UOL Notícias Internacional
 

14/07/2006

Bush inicia curso avançado sobre os modos de Putin

The New York Times
Thom Shanker e Jim Rutenberg*

em Washington
Pouco antes do Natal, a Casa Branca recebeu uma notícia estranha e inconveniente vinda de Moscou.

Uma companhia de petróleo russa estava cortejando um dos maiores amigos do presidente Bush, o ex-secretário do Comércio, Donald L. Evans, para ser seu presidente. Ainda mais surpreendente foi o fato do presidente Vladimir V. Putin ter feito pessoalmente a oferta de trabalho.

Bush foi descrito como tendo ficado pasmo, enquanto outros membros da Casa Branca ficaram perturbados. A oferta, que ocorreu enquanto o governo estava cada vez mais se manifestando abertamente contra a consolidação do poder do Estado por Putin e sua tendência de usar as reservas de energia como instrumento de política internacional, parecia uma tentativa desajeitada de obter as graças da Casa Branca. Um alto funcionário do governo disse que Putin avisou Bush antecipadamente sobre a oferta, que foi recusada.

"Eu acho que você poderia interpretar a oferta dele a Don Evans, por um
lado, como um sinal de desrespeito -'Eu posso comprar seu melhor amigo'", disse Andrew C. Kuchins, um associado sênior do Fundo Carnegie para a Paz Internacional. Mas, disse Kuchins, por outro lado também poderia ser uma "forma de Putin, à sua própria maneira estranha, buscar uma aproximação e enviar um sinal positivo, e como acontece freqüentemente com os russos, eles enviam sinais de formas estranhas, com mão pesada".

Um alto funcionário do governo, familiarizado com os detalhes das conversas, disse na quinta-feira: "Não é que não tenhamos recebido bem -eu acho que Putin estava bem intencionado. Ele queria um empresário crível do Ocidente que desse credencial à empresa -uma espécie de atalho para as reformas reais que precisam adotar".

Esta foi uma das muitas lições no aprendizado contínuo de Bush sobre os
modos de Putin, e conseqüentemente, os modos da Rússia moderna.

Tal aprendizado será testado neste fim de semana.

Na sexta-feira, Bush chegará aos longos dias de verão de São Petersburgo para se encontrar novamente com seu par russo, mas desta vez Bush levará uma visão mais cautelosa de Putin, um ex-diretor da KGB que está agindo de forma assertiva no cenário global.

Espera-se que Bush diga a Putin que ele deseja ver o sucesso da Rússia, mas que também acredita que seria de seu melhor interesse se isto fosse obtido apenas com a promoção de reformas democráticas. A mensagem inclui a promessa de recompensas, incluindo uma integração mais profunda com a comunidade mundial, com o apoio de Washington.

Os dois presidentes enfrentam uma agenda intimidadora, buscando um acordo em relação às ambições nucleares da Coréia do Norte e do Irã, em relação ao conflito no Oriente Médio, assim como energia e livre comércio.

Enquanto Putin faz o papel de anfitrião para os líderes do Grupo dos 8
países industrializados mais poderoso na cidade fundada por Pedro, o Grande, para ser a "janela para o Ocidente" da Rússia, as relações entre Moscou e Washington têm esfriado.

Os presidentes Bush e Putin se encontraram pela primeira vez há cinco anos, na Eslovênia. Bush abraçou o líder russo com uma surpreendente declaração de apoio, até mesmo empatia.

"Eu olhei o homem nos olhos", disse Bush, e "fui capaz de sentir sua alma".

Mas como colocou Stephen Sestanovich, um membro sênior do Conselho de
Relações Exteriores, "é sempre um negócio arriscado se colocar em uma
posição de validar as qualidades da alma de um ex-agente da KGB".

Apesar de alguns funcionários que cercam Bush agora dizerem que tal
declaração "é muito lamentada", outros assessores a consideram uma avaliação realista de que Putin é um russo patriota do qual pode-se esperar que cuide dos interesses russos. Independente dele ser ou não um homem com o qual os Estados Unidos podem negociar, disseram os assessores da Casa Branca, Bush percebeu que ele era o homem com o qual os Estados Unidos teriam que negociar.

Apesar desta continuar sendo a meta do presidente, as políticas do governo endureceram à medida que Putin continua a consolidar o poder do Estado em uma única instituição política -a presidência- com a exclusão de um judiciário, legislativo e imprensa independentes. E além das fronteiras da Rússia, ele continua a intimidar os Estados democráticos que buscaram se afastar pelo voto do domínio de Moscou.

A secretária de Estado, Condoleezza Rice, uma especialista em Rússia que foi influente na elaboração da política do governo e no próprio pensamento do presidente sobre o país, disse que é uma realidade as relações de grandes potências "não serem lineares".

"Eles sempre têm elementos bons e elementos de dificuldade, porque são
relacionamentos grandes, complexos", disse Rice em uma entrevista na
terça-feira, antes de sua partida para São Petersburgo. "A Rússia tem seus próprios interesses. E a Rússia buscará estes interesses."

Ela disse que Bush "tinha a visão na época da campanha de que há poucos
relacionamentos que seriam importantes para a capacidade de fazer as coisas acontecerem no mundo, e a Rússia é claramente um destes relacionamentos".

O governo Bush ainda se agarra inabalavelmente "à visão principal, à meta principal, de que a Rússia e os Estados Unidos podem ser parceiros", disse Rice. Mas qualquer aprofundamento desta parceria, ela alertou, exigirá que a "transição interna da Rússia se mova em uma direção mais democrática".

Nos últimos meses, a política americana adotou uma linha mais dura em
relação à Rússia, como ficou exemplificado quando o vice-presidente Dick Cheney viajou para ex-república soviética da Lituânia, em maio, onde criticou a falta de compromisso de Moscou com a democracia.

A resposta foi gelada e centrada nas acusações de que o governo Bush tem dois pesos e duas medidas, subordinando sua defesa da democracia no mundo sempre que necessário à batalha contra o terrorismo ou ao interesse por energia.

As autoridades russas perguntam como os Estados Unidos ousam criticar Putin enquanto Washington apóia outros líderes na região -no Azerbaijão e Cazaquistão, por exemplo- que estão situados em encruzilhadas políticas ou possuem reservas de petróleo, mas recebem notas desfavoráveis de monitores eleitorais e grupos de direitos humanos.

"Dentro do governo, parece que esta nova Rússia autoconfiante, com sua
receita do petróleo, está agindo de formas contrárias aos interesses
americanos", disse Angela E. Stent, que serviu como diretora de inteligência nacional para Rússia e Eurásia no Conselho Nacional de Inteligência. "Uma parceria seletiva ainda é a melhor forma para descrever o relacionamento entre Estados Unidos e Rússia."

Assessores disseram que os laços pessoais entre Bush e Putin ainda podem conduzir os países de volta a um terreno mais amistoso.

Bush conta ocasionalmente uma história sobre seu relacionamento com Putin, ilustrando tanto a bonomia quanto a rivalidade entre eles.

Quando Bush visitou a dacha (casa de campo) do presidente russo nos
arredores de Moscou, o labrador de Putin veio recebê-los. Comparando seu cão ao muito menor terrier escocês de Bush, Putin se virou para Bush e disse: "Maior, mais durão, mais forte, mais rápido e mais feroz do que Barney", o cão de Bush. Os assessores de Bush disseram que interpretam a história como um exemplo de uma amizade estreita fortalecida por um pouco de provocação. Esta provocação também transmite um senso de autoconfiança casado com dúvida que remonta os tempos do czarismo.

A secretária Rice enfatizou que Bush entende que a Rússia é um investimento político e, portanto, exige paciência. O esforço para integrar a Rússia às instituições ocidentais, ela acrescentou, "será uma enorme vitória para a paz e segurança internacionais".

*Reportagem de Thom Shanker, em Washington, e Jim Rutenberg, em Rostok,
Alemanha George El Khouri Andolfato

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