UOL Notícias Internacional
 

14/07/2006

Israel impõe bloqueio ao Líbano e violência aumenta na região

The New York Times
Hassan M. Fattah e Steven Erlanger

em Beirute
Israel impôs um bloqueio naval total ao Líbano na quinta-feira (13/07) e deixou o aeroporto internacional de Beirute sem condições de operar, e o grupo militante Hezbollah disparou uma saraivada de foguetes e morteiros que matou dois israelenses e fez com que milhares de outros se escondessem em abrigos contra bombas.

Um dia após os ataques além da fronteira desfechados por combatentes do Hezbollah terem provocado a invasão do Líbano por tropas israelenses pela primeira vez em seis anos, aviões de Israel adentraram profundamente o espaço aéreo libanês e realizaram ataques punitivos, atingindo todas as três pistas do Aeroporto Internacional Rafik Hariri, duas bases do exército libanês, a estação de televisão Al Manar, do Hezbollah, e, no início da sexta-feira, a principal rodovia que liga Beirute a Damasco, na Síria.

O governo libanês anunciou que 53 libaneses morreram desde a última quarta-feira, incluindo uma família de dez pessoas, e uma outra de sete, na vila de Dweir, no sul do país. Segundo as autoridades libanesas, os ataques israelenses deixaram mais de 103 pessoas feridas.

Os libaneses armazenaram alimentos enlatados e pilhas, e as filas nos postos de gasolina se estenderam por quarteirões. Os supermercados e as padarias ficaram superlotados. Segundo muitos moradores, a sensação que se tinha era de que a guerra civil que terminou 15 anos atrás havia recomeçado.

Israel acusou o governo libanês de ser responsável pelas ações do Hezbollah, que integra a coalizão governamental, e disse que o ataque que resultou na captura de dois soldados israelenses na última quarta-feira foi um ato de guerra imotivado por parte de um Estado vizinho. Autoridades israelenses graduadas disseram que as forças-armadas foram liberadas para isolar o Líbano, empurrar as forças do Hezbollah permanentemente para longe da fronteira e punir o governo libanês por não ter obedecido a uma determinação da Organização das Nações Unidas (ONU) no sentido de desarmar e controlar o grupo extremista.

O chefe do Estado-Maior de Israel, general Dan Halutz, advertiu que "nada é seguro" no Líbano, e que a própria cidade de Beirute, e especialmente os escritórios e bastiões do Hezbollah no sul da capital libanesa, seriam alvos dos ataques israelenses.

O Hezbollah disparou mais de 120 foguetes Katyusha e morteiros contra Israel na quinta-feira, segundo as autoridades israelenses. O ataque matou uma mulher, que estava na sua varanda, em Nahariya, e um homem em Safed, além de ter provocado ferimentos em mais de cem outros israelenses em cerca de 20 cidades e vilas, incluindo Haifa, Safed e Carmiel. O Hezbollah anunciou que está utilizando um novo foguete, o "Trovão 1", mais avançado do que o Katyusha comum, que não conta com um raio de ação suficiente para cobrir os cerca de 50 quilômetros que separam Haifa da fronteira.

Milhares de israelenses que vivem no norte do país passaram a noite em abrigos contra bombas, enquanto o Hezbollah fazia ameaças, afirmando que os ataques israelenses no sul de Beirute seriam respondidos por ataques com foguetes contra Haifa, uma cidade portuária de 250 mil habitantes. Na noite de quinta-feira, dois foguetes caíram próximos à igreja Stella Maris, em Haifa.

A rápida eclosão dos combates em uma segunda frente, duas semanas após Israel ter invadido a Faixa de Gaza para tentar fazer com que um outro soldado fosse libertado, alarmou os governos árabes e ocidentais, e causou a elevação do preço do petróleo.

Na quinta-feira a União Européia criticou Israel "pelo uso desproporcional de força" no Líbano "em resposta aos ataques do Hezbollah", segundo uma declaração divulgada pela atual presidência finlandesa da união. De acordo com o comunicado da União Européia, "a imposição de um bloqueio aéreo e naval ao Líbano não pode ser justificada".

As forças armadas israelenses informaram que bombardearam o aeroporto porque ele "é um eixo central para a transferência de armas e suprimentos para a organização terrorista Hezbollah".

O presidente Bush, ao tecer comentários na Alemanha, disse: "Israel tem o direito de se defender". Mas ele também pediu que o Estado judeu tenha cuidado, advertindo Israel para que não enfraqueça o governo do Líbano.

"Existe um grupo de terroristas que deseja deter o avanço da paz", disse Bush. "Os soldados capturados precisam ser devolvidos".

O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, advertiu que a ofensiva de Israel contra o Líbano "está aumentando os nossos temores quanto a uma nova guerra regional", e pediu às potências mundiais que intervenham.

O governo libanês, que afirmou não ter nada a ver com o ataque perpetrado pelo Hezbollah, pediu um cessar-fogo, afirmando que todos os meios devem ser usados para acabar com a "agressão ostensiva" contra o seu país.

Mas as autoridades israelenses disseram que haverá uma longa campanha para restaurar a segurança em Israel, tanto ao longo da sua fronteira sul com a Faixa de Gaza, quanto na fronteira norte com o Líbano. Os israelenses querem restaurar a sua credibilidade militar junto aos militantes palestinos, ao governo do Hamas na Faixa de Gaza e ao Hezbollah, e disseram que pretendem tornar a atual campanha dolorosa para ambos os antagonistas.

Nem o primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, nem o ministro da Defesa, Amir Peretz, possuem aquela longa experiência militar que os seus antecessores detinham, e os dois só estão no poder há alguns meses. Alguns comentarista israelenses argumentam que isso tornou ainda mais necessária uma resposta militar decidida.

Os israelenses dizem desejar que a mensagem chegue à Síria e ao Irã, os países que são considerados os principais patrocinadores do Hezbollah e da militância palestina.

Peretz afirmou que Israel não permitirá mais que as forças do Hezbollah ocupem posições ao longo da fronteira. "Se o governo do Líbano se mostra incapaz de controlar as suas forças, conforme se espera de um governo soberano, nós não devemos permitir que as forças do Hezbollah permaneçam por mais tempo nas fronteiras do Estado de Israel", declarou Peretz.

Mas poucas autoridades israelenses esperam que o governo libanês, que é altamente influenciado pela Síria, tenha a vontade ou o poder para retirar o Hezbollah do sul do país.

Gideon Meir, uma autoridade graduada do Ministério das Relações Exteriores israelense, disse aos repórteres na quinta-feira que Israel conta com "evidências concretas de que o Hezbollah planeja transferir os soldados seqüestrados para o Irã", mas não divulgou nenhuma informação ou fonte específica que conferisse substância à alegação. "Como resultado disso, Israel vê o Hamas, o Hezbollah, a Síria e o Irã como os principais agentes do eixo de terror e ódio que ameaça não só Israel, mas todo o mundo".

Os temores israelenses de que os soldados possam ser removidos do Líbano são o motivo principal para o bloqueio do país e a interrupção do seu tráfego aéreo, acrescentou mais tarde Meir.

Israel solicitou à comunidade internacional que pressione o Líbano para que este cumpra as resoluções da ONU no sentido de desmantelar militarmente o Hezbollah e enviar o exército libanês ao sul do país para assumir o controle sobre a fronteira com Israel.

Israel identificou os dois soldados capturados na quarta-feira como Ehud Godwasser, 31, de Nahariya, e Eldad Regev, 26, de Kiryat Motzkin. O cabo Gilad Shalit, 19, foi capturado por militantes palestinos durante uma operação a partir da Faixa de Gaza contra Israel em 25 de junho. O fato desencadeou uma série crescente de ataques e retaliações.

O ataque israelense ao aeroporto de Beirute - o primeiro ataque do gênero realizado por Israel desde 1982 - abriu crateras em todas as três pistas, mas não atingiu o terminal principal. Mais tarde, aviões israelenses atacaram os reservatórios de combustível do aeroporto, incendiando pelo menos um dos tanques, e enchendo o céu noturno de labaredas.

Os ataques israelenses ocorrem no pico da estação turística, e viajantes que passeiam por todo o Oriente Médio ficaram sem ter como partir. Até mesmo o ministro libanês das Relações Exteriores, Fawzi Salloukh, precisou retornar para casa por terra, a partir da Síria, de uma viagem que fazia à Armênia. A Síria abriu as suas fronteiras aos turistas que não têm como sair pelo Líbano, muitos dos quais se dirigiram rapidamente aos postos de fronteira antes que os bombardeios israelenses interrompessem a passagem pela principal rodovia.

Em Beirute, os moradores se preparavam para uma longa campanha. "Nós já passamos por isto muitas vezes", disse Rania al-Faris, que estava com as três irmãs e a mãe, carregando as suas bagagens, enquanto aguardava o próximo ônibus para o Vale Beqaa. Elas levavam cobertores, mantimentos extras e livros, e estavam prontas para deixar a cidade por algum tempo. "As estradas estão fechadas, e é impossível comprar alimentos e outros suprimentos. É muito mais seguro no campo. Era isso o que costumávamos fazer durante a guerra".

Por volta do meio-dia, o pânico na cidade aumentou quando aviões israelenses lançaram panfletos sobre os subúrbios do sul, controlados pelo Hezbollah, advertindo os moradores que evacuassem a área antes de um ataque iminente. Várias famílias fizeram as malas e partiram para o interior do país, onde a possibilidade de que sejam atingidas é menor.

"As pessoas estão tentando sair daqui da forma que podem", disse Muhammad Assif, que acompanhou a sua mãe até as montanhas. Assif afirmou que um dos seus primos foi morto em um dos bombardeios no sul do país, na noite de quarta-feira, e que a família decidiu coletivamente buscar segurança em outra área.

"O Hezbollah está concentrado aqui, portanto este será o local que eles atacarão", afirmou. "Eles atingiram Al Manar, perto da nossa casa, e quem sabe o que farão depois disso".

Multidões de turistas, em sua maioria oriundos de países árabes, fizeram as suas malas e se concentraram nos saguões dos hotéis, desesperados para encontrar uma saída. Mas com o país bloqueado por mar e ar, a única saída é pela fronteira terrestre com a Síria, que por volta do meio dia estava cheia de gente por um extensão de vários quilômetros.

Milhares de viajantes buscaram refúgio da Embaixada da Arábia Saudita, no bairro Ras Beirut, até que foi preparada uma caravana de ônibus para levá-los ao aeroporto de Damasco.

"As pessoas estão realmente abaladas", disse Rifaa al-Otaibi, um funcionário da embaixada. "Dá para enxergar isto nos seus olhos. Quando o aeroporto foi atingido, muitos acharam que aquela foi a gota d'água". Danilo Fonseca

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