UOL Notícias Internacional
 

11/07/2006

Rebelde tchetcheno é morto, diz Rússia

The New York Times
Steven Lee Myers

em Moscou
Shamil Basayev, rebelde tchetcheno que organizou os ataques terroristas mais mortíferos contra a Rússia, foi morto no início da segunda-feira (10/7). O diretor do serviço de segurança do país descreveu sua morte como uma operação especial que começou com o acompanhamento de carregamentos de armas e explosivos do exterior.

Presidente Vladimir V. Putin caracterizou a morte do homem mais procurado do país - que tinha uma recompensa de US$ 10 milhões (em torno de R$ 22milhões) sobre sua cabeça -como uma "retaliação justa" pelo derramamento de sangue provocado por Basayev.

O diretor do Serviço de Segurança Federal, Nikolai P. Patrushev, disse que a operação impediu um plano de ataque terrorista no Sul da Rússia, que deveria coincidir com uma reunião do Grupo de 8 líderes, inclusive o presidente Bush, que começará no sábado em São Petersburgo.

A morte de Basayev talvez não acabe com o conflito na Tchetchênia, mas é inquestionavelmente uma vitória política e psicológica para Putin e para o país que agüentou, e certas vezes desesperou-se com, uma onda mortífera de ataques terroristas. Desde 1994, o movimento deixou dezenas de milhares de pessoas mortas, exigiu muito dos militares russos e expôs a Rússia a acusações de abusos grosseiros de direitos humanos.

Basayev, 41, travou uma guerra contra a Rússia por mais de uma década, como comandante militar perspicaz, líder político errático e, por fim, como auto-proclamado terrorista e símbolo de uma insurgência aparentemente infindável na Tchetchênia e territórios vizinhos no Norte do Cáucaso. Ele assumiu a responsabilidade por ataques que mataram centenas de pessoas, inclusive muitos reféns civis. Entre seus atentados está a tomada de um hospital em Budyonnovsk, no Sul da Rússia em 1995, um teatro em Moscou em 2002 e, mais notoriamente, uma escola em Beslan em 2004, onde 331 pessoas morreram, mais da metade delas crianças em idade escolar.

"Essa foi uma retaliação justa contra os bandidos em nome de nossas crianças de Beslan, em Budyonnovsk e de todos os ataques terroristas que fizeram em Moscou e outras regiões da Rússia", disse Putin com um ar duro, até sombrio, em observações na televisão durante uma reunião com Patrushev.

As autoridades não apresentaram evidências da morte de Basayev, mas um site da Web que freqüentemente divulga suas declarações, www.kavkazcenter.com, anunciou sua morte na noite de segunda-feira, declarando-o um mártir da causa da independência da Tchetchênia. A informação não pôde ser comprovada e dizia que o líder morreu em um acidente, não em uma operação das forças russas.

Patrushev e outras autoridades disseram que Basayev foi morto pouco depois da meia noite na segunda-feira, quando uma explosão anônima destruiu um caminhão parado nas cercanias da aldeia de Ekazhevo, na Inguchétia, uma região montanhosa que faz fronteira com a Tchetchênia.

Basayev estava em pé perto do caminhão, acompanhado de outros combatentes que estavam viajando em três automóveis, disse um porta-voz regional do Serviço de Segurança Federal, Yuri Muravyov, em entrevista telefônica. Ele disse que o comboio de veículos tinha parado por tempo indeterminado.

Segundo Muravyov, o caminhão carregava grande quantidade de armas ou explosivos, o que levou as autoridades a acreditarem que o grupo estava se preparando para atacar algum ponto da região.

Relatos iniciais no início da segunda-feira descreveram a explosão como um acidente, talvez causado por um erro na manipulação dos explosivos. Mas um policial em Ekazhevo disse em entrevista telefônica que, quando a polícia local e promotores chegaram para investigar, os agentes do Serviço de Segurança Federal já tinham isolado a área. Isso sugeriu que estavam ao menos acompanhando de perto o grupo de Basayev, e que sua morte não foi acidental.

"Tudo estava selado", disse o policial, Aslan Khashtyrev, que descreveu o som da explosão "como um terremoto".

Ele acrescentou: "Disseram até que não devíamos registrar o caso em nosso livro de eventos."

Ao menos três outros identificados como combatentes morreram na explosão, disse Muravyov, enquanto agências de notícias russas informaram que até 12 morreram. Muravyov explicou que a força da explosão, que foi seguida de explosões menores e incêndios, tornou difícil contar as vítimas, ainda mais identificá-las.

"Não podemos dar o número exato de terroristas mortos", disse ele, acrescentando que a operação continuaria na segunda-feira.

As autoridades disseram que o corpo de Basayev, desmembrado com a força da explosão, foi identificado por suas características mais proeminentes: seu cabelo curto e barba cheia e uma prótese abaixo de um joelho, que usava desde que foi ferido em fevereiro de 2000, enquanto fugia da capital da Tchetchênia, Grozny.

Patrushev não deu mais detalhes sobre a investigação que levou seus agentes até Basayev, fugitivo há anos. Aparentemente ele entrava e saia da Tchetchênia e regiões vizinhas com a ajuda de autoridades corruptas.

Ele também não identificou os países onde os combatentes de Basayev adquiriram as armas e explosivos. Autoridades russas já haviam acusado o Azerbaijão e a Geórgia e até países mais distantes de fornecer apoio financeiro e material para os guerrilheiros da Tchetchênia.

Também não ficou claro o que causou a explosão. O Canal Um de televisão estatal informou na segunda-feira à noite que um míssil tinha atingido o caminhão, apesar de a Agência de Informação Russa negar, dizendo que o caminhão explodiu quando as forças russas atacaram o comboio.

Muravyov, porta-voz do serviço de segurança da Inguchétia, recusou-se a discutir a questão, para manter o segredo das operações especiais. "Não podemos dizer nada a respeito", disse ele.

A aldeia onde Basayev morreu fica perto de Nazran, principal cidade da Inguchétia, e menos de 22 km de Beslan, local do cerco à escola que fez muitos voltarem-se contra Basayev. Até alguns de seus combatentes ficaram assombrados com o ataque à escola e o uso de centenas de mulheres e crianças como alvo.

O fato de Basayev e um grupo de combatentes fortemente armados terem podido cruzar para fora da Tchetchênia e chegar tão perto de uma cidade como Nazran marcou a volatilidade do Norte do Cáucaso, onde a guerra na Tchetchênia e um aumento do extremismo islâmico semearam violência na região.

Sua morte, porém, foi a mais recente em uma série de sucessos contra os separatistas tchetchenos, que parecem cada vez mais desorganizados, apesar de ainda potencialmente mortíferos.

Em junho, um comandante de polícia na Tchetchênia disse à rede de televisão local que Basayev e outro rebelde, Doku Umarov, que agora é o líder proclamado do movimento, tinham se estabelecido em um desfiladeiro na Inguchétia, perto de onde Basayev morreu na segunda-feira. "O oxigênio foi cortado para eles no território da Tchetchênia", disse o comandante Arbi Zakiyev à televisão.

A notoriedade de Basayev era tal que, por todo o espectro político russo, não houve expressão de remorso por sua morte. Sua última declaração pública foi uma provocação, expressando "grande gratidão" aos militantes que mataram cinco diplomatas russos no Iraque em junho; a decapitação de um deles foi divulgada em um vídeo medonho que provocou revolta na Rússia.

Ramzan A. Kadyrov, primeiro-ministro da Tchetchênia, expressou pesar somente por não ter matado Basayev ele mesmo. O pai de Kadyrov, Akhmad, ex-presidente da Tchetchênia, morreu em maio de 2004 em um atentado em um estádio de Grozny, pelo qual Basayev responsabilizou-se. O poder de Kadyrov e sua lealdade a Moscou tornaram-no um líder da região, apesar de controverso.

"Basayev era um canalha", disse ele em conferência com a imprensa em Grozny. "Um fugitivo, nem mesmo estava em sua terra natal."

Em Washington, especialistas em Rússia disseram que a morte serviria para lembrar os laços que ainda ligam Putin e Bush, enquanto os dois se preparam para conversas no final desta semana em São Petersburgo.

Stephen J. Hadley, assessor nacional de segurança, disse durante reunião com a imprensa na segunda-feira que o combate ao terrorismo é uma área que os dois países têm em comum. "O presidente não se sentiu constrangido de conversar com o presidente Putin sobre democracia e outros assuntos em que não concordamos por causa da cooperação que temos com ele em outras questões." Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,28
    3,182
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,29
    64.676,55
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host