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14/07/2006

No Texas, armas de fogo são paixão popular

The New York Times
Ralph Blumenthal
Os ruídos das armas curtas sendo engatilhadas ecoavam pelo Estande de Tiros Shooting Range, em Cypress, no Texas, enquanto Jim Pruett preparava uma barreira de alvos, todos eles com o formato de figuras humanas, apoiando-a contra um monte de terra.

"A linha de tiro está pronta?", gritou Pruett, um afável vendedor de armas e munições, pausando para admirar os cartuchos de latão vazios, que emitiam um brilho dourado à luz do sol poente. "Alguém se esqueceu de que lado da arma a bala sai?".

Momentos depois, atirávamos com vontade, tentando derrubar um atacante imaginário a apenas três metros de nós.

Esse foi o exercício final de um curso que durou o dia inteiro, e cujo objetivo é proporcionar a aquisição de um cobiçado certificado do Texas - a licença para portar uma arma curta de forma não ostensiva. "No Texas, nós não portamos armas porque precisamos, e sim porque temos permissão para isso", disse-me Pruett mais tarde.

Não há forma de afirmar com precisão quantos texanos andam de fato armados, mas, segundo as estimativas do Departamento de Segurança Pública, 247.345 homens e mulheres, mais de 1% da população do Estado, tem permissão legal para portar uma arma de fogo, com a condição de que ela esteja realmente oculta, e que não seja usada de forma mal-intencionada.

A maioria dos Estados - 36, incluindo o Texas - exige que as autoridades concedam um porte de armas para qualquer pessoa que atenda aos requisitos para a obtenção de um certificado e que não esteja impedida por lei, como no caso de indivíduos condenados por crimes. Dois outros Estados, Vermont e Alasca, não exigem um porte oficial para que os moradores andem com armas curtas ocultas. E em dez Estados, incluindo Nova York, os interessados devem demonstrar que têm uma necessidade especial de portar armas. Dois Estados - Wisconsin e Illinois - proíbem completamente o porte de armas. As leis municipais também variam.

Os norte-americanos possuem cerca de 220 milhões de armas de fogo, e acredita-se que a metade dos lares do país seja armada.

"Vocês não serão vítimas do caos", prometeu mais cedo Pruett à turma de 50 alunos - uma amostra da sociedade texana que se reuniu para tomar café com doughnuts, além de bolinhos tchecos recheados chamados kolaches, pouco depois do amanhecer de domingo, em uma sala de aula improvisada no shopping center de um subúrbio da zona noroeste de Houston. "Vocês serão a solução para o caos".

Eu não sabia disso. Vários meses antes, decidi aprender a aprender a atirar, não devido a algum complexo de justiceiro, ou a uma ilusão de que os Texas Rangers pudessem agora se aposentar porque eu estava pronto para fazer o serviço deles. Explicando de forma bem simples, sem nenhuma declaração política favorável ou contrária ao controle de armamentos - no Texas há um ditado segundo o qual controle de armamento significa empunhar a arma com as duas mãos - ou qualquer desejo de atirar em animais indefesos: o que eu queria era aprender a manejar uma arma e descobrir o que é necessário para obter o porte oficial.

No final deste processo, e para minha surpresa, aprendi mais do que simplesmente atirar. Eu aprendi a não atirar.

O meu treinamento começou no Top Gun, um centro de treinamento em Houston, no qual comecei com a popular Glock 19, a simples pistola semi-automática de calibre 9 milímetros que é adotada por vários departamentos de polícia.

A orientação era nitidamente defensiva. "Não estamos procurando matar ninguém, apenas deter um atacante", explicou o meu instrutor tatuado, Rico Mastroianni, vestido com uma roupa preta de combate e armado com pistolas, facas e um spray para defesa pessoal. Segundo ele, isso significa exercer somente a força suficiente para neutralizar um ataque letal imediato e inevitável - por exemplo, a investida de um atacante armado que invade a nossa casa. Mas, segundo a lei, se o intruso estiver apenas carregando objetos roubados ou fugindo, ele não pode ser alvejado. Não vale a pena matar, ou morrer, por bens materiais.

Ele me apresentou as três regras fundamentais para se lidar com armas de
fogo: 1) Não existem armas descarregadas - deve-se sempre assumir que uma arma está carregada; 2) Nunca aponte o cano para algo que você não deseje destruir; 3) Não encoste o dedo no gatilho até que você esteja pronto para disparar contra o alvo.

Após remover o carregador com capacidade para 15 balas e se certificar de que não havia bala na câmera, ele me entregou a pistola. Eu imediatamente coloquei o meu dedo no gatilho.

Mastroianni balançou a cabeça. "Ainda que eu tenha acabado de lhe dizer para não fazer tal coisa, você instintivamente colocou o dedo dentro da guarda do gatilho", disse o instrutor.

Eu repreendi a mim mesmo. Tolo. Mas, segundo ele, este erro não foi cometido apenas por mim - todo principiante o comete.

Ele afirmou que a culpa é da televisão e do cinema. "Quem assistir a um filme policial presenciará o pior manuseio possível de armas de fogo", disse Mastroianni. "Pessoas que sabem que não podem segurar uma faca pela lâmina não pensam duas vezes antes de apanharem uma arma jogada em qualquer lugar e empunhá-la descuidadamente".

Após demonstrar como encaixar o carregador da pistola na abertura da coronha e inserir uma munição na câmera com um rápido movimento de vai-e-vem do ferrolho, Mastroianni me mostrou como segurar a arma com a minha mão direita (com o dedo esticado no sentido do cano, sem tocar no gatilho), preenchendo o espaço vago na coronha com a mão esquerda, e entrelaçando os dedos, de forma a obter uma pegada firme.

"Não praticamos movimentos como os de 'As Panteras', agitando as armas para cima e para baixo", disse ele, descrevendo um arco teatral com a pistola. "Também não jogamos boliche - a arma não é agitada para cima".

Ele me mostrou como empunhar a arma para frente, alinhar a alça com a massa de mira e centrar o ponto brilhante desta última sobre o alvo. E também como pressionar o gatilho gradualmente, usando apenas a ponta do dedo.

"O truque é deixar que o tiro o surpreenda", explicou Mastroianni. "Mas como é que eu vou deixar o tiro me surpreender? Tenho na mão uma arma carregada de balas. Vou disparar este troço e sei que haverá um estampido. É aí que entra a disciplina. Tenho que estar completamente concentrado nesta visão central, e preciso apertar o gatilho de forma tão sutil que não penso nele. Visão frontal, visão frontal, visão frontal, apertar sutilmente o gatilho, visão frontal, visão frontal - e a arma disparou!".

No estande do Top Gun, com o alvo a três metros de distância - a maioria dos tiroteios ocorre a curta distância, em condições de pouca luz e nas quais predomina a confusão -, eu acertava invariavelmente o alvo em um ponto muito baixo e à esquerda do centro. Eu estava hesitando, sem deixar o "bangue" me surpreender. Mas com alguns meses de prática, utilizando várias armas - uma Sig Sauer P226, uma Springfield 1911, uma Smith & Wesson 686 e uma FN Herstal, entre outras pistolas - melhorei o meu desempenho. As armas não eram baratas: a Glock custou US$ 530, a Sig cerca de US$ 780 e a Herstal em torno de US$ 900.

Todo orgulhoso por dominar uma nova habilidade, eu estava pronto para obter um licença para portar armas.

O curso de dez horas para a obtenção do certificado emitido pelo Departamento de Segurança Pública teve início às 8h em ponto de uma manhã que já teve início com uma temperatura elevada, na sala de aula próxima à loja de armas de Pruett. "Quantos aqui têm ficha no FBI?", indagou Sam, o filho de Jim Pruett, que liderava a aula e que também vestia um uniforme negro e portava duas pistolas e uma faca - eu concluí que esse era o uniforme padrão dos instrutores. Ninguém levantou a mão. "Bom", disse ele. "Isto é uma pré-condição para a obtenção do porte". Mas ele não iria confiar apenas na nossa palavra de que não éramos criminosos. Dentre os vários formulários que preenchemos, havia um documento para a coleta de impressões digitais.

Cada um de nós recebeu um livro de 63 páginas com as leis sobre o porte oculto de armas no Texas e estatutos selecionados, informações que seriam objeto de um teste no final. Mas este não era um curso de tática ou de tiro. Presumia-se que todos ali já soubessem como usar uma arma. Em vez disso, aprendemos quando não fazer uso da arma.

"Atirar é sempre o último recurso", advertiu Sam Pruett, citando a famosa máxima de Clint Smith, da meca do treinamento de tiro Thunder Ranch, em Lakeview, no Estado de Oregon: "Cada bala tem um advogado colado a ela".

"Pensem em pagar de US$ 25 mil a US$ 150 mil em multas apenas por terem disparado tiros defensivos", disse ele.

Segundo Sam Pruett, não devemos jamais brandir uma arma como forma de ameaça, caso, digamos, alguém nos dê uma fechada na estrada. E o único nível de álcool no sangue admissível para alguem que esteja portando uma arma de fogo é zero.

E se você estiver armado e for parado na estrada por excesso de velocidade, algo que não se deve dizer a um policial (e, aliás, para ninguém) é: "Eu estou armado". Em vez disso, Pruett, afirma que deve-se entregar o porte de arma juntamente com a carteira de habilitação e perguntar ao policial: "Posso entregar a minha arma com segurança a você?".

"A circunstância número um que precede um homicídio é uma discussão", afirmou Pruett, passando subitamente para uma lição sobre resolução de conflitos intitulada "Algumas Pessoas são Simplesmente Loucas".

Ele nos disse que para desarmar uma situação tensa, o negócio é lembrar de cinco regras: ouvir o que os outros estão dizendo, demonstrar empatia, fazer perguntas, explicar a situação e sumarizar.

"Nós só somos capazes de controlar a nós mesmos", observou ele. "Comecem a partir disso. Confiem na sua capacidade já aguçada de prever a violência".

E, segundo ele, quando a força se torna inevitável, ela deve ser mínima. "O objetivo é parar, controlar ou neutralizar", afirmou Pruett. "A meta não é matar. Eu atiro em alguém. Ele cai. Eu coloco o meu pé sobre a sua garganta e lhe dou mais um tiro. Isso é justificável?".

Ele respondeu a sua própria pergunta: "Não".

Lá do fundo da classe ouviu-se uma voz: "Você não deveria ter usado o pé" (sempre há um espertinho).

Um veterano do vizinho Departamento de Polícia de Jersey Village, sargento H.B. Norris, chegou para colher as nossas impressões digitais. Ele olhou para nós com tristeza. O "índice de acertos" da polícia em tiroteios é de 14% - o que significa que em 86% das vezes os policiais erram o alvo - disse Norris. "Eu realmente me preocupo com vocês, porque passei a vida inteira fazendo isto. As coisas desandam muito rapidamente".

Nós preenchemos os formulários e fizemos o exame final, 50 questões que variavam de obviedades (Falso ou Verdadeiro: a melhor forma de neutralizar um comportamento negativo por parte de outro indivíduo é usar a força física"), a perguntas mais complexas: "Existem quatro elementos em uma conversa: emissor, mensagem, receptor e resposta. Qual destes é o mais importante para garantir que a mensagem foi recebida ou enviada corretamente (resposta). Esta, eu acertei.

A seguir, fomos até o estande, para provar que éramos capazes, afinal, de manusear uma arma de forma segura. O meu desempenho não foi perfeito, mas foi bastante respeitável.

Segundo ele, dentro de dois meses, a licença, enviada de Austin, chegaria à nossa caixa postal. E, depois, o que aconteceria? Fiquei pensando nisso. Será que eu realmente sairia por aí armado? Creio que não.

Mas é bom - e um pouco assustador - saber que eu poderei portar uma pistola. Danilo Fonseca

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