UOL Notícias Internacional
 

14/07/2006

Candidato presidencial mexicano diz que vitória lhe foi roubada

The New York Times
Ginger Thompson e James C. McKinley Jr.

na Cidade do México
Para o olho destreinado, as cenas registradas em vídeo certamente pareciam os velhos tempos do México em que votos eram roubados em vez de conquistados. Havia um homem dentro de um local de votação colocando um voto atrás do outro dentro de uma urna.

Andrés Manuel López Obrador, o controverso candidato esquerdista à presidência, mostrou o vídeo para uma multidão de repórteres na manhã de segunda-feira e a chamou de prova de que funcionários eleitorais participaram de uma conspiração de fraude, que lhe roubou a vitória e a deu ao seu adversário conservador, Felipe Calderón.

Naquela noite, o Instituto Federal Eleitoral, ou IFE, e a própria representante de López Obrador no local de votação disseram que López Obrador se equivocou em relação ao vídeo. A gravação, eles disseram, mostrava o funcionário eleitoral colocando votos depositados em lugar errado onde deviam, um procedimento comum que é perfeitamente legal.

Mas a dúvida já tinha sido plantada. López Obrador apostou seu futuro político de que não precisará de muito para fazer tal dúvida crescer e se transformar em um pedido nacional para recontagem, em um país onde fraudes eleitorais já foram uma espécie de passatempo nacional. Seus oponentes no campo de Calderón estão apostando que as pessoas verão as coisas da forma que são: que o único que está jogando sujo atualmente é López Obrador.

Em uma entrevista na quinta-feira, Calderón, que as autoridades eleitorais disseram que obteve a vitória por uma margem de 0,6% dos votos, disse que López Obrador não manteve sua promessa durante a campanha de aceitar os resultados eleitorais, vencesse ou perdesse.

"Me parece que a coisa responsável a se fazer é respeitar as autoridades", disse Calderón, que ainda precisa ser anunciado formalmente como vencedor, "e não aumentar a tensão política".

"Eu não quero lançar um ataque pessoal contra ele", acrescentou Calderón. "O que eu acho é que o México tem um sistema democrático sólido, instituições críveis, como o instituto eleitoral e o tribunal eleitoral, e não é certo serem desacreditados, especialmente sem prova."

Nos 11 dias que se seguiram à eleição mais disputada na história mexicana, López Obrador tem tentado desacreditar tais instituições e a eleição em duas frentes. No último fim de semana, ele impetrou uma longa queixa -incluindo nove caixas de documentos e gravações- junto ao Tribunal Federal Eleitoral, alegando irregularidades em mais de 52 mil locais de votação e pedindo por uma recontagem.

Ao mesmo tempo, ele deu início a uma campanha pública para colocar a eleição em dúvida, alimentando a imprensa com doses diárias de escândalo em fitas de vídeo e no que descreveu como gravações secretas e formulários de apuração com números incorretos.

No sábado na Zocalo, uma praça histórica do México, um López Obrador confiante regalou uma multidão de cerca de 150 mil simpatizantes com uma gravação de uma conversa que o candidato disse que provava o conluio de partidos políticos rivais.

Depois disso ele realizou a coletiva de imprensa de segunda-feira, na qual apresentou o vídeo já refutado que ele disse que provava que funcionários eleitorais inflaram o número de votos de seu rival. Ele exibiu outro vídeo na terça-feira no qual mostrou autoridades eleitorais manipulando ilegalmente as urnas. E, na quarta-feira, ele apresentou outro vídeo que ele descreveu como funcionários eleitorais aumentando os números de Calderón nas planilhas de apuração.

Apesar das gravações serem provocantes, especialistas disseram que elas dificilmente apóiam a acusação de López Obrador de violações sistemáticas e seu pedido de recontagem voto a voto, e muitos analistas estão concluindo que a campanha apresenta mais fumaça que fogo.

O Instituto Federal Eleitoral está reagindo com uma campanha própria, incluindo anúncios de utilidade pública e propagandas de página inteira nos principais jornais do México. Em uma recente coletiva de imprensa, Hugo Concha, um porta-voz do IFE, disse que não há evidência de fraude em quaisquer dos vídeos.

Ele também disse que não foram gravados em segredo. Câmeras foram autorizadas nos distritos eleitorais durante a apuração oficial, disse Concha. E ele disse que os vídeos exibidos por López Obrador mostram atividades legais, normais.

"Em outras palavras", disse Concha sobre López Obrador, "ele está usando indevidamente a informação".

Esta parece ser a forma com que Juliana Barrón Vallejo vê as coisas. Ele é uma ex-operária de fábrica do Estado de Guanajuato e que representou a campanha de López Obrador no local de votação onde foi gravado o vídeo mostrado na segunda-feira.

"Não houve fraude", ela disse em uma entrevista por telefone. "Tudo foi
limpo." E se referindo a López Obrador, ela disse: "Eu acho que ele está com raiva porque perdeu, então fica inventando coisas".

Comentários como estes de Barrón, que também foram publicados aqui no jornal "Reforma", atormentam a campanha de López Obrador. Mas a resposta de Obrador agitou a confiança de seus simpatizantes ainda mais, ao se recusar a aceitar o argumento de que o vídeo era normal e deixando implícito que sua própria fiscal de campanha foi corrompida.

"Eu não posso dizer que todos meus representantes agiram honestamente",
disse López Obrador em uma coletiva de imprensa na terça-feira. "Há muito dinheiro correndo por aí. Infelizmente, algumas pessoas estão dispostas a vender sua dignidade."

Quanto ao Instituto Federal Eleitoral, López Obrador disse: "O IFE está
tentando encobrir um embaraço que está virando notícia em todo o mundo. O que estamos mostrando é que nesta eleição nós não progredimos. Nós
regredimos".

Alguns, incluindo o estudioso esquerdista Roger Bartra, disse que López
Obrador não apenas está manchando sua imagem, mas também está colocando o México em um caminho perigoso.

Outros analistas políticos, como Jorge Montano, dizem que López Obrador está explorando a grande falta de confiança que a maioria dos mexicanos sente em relação às suas instituições, mudando o debate de um sobre quem venceu a eleição para um sobre a recontagem dos votos.

"A confiança pública caiu tanto", disse Montano, "que é quase inevitável que haverá algum tipo de verificação da vitória eleitoral de Felipe Calderón".

As aparições de López Obrador em coletivas de imprensa e na televisão nesta semana indicam que o ex-prefeito populista da Cidade do México está preparado para uma longa luta.

Isto ficou claro no debate acalorado entre López Obrador e o principal
âncora de noticiário do México, Joaquín López-Dóriga, na noite de
terça-feira:

López-Dóriga: Onde isto vai acabar, Andrés Manuel? Até onde você levará
isto?

López Obrador: Até o povo.

López-Dóriga: E quão longe é isto?

López Obrador: Até onde o povo quiser e decida.

López-Dóriga: Mas é você que está conduzindo o processo.

López Obrador: Sim, mas nós o conduziremos democraticamente.

Os assessores de Calderón argumentam que o que López Obrador realmente quer não é uma recontagem, mas sim usar a recontagem como um primeiro passo para anular a eleição. A análise deles reflete a das autoridades eleitorais, que dizem que é improvável que a recontagem mude os resultados porque ambos os candidatos provavelmente ganharão e perderão votos em proporções semelhantes.

Mas qualquer ampla recontagem, disseram assessores de Calderón, revelará erros humanos e, talvez, casos isolados, mas não sistemáticos, de fraude, que poderiam ser usados para contestar os resultados.

"A tática pode ser uma recontagem, mas a meta é a anulação", disse Arturo Sarukhan, um assessor de Calderón.

Bartra, o estudioso, concordou.

"O caminho que López Obrador está seguindo é o mesmo que o levou a fracassar nas urnas, e agora sua estratégia visa anular a eleição", ele disse. "Ele não gosta das regras do jogo e está tentando mudá-las."

"Eu acho que ele fará uma forte tentativa para criar uma crise na qual o governo não poderá funcionar, de forma que a Justiça anulará a eleição. E se ela anular a eleição, então haverá um tipo diferente de crise."

"De qualquer forma", ele disse, "a perspectiva é ruim".

López Obrador, 53 anos, tem negado repetidamente que deseja uma nova
eleição. Ele venceu a última, ele disse, acrescentando: "Eu estou mais e mais convencido disto".

Por sua vez, Calderón tem se mantido firme, defendendo sua aparente vitória, planejando uma turnê pelo país, enviando assessores para reduzir a ansiedade no exterior, nomeando pessoas para uma equipe de transição e minimizando as manifestações a favor de López Obrador.

"Eleições são vencidas nas urnas", disse Calderón, "não nas ruas". George El Khouri Andolfato

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