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12/07/2006

Antes um inimigo, setor de saúde se volta para Hillary Clinton

The New York Times
Raymond Hernandez e Robert Pear*
Quando ela tentou reformar o sistema de saúde do país como primeira-dama, Hillary Rodham Clinton alienou algumas pessoas e instituições no setor de saúde ao defender uma grande ampliação do papel federal. Ela provocou uma reação feroz da indústria, que zombava de sua proposta em propagandas na televisão e enviou lobistas que no final ajudaram a matar o plano.

Mas os tempos mudam. Enquanto ela concorre à reeleição para o Senado por Nova York neste ano e estabelece a base para uma possível candidatura presidencial em 2008, Hillary está recebendo centenas de milhares de dólares em contribuições de campanha de médicos, hospitais, laboratórios farmacêuticos e seguradoras. Nacionalmente, ela é a segunda maior recebedora de doações do setor, atrás apenas do senador Rick Santorum, republicano da Pensilvânia e membro da liderança republicana.

Alguns dos mesmos interesses que buscaram minar a reforma da saúde de Hillary estão fornecendo apoio à sua reeleição ao Senado. A Associação de Seguros de Saúde da América foi responsável pelos famosos comerciais "Harry e Louise" que ridicularizavam o plano de Hillary como impenetravelmente complexo. Algumas empresas que eram membros daquele grupo agora estão doando para Hillary.

Charles N. Kahn III, um republicano que foi vice-presidente executivo da associação em 93 e 94, atualmente trabalha com a senadora em algumas questões como presidente da Federação dos Hospitais Americanos, um lobby para empresas que administram hospitais como HCA e Tenet. Ele descreveu suas batalhas com a primeira-dama como "história antiga" e disse que os executivos do setor de saúde estão contribuindo para a campanha dela porque "ela tem um conhecimento extremo do sistema de saúde e se tornou uma líder no Congresso sobre o assunto".

Hillary já recebeu US$ 150.600 em contribuições de seguradoras e laboratórios farmacêuticos, que ela acusou em 1993 de "trapacear nos preços" e "lucro inescrupuloso".

O apoio financeiro é uma mudança de posição intrigante para uma figura
política que se tornou pária para muitos no setor de saúde, após o
presidente Bill Clinton tê-la nomeado para chefiar a Força-Tarefa para
Reforma Nacional do Sistema de Saúde. As recomendações feitas pela
comissão -pedindo por um atendimento de saúde universal, exigência de
cobertura mínima e limites potenciais para os aumentos de gastos com saúde- foram ridicularizados como "Hillarycare" por oponentes e teriam custado aos democratas o controle da Câmara dos Deputados nas eleições de 1994.

A reaproximação reflete em parte como Hillary moderou suas posições em
comparação há mais de uma década, propondo projetos para aumentar os
pagamentos ao Medicare, o sistema público de saúde para idosos e inválidos, ou evitar cortes nos pagamentos aos médicos, hospitais, asilos, empresas de saúde e agências de atendimento domiciliar. Ela apresentou um projeto para reduzir o custo do seguro para imperícia para os médicos que revelem os erros médicos aos pacientes.

Com forte apoio do setor, ela tem lutado por legislação que promove a adoção de tecnologia de informação para saúde. Provedores e consumidores elogiam seus esforços para expandir a cobertura dos planos para incluir o atendimento para saúde mental e financiar atendimento de longo prazo para os americanos mais velhos que moram em casa.

Hillary freqüentemente desarma os grupos de saúde ao dizer que aprendeu com suas batalhas anteriores. "Nós tentamos fazer coisas demais rápido demais 12 anos atrás, e ainda tenho as cicatrizes para mostrar", ela disse em um discurso em março, durante a conferência anual da Federação dos Hospitais Americanos.

Apesar de algumas pessoas no setor de saúde ainda desconfiarem de Hillary, muitas dizem que a vêem como a provável candidata presidencial democrata e estão buscando influenciar sua agenda sobre um assunto que as pesquisas indicam que está se tornando uma das maiores preocupações dos eleitores.

Frederick H. Graefe, um advogado de empresas de saúde e lobista em
Washington por mais de 20 anos, disse: "Pessoas de muitos setores, incluindo o de saúde, estão atualmente contribuindo para a senadora Clinton porque esperam que ela será a candidata presidencial democrata em 2008".

"Se as regras habituais se aplicarem", disse Graefe, os doadores mais
antigos "terão um assento à mesa quando saúde e outra questões forem
discutidas".

De forma reveladora, um dos arrecadadores dela no setor é um republicano, William R. Abrams, vice-presidente executivo da Sociedade Médica do Estado de Nova York.

Alguns republicanos acusam Hillary de oportunismo político ao cortejar
antigos inimigos. Tracey Schmitt, uma porta-voz do Comitê Nacional
Republicano, questionou a sinceridade da nova abordagem mais pragmática de Hillary para a saúde.

"Isto revela que Hillary Clinton é uma política mais preocupada com
contribuições de campanha do que nas políticas que ela alega apoiar", disse Schmitt sobre os esforços da senadora para cortejar o setor de saúde. De fato, durante sua campanha de 2000 ao Senado, Hillary criticou fortemente seu oponente, Rick A. Lazio, de estar amarrado à indústria farmacêutica por receber doações dos laboratórios.

Kenneth E. Raske, o presidente da Associação dos Hospitais da Grande Nova York e um arrecadador de fundos para Hillary, disse que o relacionamento entre a senadora e alguns líderes do setor começou de forma turbulenta no início dos anos 90. Mas, ele disse, muitos agora acreditam que ela estava certa no que disse sobre os problemas que afligem o setor e pensam que ela está em uma posição forte para liderar o assunto novamente.

"Eu acho que, atualmente, a questão dos planos de saúde e o temor dos
americanos de perder sua cobertura são um veio de ouro político aguardando para ser explorado", disse Raske. "É preciso pensar que o atendimento de saúde será um grande tema em 2008".

Análises separadas do Centro para Políticas Responsáveis, um grupo
independente que monitora o financiamento de campanha, e do "New York Times" mostram que Hillary recebeu US$ 854.462 do setor de saúde em 2005-2006, uma quantia maior do que qualquer outro candidato exceto Santorum, com US$ 977.354. Outros setores abriram suas carteiras para Hillary, uma arrecadadora de fundos formidável. Mas nenhum a enfrentou como fez o setor de saúde.

As contribuições para Hillary nos últimos 18 meses incluem mais de US$ 431 mil de médicos e outros profissionais de saúde, e mais de US$ 142 mil de hospitais e asilos.

Por exemplo, ela recebeu US$ 1 mil dos Planos de Seguro Saúde da América, o maior lobby das seguradoras; US$ 1 mil da empresa Blue Cross and Blue Shield Association; US$ 7.770 da Pfizer e seus funcionários; US$ 10.500 do Grupo Roche e seus trabalhadores; e um total de US$ 16 mil de três grandes empresas que administram os benefícios de medicamentos prescritos para os planos Medicare e planos de saúde privados: Caremark Rx, Express Scripts e Medco Health Solutions.

Apesar do setor de saúde ter sido um de seus principais defensores na
candidatura de 2000 ao Senado, a tendência cresceu em 2006 à medida que sua proeminência política cresceu e ela se tornou uma legisladora importante em questões de saúde. Restando cerca de quatro meses para as eleições, Hillary já levantou mais dinheiro nesta campanha junto ao setor de saúde do que em sua candidatura de 2000.

Hillary recebeu mais dinheiro dos fornecedores de atendimento de saúde do que das seguradoras, em parte porque ela tem defendido mais abertamente os prestadores de serviço, criticando as seguradoras de tempos em tempos. Mas o fato dela ter recebido dezenas de milhares de dólares das seguradoras e seus funcionários ressalta a mudança da posição em relação a ela. Além disso, Hillary, uma membro do Comitê de Saúde, Educação, Trabalho e Pensões do Senado, tem ajudado as seguradoras em Nova York, respondendo à preocupação delas de não estarem sendo adequadamente reembolsadas por sua participação
no Medicare.

O senador estadual Kemp Hannon, um republicano de Long Island que é
presidente do Comitê de Saúde, em Albany, expressou surpresa diante da
quantia de dinheiro que o setor, particularmente as seguradoras, injetaram nos cofres de campanha de Hillary Clinton.

Mas após refletir, ele disse, faz sentido, já que muitos no setor a
consideram uma autoridade no assunto que pode ajudar a defender a agenda do setor. "Ela já pagou o preço intelectual de lutar para conhecer o sistema", ele disse.

Alguns fornecedores de atendimento de saúde estão dando mais dinheiro para candidatos republicanos em geral, mas estão garantindo suas apostas doando também para Hillary.

"Independente de qual cargo ela disputará no futuro, ela será uma personagem importante no cenário nacional enquanto ela quiser", disse Abrams, o executivo da sociedade médica de Nova York.

No ano passado, Abrams e Raske, o chefe da associação dos hospitais de Nova York, realizaram um evento em Nova York que levantou dezenas de milhares de dólares para Hillary junto a dezenas de médicos e executivos de hospital proeminentes.

Hillary Clinton mudou seu estilo e baixou o tom das críticas ao setor em discursos sobre o sistema de saúde. Mas suas platéias ainda vêem lampejos do antigo populismo. Falando em uma conferência da Associação Médica Americana em Washington, neste ano, ela disse: "O dinheiro está vazando, está escapando do sistema de saúde na forma de lucros recordes para empresas farmacêuticas e seguradoras".

No início dos anos 90, muitos executivos do setor de saúde diziam que as propostas dela asfixiariam suas finanças e colocariam em risco a qualidade do atendimento.

Abrams disse que Hillary agora "entende que a mudança é incremental", em comparação à sua posição nos anos 90, quando propôs mudanças imediatas e abrangentes.

*Aron Pilhofer contribuiu com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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