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12/07/2006

Olimpíadas colocam em risco bairro histórico de Pequim

The New York Times
Jim Yardley

em Pequim
A pouca distância da Praça da Paz Celestial e do Grande Salão do Povo, um bairro histórico chamado Qianmen é um quadro assustador de destruição. Casas antigas estão arruinadas. Saqueadores vagam pelos becos, esperando para invadir as construções abandonadas.

Miranda Mimi Kuo/The New York Times 
Homens procuram por algo que possa salvar de área de demolição em Qianmen, Pequim

O motivo para a devastação são os Jogos Olímpicos de 2008, que transformaram grande parte da cidade em um canteiro de obras barulhento e desorganizado.

Novas linhas de metrôs, estradas e até mesmo um centro inteiro da cidade estão sendo construídos. Na parte norte de Pequim, pelo menos 25 mil trabalhadores constroem a vila e os estádios olímpicos.

Porém, em meio a projetos tão grandiosos, é o modesto Qianmen, que já foi o bairro onde residiam os intelectuais e os cantores de ópera da dinastia Qing, que está gerando uma questão angustiante. Será que as Olimpíadas, que segundo os organizadores ampliarão a "herança cultural" da cidade, acabarão, em vez disso, ajudando a destruir aquilo que restou da velha Pequim?

Várias ruas e centenas de casas avarandadas foram demolidas, mas o bairro ainda não foi inteiramente destruído. Intelectuais, preservadores e moradores estão tentando salvar aquilo que restou, e divulgaram os fatos a ponto de transformar a situação em uma controvérsia política. No entanto, por ora, as equipes de demolição ainda prosseguem gradativamente com o seu trabalho.

"Isso aqui se parece com um cenário da fascinante Pequim, ou lembra mais uma zona de guerra?", questiona Pan Jinyu, um morador local, parado em uma rua estreita, repleta de casas demolidas. Não muito longe dali, uma faixa de propaganda vermelha e branca paira sobre um prédio demolido: "Construa uma nova Pequim e dê as boas-vindas às Olimpíadas".

Para um anfitrião olímpico, a tarefa de construir estádios e embelezar a cidade muitas vezes envolve complicadas disputas imobiliárias. Antes dos jogos de 1996, Atlanta demoliu um complexo de moradias públicas ao lado da vila olímpica. Qianmen não é um local para uma instalação olímpica, mas é uma peça do processo contínuo e generalizado de construção de novos prédios e destruição de cortiços que tomou conta da cidade, e que se acelerou com os preparativos para os jogos.

Durante os últimos dez anos, vários dos antigos bairros hutong da cidade, as velhas e densamente habitadas áreas cortadas por ruas estreitas e sinuosas e repletas de casas arruinadas, foram sistematicamente demolidos e substituídos por edifícios altos de apartamentos e escritórios.

Os preços das moradias se tornaram um problema tão sério que muitos habitantes da antiga Pequim foram forçados a se mudar para o entorno da cidade por não conseguirem mais arcar com o custo de vida nos bairros antigos.

Qianmen era um dos últimos hutongs intactos, no qual moravam professores, lojistas, trabalhadores imigrantes e outros membros da classe trabalhadora.

Mas com a sua localização central, os terrenos do bairro são altamente valiosos. E devido ao fato de Qianmen estar arruinado, muitos moradores acreditam que as autoridades não desejam que o bairro se constitua em um elemento de poluição visual no centro da cidade durante as Olimpíadas.

"Eles estão implementando este plano de maneira acelerada devido às Olimpíadas", declara Pan. "Este bairro é a face de Pequim para o mundo. As autoridades não querem que os estrangeiros vejam esta velha face coberta de cicatrizes".

Pouco se sabe sobre os planos específicos para o projeto, ou quem dele se beneficiará. Autoridades do Partido Comunista e empreiteiras privadas muitas vezes trabalham em conjunto, e existem tantos negócios marcados pela corrupção que lideranças do governo moveram uma campanha contra o confisco ilegal de terrenos e a expulsão de moradores.

Um vice-prefeito de Pequim, Liu Zhihua, foi recentemente destituído do seu cargo e acusado de corrupção. O currículo de Liu incluía a construção de instalações olímpicas e a autoridade para ordenar as demolições na cidade.

Jin Yan, um vice-diretor do departamento de construção do Comitê Olímpico de Pequim, afirmou que Qianmen não fazia parte de um projeto olímpico oficial, estando, portanto, fora da sua alçada. Mas ele admitiu que as Olimpíadas são o fator responsável pelo grande projeto de construção que atualmente toma conta da cidade.

Em Qianmen, a principal artéria do bairro, a Avenida Qianmen, está sendo convertida em um calçadão para pedestres, cheio de restaurantes e lojas. Mas as autoridades têm feito comentários deliberadamente vagos a respeito dos seus planos para as áreas residenciais, apesar dos boatos persistentes de que o bairro será reconstruído com residências com valor unitário de um milhão de dólares.

As autoridades se recusam a discutir os planos, ou a divulgar quais quarteirões serão demolidos. Os moradores geralmente só ficam sabendo dos fatos quando anúncios são afixados nas paredes externas das suas casas, avisando que foi estabelecido um prazo para que certas ruas sejam demolidas.

Um website municipal está repleto de mensagens de moradores ansiosos que
perguntam: "Vocês vão demolir a minha casa?".

No setor leste do bairro, que faz parte do distrito de Chongwen, várias residências já desapareceram. Amplas faixas de destruição, como aquelas deixadas pela passagem de tornados, marcam os locais em que serão construídas novas estradas.

"À noite, este se torna o local mais perigoso de Pequim", afirma Zheng Zhongping, um morador local. "Os ratos estão tão famintos que estão perseguindo as pessoas. Todos os alimentos que eles costumavam comer acabaram. Os moradores lacram as suas casas com tábuas de madeira, mas mesmo assim os ladrões conseguem entrar".

Em uma tarde recente, saqueadores passavam com bicicletas de carga pelas ruas estreitas, levando papelão e madeira. Muitos deles são agricultores das províncias pobres que acompanham as obras de demolição para delas tirar o seu sustento. "As demolições são um fato positivo para nós, porque elas geram muito lixo", afirmou um desses indivíduos.

Um outro homem caminhou pela área arrasada e apontou para cartazes do governo que prometem que certas partes do bairro serão poupadas. "Esses cartazes são inúteis", disse ele com raiva. "Eles vão derrubar tudo. Tudo isto desaparecerá".

Outro morador, vestido com um longo casaco de couro, se meteu na conversa, dizendo: "Tudo o que eles falam são palavras vazias", esbravejou. "Isto aqui não passa de um roubo. Eu não consigo comprar sequer uma barraca de lona com o dinheiro que eles nos dão".

Aqueles que ficaram na zona de Chongwen são, em sua maioria, moradores irredutíveis, furiosos com as baixas indenizações. Feng Shuqin, 76, e o seu marido, Zheng Zhanlin, 75, moraram na sua casa tradicional durante 50 anos. O pai de Zheng era dono da propriedade antes de os comunistas tomarem o poder em 1949, e a família ainda possui a escritura do imóvel.

A casa pode ser vista como um registro da história chinesa recente. Em 1958, ao enfrentar uma escassez de moradias, o governo ordenou que as residências privadas fossem abertas para outros indivíduos, e outras famílias se mudaram para lá. Em 1966, durante a Revolução Cultural, guardas vermelhos exigiram a escritura da família e obrigaram-na a pagar aluguel. Em 1984 o governo devolveu a escritura, mas continuou exigindo o pagamento de aluguel. Finalmente, neste ano o governo ordenou que eles se mudassem, e ofereceu-lhes o equivalente a US$ 175 mil. A família acredita que o terreno valha US$ 1,4 milhões.

Os Zheng e outros moradores observam que os valores das indenizações estão congelados nos patamares de 2001. Mas, em um período de cinco anos, os preços das propriedades dobraram ou triplicaram em certas áreas de Pequim. Após meses de resistência às ordens governamentais, a família Zheng finalmente se mudou em junho, porque os seus vizinhos haviam partido, e as companhias de demolição contratadas pelo governo passaram a assediá-la.

"Eles estão empurrando todos os antigos moradores de Pequim para além da Estrada do Quinto Anel", denuncia Feng Shuqin, a mulher de Zheng, referindo-se a uma das estradas que rodeia a cidade.

Preservadores do patrimônio histórico e intelectuais estão tentando salvar Qianmen da destruição completa. O bairro floresceu durante a dinastia Qing (1644-1911), quando era repleta de salões de ópera e hospedarias nas quais os acadêmicos das províncias se instalavam enquanto se preparavam para prestar concursos públicos.

No início deste ano, um grupo de intelectuais proeminentes enviou uma petição ao Congresso Popular Nacional, advertindo que a demolição de Qianmen seria mais devastadora para a herança cultural de Pequim do que a destruição da antiga muralha da cidade por Mao Tse-Tung. Eles também observaram que Qianmen deveria ser protegido. Ele é um dos 25 bairros assinalados pela prefeitura da cidade como alvos de preservação histórica.

Xie Chensheng, 85, um preservador do patrimônio histórico nacionalmente conhecido que assinou a petição, afirmou que as demolições se tornaram tão generalizadas na cidade que, em agosto de 2004, ele e outros intelectuais escreveram uma carta ao presidente Hu Jintao e ao primeiro-ministro Wen Jiabao, alertando sobre a destruição da antiga cidade.

Ele disse que Hu redigiu uma nota à margem da carta, que mais tarde foi distribuída às autoridades de escalão inferior. Segundo Xie, a nota dizia o seguinte: "Tomem cuidado para proteger a cidade velha e a nossa herança cultural. Todos os envolvidos devem dar o seu apoio".

Essa intervenção vinda de cima pareceu dar resultado. Xie afirma que desde então nenhum novo projeto foi aprovado, e os planejadores municipais revelaram um novo plano abrangente em 2005, incluindo uma ênfase na preservação histórica.

Mas Xie diz que o projeto de Qianmen prosseguiu, pelo fato de já ter sido aprovado. Autoridades locais informaram aos moradores que o projeto é necessário porque as suas casas são inseguras, um argumento refutado mais tarde por um estudo acadêmico.

Mike Meyer, um norte-americano que mora no bairro e que está escrevendo um livro sobre ele, disse que outras cidades internacionais, como Viena, conseguiram preservar as suas construções antigas. Segundo ele, Qianmen poderia ser também restaurado, quarteirão a quarteirão, mas, em vez disso, as autoridades preferiram demolir metodicamente o bairro.

"Ele estão destruindo tudo em estágios", denuncia Meyer. "A coisa prossegue como a crista de uma onda". Segundo ele, essa abordagem gradual fez com que muitos moradores de outros bairros da cidade desconhecessem a amplitude da demolição. Comparando o bairro à Nova York, Meyer acrescenta: "É como se em uma determinada amanhã você acordasse e Chelsea tivesse desaparecido". Danilo Fonseca

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