UOL Notícias Internacional
 

15/07/2006

Israel promete derrotar o Hizbollah em meio à escalada do confronto

The New York Times
Steven Erlanger

em Jerusalém
O confronto entre Israel e o grupo libanês Hizbollah aumentou acentuadamente na sexta-feira, com jatos israelenses atacando o quartel-general deste em Beirute e suas fortalezas no sul do país, e com a imprensa israelense dizendo que um aeronave não-tripulada do Hizbollah, carregada de explosivos, atingiu um navio israelense, causando danos severos.

Os líderes dos dois lados ameaçaram um guerra ainda mais intensa enquanto uma nova barragem de mais de 100 foguetes do Hizbollah foi disparada contra Israel, que disse que destruirá o poder do Hizbollah e o afastará da fronteira do país.

Colunas de fumaça cortavam o horizonte sul de Beirute enquanto a capital se via transformada na nova linha de frente do conflito. Com Beirute sitiada e o governo libanês praticamente fora de vista, muitos libaneses se mostraram resignados diante de uma crise que está principalmente nas mãos de potências estrangeiras.

As autoridades israelenses disseram que uma derrota do Hizbollah, uma milícia radical xiita com fortes laços com a Síria e o Irã, enviaria uma mensagem importante para a região e ajudaria Israel em seus esforços para minar o poder do Hamas na Autoridade Palestina. Eles argumentaram que também ajudaria o fraco governo libanês a exercer o controle sobre todo o país.

Mas em vez de agir contra o Hizbollah, o governo libanês pediu à ONU e aos líderes árabes e estrangeiros que intervenham para colocar um fim aos bombardeios e forçar um cessar-fogo. O primeiro-ministro Fouad Siniora pediu aos Estados Unidos que intercedam junto a Israel, mas Tony Snow, o secretário de imprensa da Casa Branca, disse: "O presidente não tomará decisões militares por Israel". Os Estados Unidos pediram a Israel que evite baixas civis.

Os foguetes do Hizbollah mataram dois israelenses e feriram pelo menos 30, com outros 30 necessitando de tratamento para choque, disseram os israelenses. No total, mais de 300 foguetes atingiram Israel, matando quatro pessoas e ferindo mais de 150. Dezenas de milhares de israelenses decidiram passar a noite em abrigos.

Aviões israelenses bombardearam pelo segundo dia o aeroporto de Beirute para reforçar o bloqueio de mar, ar e terra do Líbano. Oito libaneses foram mortos nos ataques aéreos na sexta-feira, elevando o total de mortes lá nos últimos três dias para 66, com mais de 200 feridos, segundo a polícia libanesa.

A mais recente batalha entre Israel e o Hizbollah teve início quando os guerrilheiros do Hizbollah mataram oito soldados israelenses dentro de Israel e seqüestraram dois outros. As autoridades israelenses disseram que quaisquer negociações de cessar-fogo só começarão se o Hizbollah libertar os dois soldados israelenses e for desarmado.

As autoridades israelenses disseram que sua estratégia é diminuir ou destruir o poder do Hizbollah, que criou "um Estado dentro de um Estado" no sul do Líbano, e assegurar que o exército libanês substitua o Hizbollah na fronteira com Israel, como exigido pela ONU.

"Nós decidimos colocar um fim a esta saga e mudar as regras de um jogo por meio do qual uma organização terrorista que faz parte do governo libanês pode levar a região para o abismo", disse Isaac Herzog, um membro do Gabinete de segurança israelense.

Mas o Hizbollah permaneceu desafiador. O líder do Hizbollah, Hassan Nasrallah, não foi ferido no bombardeio ao prédio de apartamentos que serve como seu lar e quartel-general. Ele respondeu furiosamente em uma declaração transmitida pela televisão, prometendo uma guerra maior. "Vocês sionistas", ele disse, "vocês queriam uma guerra aberta e a terão", e ele prometeu "atingir Haifa e até mais longe". Ele continuou: "Vocês queriam que seu governo mudasse as regras do jogo? Este jogo mudará. Agora vocês sabem com quem estão lutando. Vocês estão enfrentando os filhos de Muhammad e Ali".

O navio israelense danificado por uma explosão foi descrito pela imprensa israelense como sendo um navio de guerra com várias dezenas de marinheiros a bordo. As forças armadas disseram que o navio sofreu vários danos e estava sendo rebocado para Israel. Não se sabe se houve baixas. O Hizbollah disse que o navio foi atingido por um aeronave controlado por controle remoto.

O Hizbollah tem entre 10 mil e 12 foguetes de vários tipos e alcances, disse o general de brigada Ido Nehushtan, um membro do Estado-Maior das Forças Armadas, a maioria deles fornecido pela Síria e pelo Irã. A maioria dos foguetes atingiu as cidades do norte de Israel de Nahariya e Safad. Mais dois israelenses, uma avó e seu neto de 5 anos, morreram e 10 ficaram feridos, incluindo três outras crianças, quando um foguete atingiu a casa deles em Meron.

Israel espera que o governo libanês, pressionado pela comunidade internacional, deslocará seu exército para o sul do Líbano, e acredita que os libaneses e outros Estados árabes estão felizes em ver Israel atacar um dos meninos-propaganda do Islã xiita radical. Mas é também verdade que a revolta dos libaneses poderá se voltar contra Israel.

Israel também ficou animada com a reação branda dos governos da região, que não saíram em defesa do Hizbollah -nem mesmo a Síria e o Irã, que limitaram seu envolvimento à condenações furiosas às ações de Israel. Israel também ficou satisfeita com a declaração do governo saudita na quinta-feira, que culpou o Hizbollah de imprudente e pediu para que ele colocasse um fim à crise.

"Deve ser feita uma distinção entre resistência legítima e aventuras não calculadas realizadas por elementos dentro do Líbano, e aqueles por trás delas sem obrigações para com as autoridades legais ou sem consultar ou coordenar com os países árabes", disse uma declaração publicada pela agência oficial de notícias saudita, "SPA". "Estes elementos devem ser responsabilizados por suas ações irresponsáveis e apenas eles devem colocar um fim à crise que criaram."

Enquanto as bombas israelenses caíam, as ruas principais dos bairros do sul de Beirute estavam virtualmente desertas na sexta-feira, com moradores fugindo em busca de segurança ou entocados em suas casas. A eletricidade foi cortada em grande parte da cidade após uma usina de força próxima ter sido bombardeada. As autoridades israelenses disseram que lançaram panfletos no sul de Beirute, alertando os moradores a partirem antes dos bombardeios.

Alguns disseram que o cerco estava unindo o povo libanês. "Nós todos estamos unidos, nós precisamos uns dos outros e precisamos decidir como viver", disse Mousa Hijazi, 65 anos. Ele foi tirado da cama quando bombas atingiram uma ponte que leva ao aeroporto próximo de sua casa, envolvendo o bairro em fumaça.

O Departamento de Estado aconselhou na sexta-feira os americanos a pensarem em deixar o Líbano assim que as condições permitam. Mas o porta-voz do Departamento de Estado, Sean McCormack, disse que nenhum funcionário da embaixada americana em Beirute partiu, porque não há como. Oficiais do Pentágono disseram que estão preparando planos de contingência para uma possível evacuação do pessoal da embaixada e outros americanos do país.

O primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, declarou que não tem a intenção de negociar uma troca de prisioneiros tanto com o Hizbollah quanto com os militantes palestinos em Gaza, que entraram em Israel e capturaram outro soldado israelense em 25 de junho. Israel está envolvida em um esforço militar simultâneo em Gaza, de onde retirou seus colonos e tropas há um ano, no que uma autoridade israelense descreveu como uma "guerra contra o terrorismo que está agindo em duas frentes", contra o Hamas e o Hizbollah, ambos grupos semi-oficiais que não estão seguindo as regras de Estados soberanos.

Israel continua atacando o sul do Líbano, onde o Hizbollah espalhou várias minas a armadilhas. "Há muitas formas de afastá-los da fronteira", disse Nehushtan. "As forças terrestres estão prontas", ele disse. "Ninguém tolerará a presença das forças do Hizbollah ao longo da fronteira, agindo livremente como um Estado dentro de um Estado, agindo contra Israel como lhe agrada e mantendo israelenses como reféns, escolhendo quando puxar o gatilho."

Um importante político israelense no governo, que falou anonimamente por não estar autorizado a falar publicamente, disse: "No Líbano e em Gaza nós tomamos medidas unilaterais e nos retiramos, achando que teríamos tranqüilidade. Eles interpretaram isto como fraqueza e nós estamos determinados a quebrar este padrão".

O chefe do Estado-Maior israelense, o general de exército Dan Halutz, disse que os ataques aéreos continuarão até que os soldados israelenses sejam libertados e o governo libanês assuma a responsabilidade pelas ações do Hizbollah. Israel também deseja, ele disse, "enviar uma mensagem clara tanto para a grande Beirute quanto para o Líbano de que engoliram um câncer e precisam vomitá-lo, porque caso contrário seu país pagará um preço muito caro". Ao ser perguntado sobre uma possível intervenção síria, Halutz disse: "Não há motivo para os sírios saltarem em uma piscina na qual poderão se afogar".

Guy Bechor, um analista que chefia a Divisão para Oriente Médio do Centro Interdisciplinar em Herzliya, disse que o Hizbollah será forçado a recuar devido aos ataques aéreos. "Diante de tal máquina aérea, Nasrallah pouco pode fazer", disse Bechor. "E isto levará à sua derrota. Israel não está à procura de um entendimento com o Hizbollah, mas de uma vitória."

Israel só precisa de mais alguns dias, disse Bechor, para passar a mensagem, que terá repercussão em Gaza, ele disse. "Os novos parâmetros no Líbano facilitarão para Israel junto aos palestinos", ele sugeriu. Tais parâmetros incluem a recusa em negociar reféns e o uso cuidadoso mas sustentado de uma força militar superior para punir ataques contra Israel e seus soldados vindos de territórios que Israel não ocupa.

Em Ramallah, na Cisjordânia, o secretário-assistente de Estado americano, David Welch, se encontrou com o presidente palestino, Mahmoud Abbas. Welch pediu para que todos os lados "empreguem moderação" e disse que a questão do prisioneiro israelense capturado em Gaza "também deve ser tratada entre os israelenses e o presidente Abbas, livre de qualquer interferência de outras partes".

Welch parecia se referir à queixa do presidente do Egito, Hosni Mubarak, de que tinha acertado as linhas gerais de um pacote de acordo que libertaria o israelense em troca de futuras concessões, mas que outros países, presumivelmente a Síria e o Irã, trabalhando por intermédio do líder político exilado do Hamas, Khaled Meshal, encorajaram os militantes a rejeitarem o acordo.

Em Gaza, tropas israelenses deixaram o centro da Cidade de Gaza durante a madrugada após dois dias de lutas, tendo dividido o território em dois. Na madrugada de sexta-feira, Israel bombardeou os escritórios dos legisladores do Hamas, atingiu uma ponte e realizou um disparo de tanque que matou um palestino.

Israel, que destruiu os escritórios em Gaza do primeiro-ministro, do ministro das relações exteriores e do ministro do interior, atacou na manhã de sábado o escritório do ministro da economia.

Cerca de 50 homens armados palestinos usando máscaras tomaram brevemente o fechado terminal de Rafah, entre Gaza e o Egito, permitindo que até metade dos cerca de 4 mil palestinos retidos no Egito entrassem em Gaza, segundo alguns dos que entraram. Os esforços da polícia palestina e da polícia de fronteira egípcia para impedir os homens armados fracassaram, mas não houve disparos. Os egípcios impediram que palestinos entrassem no Egito.

Desde que um soldado israelense foi capturado em 25 de junho, cerca de 95 palestinos foram mortos na Faixa de Gaza, 60 deles militantes, segundo Bassam Eid, o diretor do Grupo Palestino de Monitoramento dos Direitos Humanos. Entre os mortos estavam 11 palestinos menores de idade. Três foguetes Qassam lançados de Gaza atingiram Sderot, uma cidade de fronteira israelense, mas não causaram danos.

Hassan Fattah em Beirute, Líbano; Craig Smith, em Rafah, Faixa de Gaza, e Jim Rutenberg, em Strelnya, Rússia, contribuíram com reportagem para este artigo. George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,13
    3,270
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,51
    63.760,94
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host