UOL Notícias Internacional
 

12/07/2006

Violência disseminada mata 50 em Bagdá

The New York Times
Kirk Semple*

em Bagdá, Iraque
Mais de 50 pessoas foram mortas em Bagdá na terça-feira, em violência que incluiu um duplo atentado a bomba suicida perto das movimentadas entradas da fortificada Zona Verde, tiroteios, ataques de morteiro, uma série de carros-bomba e uma emboscada a um ônibus que transportava xiitas que voltavam de um enterro.

As mortes de terça-feira, muitas delas aparentemente executadas como vingança sectária e que aumentaram o número de mortes em três dias para mais de 100 apenas na capital, ampliaram os duros desafios diante do novo governo e aprofundaram o senso de temor entre os iraquianos.

Muitos dos ataques, particularmente os ocorridos nos bairros habitados por uma maioria de um grupo religioso ou outro, traziam as marcas das milícias sectárias, tanto árabes sunitas quanto xiitas. As milícias agora parecem estar ditando os fluxos e refluxos da vida no Iraque, deixando o novo governo do primeiro-ministro Nouri Kamal al Maliki e de seus pares americanos lutando para encontrar uma estratégia política e militar para combatê-los.

Também na terça-feira, Wisam Jabir Abdullah, um diplomata iraquiano indicado para o Irã e que estava em férias em Bagdá, foi seqüestrado em sua casa por homens armados, disse um funcionário do Ministério do Interior.

A piora da segurança em Bagdá e em várias províncias vizinhas, que muitos iraquianos dizem parecer uma pequena guerra civil, levou os legisladores a convocarem na terça-feira os ministros do Interior e da Defesa para falarem ao Parlamento na quinta-feira, segundo Jalal Adin al Sagheer, um alto dirigente do maior bloco político xiita do país.

Durante o atual aumento da violência, Al Maliki tem se contido em seus comentários. Na segunda-feira, ele fez um apelo pela unidade nacional durante um discurso no Curdistão iraquiano, e durante uma coletiva de imprensa em Erbil, na terça-feira, ele descartou a idéia de que o país está mergulhando em uma guerra civil.

"Eu não vejo o país caindo em uma guerra civil, apesar das atividades lamentáveis de certas pessoas que ignoram que o Iraque está unido", disse o primeiro-ministro, segundo a agência de notícias "France Presse". "Os serviços de segurança ainda estão no controle da situação." Ele acrescentou: "Nós temos a capacidade, se necessário, de impor a ordem e reprimir aqueles que se rebelam contra o Estado".

Ele também divulgou uma breve declaração condenando o ataque aos xiitas que voltavam de um funeral. Os esforços para obtenção de comentários adicionais de seu gabinete, na terça-feira, foram malsucedidos.

Pelo menos oito pessoas foram mortas em ataques rebeldes fora da capital, incluindo a esposa de um governador provincial, que foi morta por uma bomba enquanto tratava de pacientes em sua clínica de ginecologia. Mas a violência de terça-feira se concentrou principalmente em Bagdá.

O maior bloco sunita do país disse que no interesse da promoção da calma, ele encerraria seu boicote de 10 dias ao Parlamento.

Os legisladores sunitas suspenderam sua participação em 2 de julho, após o seqüestro de uma colega, Tayseer Najah al Mashhadani. Muitos sunitas atribuíram a autoria do seqüestro ao Exército Mahdi, uma milícia leal ao clérigo Muqtada al Sadr. Mas Al Sadr e seus assessores negaram qualquer envolvimento.

Alaa Makki, um líder sunita, disse em uma entrevista por telefone que a
decisão do bloco de voltar a participar foi influenciada por Al Sadr, que no domingo emitiu um apelo pela harmonia e a convocação de uma sessão especial do Parlamento para discussão do derramamento de sangue sectário.

A concessão, e a esperança de uma ampla colaboração política, ocorre no
momento em que muitos iraquianos estão caindo no desespero.

"Eu acho que a violência no Iraque nunca parará", disse Rasha Adnan, 26
anos, um administrador desempregado em Bagdá, em uma entrevista por telefone na noite de terça-feira, manifestando o mesmo sentimento de muitos outros moradores nos últimos dias. "Ela só crescerá."

O aumento repentino da violência teve início na manhã de domingo, quando um grupo de homens armados xiitas apareceu nas ruas de um bairro
predominantemente sunita, no oeste de Bagdá, e começou a matar pessoas. Este vigilantismo pareceu ser uma resposta ao atentado a bomba contra uma mesquita xiita, um dia antes, e assustou os iraquianos mesmo em meio ao atual clima de violência incessante. Ele foi seguido pelo que pareceu ser ataques em retribuição com carro-bomba contra outra mesquita xiita, no domingo.

As estimativas do número de mortes em Bagdá, no domingo, variavam de no
mínimo 30 para mais do que o dobro deste número. E pelo menos 30 morreram em violência na segunda-feira, disseram as autoridades.

No ataque mais mortal da terça-feira, dois pedestres usando coletes com
explosivos explodiram a si mesmos perto de um restaurante do lado de fora do muro da Zona Verde, a poucas centenas de metros das três entradas movimentadas, disseram autoridades iraquianas e americanas. Logo após as explosões iniciais, uma bomba escondida foi detonada perto dali, aumentando a carnificina, disseram oficiais americanos. Algumas autoridades iraquianas disseram que a terceira explosão foi causada por um carro-bomba.

Pelo menos 15 civis e um policial iraquiano morreram nas explosões, e quatro pessoas ficaram feridas, segundo o comando militar americano.

Em uma mensagem postada na Internet, dois grupos rebeldes proeminentes
reivindicaram a responsabilidade pelos ataques.

O Conselho Shura Mujahideen no Iraque disse que esteve por trás dos dois atentados suicidas, segundo o Instituto SITE, que monitora as mensagens jihadistas postadas na Internet. O Exército Islâmico no Iraque alegou, em uma mensagem diferente, que era responsável pela terceira explosão, que ele disse ter sido de um carro-bomba, segundo uma tradução fornecida pelo SITE.

As reivindicações paralelas aumentaram a possibilidade de um ataque
coordenado entre os dois grupos, apesar de não terem um retrospecto de
trabalharem juntos e, além disso, serem considerados rivais. O Conselho
Shura Mujahideen é um grupo radical jihadista associado à Al Qaeda, enquanto o Exército Islâmico no Iraque é liderado por ex-membros do Partido Baath, que são considerados mais seculares e não possuem retrospecto de ataques suicidas, segundo Rita Katz, diretora do Instituto SITE.

O Exército Islâmico disse que atacou em vingança ao estupro e morte de uma menina iraquiana em Mahmoudiya, um crime pelo qual cinco soldados americanos foram acusados e um sexto, um soldado americano recentemente expulso das forças armadas, foi preso.

Segundo o SITE, este ataque parece ser a primeira operação suicida do
Exército Islâmico.

Na área predominantemente sunita de Dawra, um bairro no sul de Bagdá, homens armados emboscaram um ônibus que trazia xiitas da cidade sagrada de Najaj, onde tinham enterrado um parente, disseram funcionários do governo e familiares. Os homens tiraram 10 pessoas do ônibus e as mataram, segundo um funcionário do Ministério do Interior que pediu anonimato, porque não estava autorizado a falar a respeito.

Uma hora antes, em Taji, no norte de Bagdá, homens armados emboscaram outro ônibus, matando uma pessoa e ferindo cinco, disse o funcionário do ministério. Não se sabe se os dois ataques a ônibus estavam relacionados.

Duas granadas de morteiro atingiram uma mesquita em Dawra, matando nove e ferindo 11 civis, disse o funcionário do Ministério do Interior.

Em mais violência, uma família de cinco -pai, mãe, sua filha adulta e dois filhos adolescentes- foram encontrada decapitada em um setor
predominantemente sunita de Dawra, segundo um funcionário do Hospital
Yarmouk, o principal centro médico no oeste de Bagdá.

A polícia e funcionários do hospital também informaram que quatro
carros-bomba em Bagdá mataram pelo menos sete pessoas e feriram no mínimo 18.

Homens armados atacaram os escritórios de uma empresa no bairro de classe média-alta de Mansour, matando três funcionários e ferindo três, disseram os funcionários.

Segundo um diretor do Hospital Yarmouk, cinco corpos foram descoberto na manhã de terça-feira em Jihad, um bairro onde dezenas de pessoas já foram mortas por homens armados no domingo. Não se sabe quando as vítimas foram mortas.

A violência também causou mortes fora de Bagdá.

Em Tikrit, a cidade natal de Saddam Hussein, a esposa do governador da
província de Salahuddin foi morta por uma bomba-relógio que detonou quando ela estava tratando pacientes, segundo a "Agence France-Presse", citando a polícia local. A esposa do governador, Ameera al Rubaie, uma ginecologista, morreu e quatro de suas pacientes ficaram feridas, disse a polícia, segundo a agência de notícias.

Em Baquba, no norte de Bagdá, o prefeito do distrito de Um Al Nawa foi
assassinado por homens armados, disse o funcionário do ministério. Na cidade sagrada xiita de Karbala, tiros seguidos de fuga mataram dois trabalhadores no mercado central, segundo o funcionário do Ministério do Interior.

Um engenheiro e seu guarda-costas foram assassinados a caminho do trabalho, em Kirkuk, na manhã de terça-feira, segundo o coronel Adel Zain Alabdin da polícia iraquiana. Um carro-bomba matou dois e feriu quatro em Mosul, disse a polícia.

Wijdan Michael, o ministro dos Direitos Humanos do Iraque, disse em uma
entrevista por telefone que uma comissão do governo foi formada para estudar a possibilidade de anular uma lei que concede imunidade aos soldados americanos de serem processados no Iraque.

O primeiro-ministro disse na semana passada que estava considerando a
abolição da lei diante das revelações de que militares americanos estavam sob investigação por várias mortes recentes de iraquianos desarmados.

No julgamento de Saddam Hussein, os juízes ouviram os argumentos de
encerramento de dois réus, Abdullah Kadhum Ruweed e seus filho, Mizher
Abdullah Ruweed, dois dirigentes locais do Partido Baath de Dujail, uma
aldeia predominantemente xiita. Hussein e sete co-réus são acusados de
torturar e executar 148 homens e meninos na aldeia em 1982, após uma
tentativa fracassada de assassinato contra ele.

O juiz-chefe adiou o julgamento até 24 de julho para resolver o boicote dos advogados que representam Saddam e três outros co-réus, que não compareceram ao tribunal.

Um alto funcionário do Alto Tribunal Iraquiano anunciou na terça-feira que o juiz Jamal Mustafa, o presidente do tribunal, morreu na terça-feira em um hospital em Amman.

*Qais Mizher, Hosham Hussein e um funcionário iraquiano do "New York Times", em Bagdá, funcionários iraquianos do "Times" em Kirkuk e Mosul, e Razzaq al Saiedi, em Nova York, contribuíram com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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