UOL Notícias Internacional
 

11/07/2006

Um homem teimoso tenta governar uma província violenta do Iraque

The New York Times
Dexter Filkins

em Ramadi, Iraque
Mamoon Sami Rashid é o governador que tem 29 vidas.

Esse é o número de tentativas de assassinato que sofreu desde que assumiu o governo da província de Anbar em janeiro de 2005.

"Vejam. Foi ali que o homem-bomba tentou me matar", disse Rashid com um sorriso, enquanto dirigia o seu SUV (veículo utilitário esportivo) blindado para o trabalho. À margem da estrada, na direção em que ele apontava, era possível ver as carcaças calcinadas de meia dúzia de automóveis.

"E foi ali", contou ele, após algum tempo, apontando para um outro local, "que eles tentaram me assassinar a tiros".

Carros-bomba, suicidas usando cinturões de explosivos, morteiros, armas de fogo. No seu carro, na sua casa, em uma mesquita: os insurgentes tentaram matar Rashid tantas vezes e de tantas formas diferentes que ele quase perdeu a conta das tentativas de assassinato das quais foi vítima. Mas, considerando a situação em Ramadi, a tumultuada capital da província de Anbar, Rashid provavelmente necessitará de algumas vidas mais para sobreviver até que o seu mandato expire no final deste ano.

"Eles querem me matar porque eu não permitirei que conquistem o poder", disse Rashid, girando o volante.

Rashid é, ao mesmo tempo, uma prova da tenacidade e da fragilidade do governo apoiado pelos Estados Unidos na província de Anbar, a oeste de Bagdá. Assim como as instalações arruinadas que ele chama de seu escritório, Rashid teima em resistir, mesmo que vários colegas e amigos tenham perdido a esperança, ou, em alguns casos, a vida.

O seu predecessor, Raja Nawaf, foi seqüestrado e executado. O seu vice, Talib al-Dulaimi, foi abatido a tiros. Khidr Abdeljabar Abbas, o presidente do conselho da província, foi morto em abril. E no mês passado, o secretário do governador foi decapitado.

Rashid, 49, sobrevive em grande parte devido à proteção que lhe é dada pelos fuzileiros navais dos Estados Unidos. Eles montam guarda no Centro do Governo no qual Rashid trabalha, e o escoltam de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Eles transportam Rashid pela província de Anbar em um helicóptero. De fato, Rashid é mais do que um simples símbolo do governo provincial de Anbar. Ele parece ser a única peça funcional do governo. A maior parte dos membros graduados do governo se recusa a comparecer ao trabalho ou a mostrar as suas faces em público.

"Tem sido muito, muito difícil fazer com que as pessoas venham até aqui", explica o coronel Frank Corte Jr, reservista do Corpo de Fuzileiros Navais, legislador estadual do Texas e assessor de Rashid. "Em maio, contávamos com uma casa cheia - prefeitos, diretores-gerais, empreiteiros. Mas foi naquele mês que ocorreu o ataque contra o governador e a decapitação do seu secretário. A mensagem se espalhou. A maioria dos funcionários não comparece mais ao serviço".

Mas o governador não se deixa abalar. Ele é uma figura corpulenta, que lembra um lutador profissional. A sua cabeça redonda, o pescoço grosso e o bigode curvo - além das suas mãos enormes - conferem a Rashid uma aura de imponência. A realidade é um pouco mais branda. Rashid é engenheiro civil, pai de sete filhos e marido de duas mulheres.

"Sou engenheiro há 28 anos, e as pessoas me conhecem e me respeitam - sou amigo de várias delas", diz Rashid. "São os criminosos que não gostam de mim".

As autoridades norte-americanas esperam - assim como Rashid - que a mais recente iniciativa no sentido de acabar com a insurgência aqui permita a Rashid e ao seu governo começarem a funcionar normalmente, conquistando, dessa forma, alguma legitimidade entre os iraquianos comuns. Porém, ninguém - incluindo Rashid - sabe quando esse dia chegará. Os guerrilheiros não dão mostras de esmorecimento.

Segundo qualquer avaliação, ele tem um longo caminho a percorrer antes que possa esperar trabalhar como um chefe normal do executivo de uma província normal. Grande parte de Anbar é um verdadeiro campo de batalha. Este é atualmente o local mais mortífero para os soldados dos Estados Unidos, que travam quase todos os combates na região.

Várias das cidades sofreram destruição generalizada. Em Ramadi, a área em torno do Centro de Governo foi em grande parte obliterada em um raio de 800 metros. Muitas cidades fornecem abrigo aos membros da resistência. A maior parte das áreas só conta com umas poucas horas de eletricidade diariamente.

Rashid descreve o seu desafio de forma filosófica, relembrando que as tribos sunitas em Anbar também nunca sucumbiram inteiramente a Saddam Hussein. Em vez disso, elas se voltaram para as suas próprias tradições. Segundo Rashid, é isto o que essas tribos estão fazendo neste momento. O desafio é atraí-los para o mundo moderno.

"Esta é uma luta entre o velho e o novo", explica Rashid. "Entre a constituição e a continuação da anarquia".

Os problemas de Rashid vão além de Anbar. O governo dominado pelos xiitas em Bagdá, liderado por Nuri al-Maliki, colocou Rashid e Anbar em um patamar tão baixo na sua lista de prioridades que uma verba de US$ 75 milhões prometida para a execução de 43 projetos de desenvolvimento é aguardada há meses. Rashid viajou recentemente a Bagdá para pedir a Maliki que envie o dinheiro. Ele ainda está aguardando.

Uma recente reunião do governo da província revelou a profundidade e a amplitude dos desafios. Somente seis dos 39 funcionários graduados compareceram à reunião. E os que compareceram só o fizeram porque Rashid ameaçou demitir quem faltasse. Quando a reunião finalmente teve início, no Centro do Governo, o número de fuzileiros norte-americanos no salão era muito maior que o de iraquianos.

"Estou muito satisfeito em ver os seus diretores-gerais aqui hoje", afirmou Corte, o assessor norte-americano, referindo-se aos seis funcionários iraquianos. "Eles são homens muito corajosos".

Um dos primeiros tópicos discutidos foi a renovação de várias escolas, que estavam sendo financiadas e supervisionadas pelos fuzileiros. Quando os fuzileiros anunciaram que parte do trabalho havia sido paralisada - em uma escola elementar em Haditha, por exemplo -, Rashid ficou visivelmente incomodado.

"Por que essas escolas não estão sendo reconstruídas?", questionou Rashid, olhando para os norte-americanos.

"Alguém está ameaçando os empreiteiros", respondeu um fuzileiro.

Rashid balançou a cabeça. Segundo ele, as escolas precisam estar prontas para o começo do ano letivo, em setembro. "Precisamos pressionar os empreiteiros", afirmou ele.

"Existe uma quantidade enorme de medo e intimidação", retrucou o fuzileiro. "Precisamos ser capazes de garantir a essas pessoas que as suas famílias e os seus funcionários não serão assassinados".

Todos foram a favor do fornecimento de mais proteção aos empreiteiros iraquianos.

O tópico seguinte foi ainda mais problemático.

No dia anterior, cerca de dez bilhões de dinares iraquianos, o equivalente a US$ 7 milhões, desapareceram do Banco Al Rafidain, no centro de Ramadi, ao lado do posto de comando dos Estados Unidos. O Al Rafidain era o único banco em funcionamento em Anbar, e os US$ 7 milhões representavam a maior parte do dinheiro nele depositado. Tal quantidade de dinares teria enchido vários caminhões de grande porte, mas ninguém admitiu ver nada.

"Havia mais de 150 pessoas no banco naquele dia", contou Corte. "Isso não me cheira bem, governador".

O governador concordou. "É difícil acreditar que com tamanha presença militar bem ao lado eles tenham sido capazes de fazer isso", disse Rashid. "Deve ter sido uma operação realizada por indivíduos do próprio banco".

O coronel Sean MacFarland, um militar norte-americano, afirmou: "A poupança de toda a vida de muita gente estava lá. Esses depósitos tinham seguro?".

O governador foi incapaz de conter um pequeno sorriso. "No Iraque, não temos seguros", retrucou.

Quando a reunião se aproximava do seu final, um fuzileiro dos Estados Unidos alertou para os perigos existentes no momento em que alguém deixasse o Centro do Governo. "Área de franco-atirador! Corram", gritou o fuzileiro, e todos os participantes da reunião saíram correndo. Danilo Fonseca

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