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11/07/2006

Explosão por gás destrói casa em Manhattan

The New York Times
James Barron

em New York
Uma explosão destruiu uma casa de quatro andares no Upper East Side de Manhattan, na segunda-feira (10/7). A polícia disse que estava investigando se a explosão no início da manhã, causada por um vazamento de gás, não fora um último capítulo bizarro de uma batalha sobre quem ficaria com o imóvel em um caso de divórcio.

Pedaços de reboco voaram e estilhaços de vidro feriram quatro pessoas que caminhavam pela rua, quando a casa desmoronou em uma nuvem de poeira e fumaça, pouco antes das 9h. Dez bombeiros também ficaram feridos, assim como o marido do casal que está se divorciando, identificado pela polícia como Dr. Nicholas Bartha, de 66 anos, que morava e tinha seu consultório na casa.

"Só ouvimos a explosão, tudo chacoalhou e corremos", disse William Montanez, porteiro do prédio ao lado da casa. "Foi um caos."

A explosão fez daquele oásis urbano, o trecho da rua East 62nd entre as avenidas Madison e Park, um inferno, com helicópteros de canais de televisão sobrevoando a rua.

Antes da explosão sacudir porteiros e explodir as janelas, a rua era uma quadra arborizada que abrigava um clube, uma escola particular e muita história, incluindo servir de ponto de encontro para um grupo secreto de confidentes do presidente Franklin D. Roosevelt.

Na segunda-feira, enquanto turistas tomavam café na esquina do Regency Hotel com avenida Madison e lojas como Hermes e Luca Luca estavam se preparando para abrir, ouviu-se um estrondo de dentro da casa. No Regency, hóspedes que ainda dormiam pularam da cama, perguntando-se se tinham sido despertados por um terremoto.

Em um sinal da preocupação gerada pela explosão, a primeira nota oficial veio da Casa Branca, que anunciou que não parecia ser um ato terrorista. Detetives começaram a montar a história nova-iorquina de divórcio, raiva e dinheiro -e uma casa orçada em US$ 6,4 milhões (cerca de R$ 14 milhões).

Policiais disseram que a explosão balançou o bairro menos de duas horas depois de Bartha ter enviado uma mensagem de e-mail errática para sua ex-mulher, Cordula Bartha, com cópias para os governadores George E. Pataki e Arnold Schwarzenegger, da Califórnia, e personalidades da Fox News como Sean Hannity e Brit Hume, entre outros. Na mensagem, ele disse: "Você sempre quis que eu vendesse a casa. Eu sempre respondi: 'Só saio da casa quando estiver morto.' Você ria de mim. Você deveria ter me levado a sério."

Ele também escreveu: "Quando você ler estas linhas, sua vida mudará para sempre. Você merece. Você será transformada de caçadora de ouro para caçadora de cinzas e entulho."

Ele enviou a mensagem às 7h30.

Vinte e um minutos depois, a empresa fornecedora de gás Con Edison recebeu uma ligação de funcionários do clube privado ao lado, o Links Club -organizado no início do século 20 para promover o golfe- dizendo que sentiam cheiro de gás. Michael S. Clendenin, porta-voz da Con Edison, disse que enviou um bombeiro mecânico ao clube, que chegou às 8h20 para começar a buscar a fonte do vazamento.

Clendenin disse que o mecânico ligou às 8h45 para noticiar a explosão e que não estava ferido.

Bartha, preso nos destroços, usou um telefone celular para chamar os bombeiros, que o resgataram. Ele tinha queimaduras de segundo e terceiro graus em 30% do corpo, disse um policial.

Paul J. Browne, subcomissário de informações públicas do Departamento de Polícia, disse que a explosão estava sendo investigada como crime, mas que a condição de Bartha era tão grave que os detetives não puderam conversar com ele. Possíveis acusações podem incluir desde irresponsabilidade até atentado, por causa dos ferimentos de transeuntes e bombeiros. Todos os feridos foram levados ao hospital NewYork-Presbyterian/Weill Cornell.

Ao final do dia, na segunda-feira, cinco agentes e detetives do esquadrão de explosivos e incêndio proposital do Departamento de Polícia tentavam entender o que havia acontecido. Um policial disse que os detetives estavam investigando a possibilidade de Bartha ter tentado se matar explodindo o imóvel, mas acrescentou: "Temos evidências dele abrindo o gás e acendendo um fósforo? Não."

Outro policial observou que "Ele estava deprimido", citando documentos do divórcio na justiça que vinha se prolongando desde 2001. Como parte do acordo, o juiz determinou que Bartha leiloasse o imóvel e dividisse a renda com a mulher.

Em uma determinação judicial, o juiz David B. Saxe, da divisão de recursos da Suprema Corte Estadual disse que "não era caso de insatisfação marital comum ou até de 'brigas exageradas'". O juiz disse que Bartha tinha "traumatizado intencionalmente" sua mulher, "de origem judaica, nascida na Holanda ocupada pelos nazistas, com artigos adornados por suásticas e notas afixadas em torno da casa" e "ficou irado quando ela removeu-as".

Bartha, segundo o juiz: "Também ignorou a necessidade de apoio e assistência da esposa quando passou por tratamento e cirurgia por câncer de mama". Bartha tentou matar-se várias outras vezes durante o divórcio, segundo a polícia.

Alguns de seus pacientes, entretanto, disseram que ele reclamou do cheiro de gás nas últimas semanas. Ladan Anavim, paciente que trabalha em uma ótica próxima, disse que os funcionários da Con Edison estavam no escritório quando ela saiu de uma consulta, há duas semanas. "A secretária me disse que estavam sentindo cheiro de gás recentemente", disse ela.

Anavim disse que Bartha parecia ter a intenção de descobrir a fonte do odor de gás. "Ele estava preocupado a ponto de deixar um paciente" para falar com os funcionários de Con Edison no porão, disse ela.

Um funcionário leitor do relógio de gás sentiu o cheiro e informou a empresa do vazamento no dia 8 de junho, disse Clendenin, porta-voz da Con Edison. Uma equipe da empresa encontrou a fonte do vazamento, fechou o registro e consertou o problema.

Outra vizinha, Gail Niederhoffer, disse que sentiu cheiro de gás quando passeou com seu cão em volta do quarteirão às 6h30 na segunda-feira. Quando a explosão sacudiu o bairro duas horas depois, ela lembrou-se do gás e "soube que não era um terremoto", disse ela.

Niederhoffer também se lembra de Bartha. "Não era um homem muito amigável", disse. "Nunca o vi sorrir."

Uma porta-voz do Departamento de Imóveis de Nova York, Jennifer Givner, disse que a inspeção inicial na segunda-feira não indicou dano estrutural às duas construções adjacentes, o Links Club e o prédio de apartamentos. Mas o departamento determinou que fossem evacuados principalmente por causa das janelas quebradas e dos danos ao fornecimento de água causado pelos esforços dos bombeiros.

A casa ficava no Distrito Histórico do Upper East Side e foi construída em 1882 por L.D. Russell e J.B. Wray, arquitetos que trabalhavam na área. A Comissão de Preservação de Marcos Históricos designou o prédio parte do patrimônio em maio de 1981.

Seri Worden, diretora executiva do grupo de preservação Friends of the Upper East Side Historic District, disse que a casa era incomum porque "quase não tinha sido modificada".

A ex-mulher de Bartha e seu agente imobiliário, Mark Baum contataram à polícia quando souberam da explosão e disseram, de acordo com a polícia, que "temiam que pudesse ter sido ele, por causa da mensagem eletrônica". Baum disse em uma entrevista que Bartha "talvez estivesse um pouco triste depois do divórcio."

Esta não é a primeira vez que alguém é acusado de explodir um imóvel em meio a uma separação romântica. Em 2004, um juiz foi condenado por causar uma explosão de gás que destruiu seu apartamento de Stuyvesant Town, ferindo oito pessoas e danificando o apartamento do vizinho, em uma tentativa de suicídio fracassada.

O juiz, Larry Feingold, estava deprimido. Ele estava se separando de sua parceira, em fevereiro de 2003, quando tomou pílulas para dormir, selou a porta da frente e deitou-se em frente ao fogão com o gás aberto, testemunhou no julgamento. O gás foi incendiado por uma fagulha, aparentemente do compressor da geladeira.

Durante o julgamento, Feingold testemunhou que "nem imaginava" que outra pessoa poderia ser prejudicada por suas ações. Mesmo assim foi condenado por ameaça irresponsável em abril de 2004, pelo juiz Jeffrey Atlas da Suprema Corte Estadual de Manhattan. Na semana passada, a corte de recursos em Albany reduziu a classificação do ato de Feingold de crime para contravenção.

*Colaboraram para este artigo Sewell Chan, Sarah Garland, Anemona Hartocollis, Andrew Jacobs, Jo Craven McGinty, Colin Moynihan, William K. Rashbaum, Matthew Sweeney e Emily Vasquez Deborah Weinberg

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