando para uma batalha de maior proporção. Eles montaram postos de revista nos bairros predominantemente xiitas da cidade e, segundo os moradores, estão se preparando para uma retaliação sunita.

Um comandante de pelotão do Exército Mahdi que se identificou apenas como xeque Faleh declarou: "Se algo acontecer, nós atacaremos". Danilo Fonseca

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