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15/07/2006

Premier da Índia censura Paquistão por fracassar em coibir o terror

The New York Times
Somini Sengupta*

em Mumbai, Índia
O primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, repreendeu o Paquistão na sexta-feira por fracassar em conter o terrorismo e alertou que isto ameaça o processo de paz, seus comentários mais duros desde os atentados a bomba contra trens em Mumbai e uma mudança acentuada nas relações entre os países.

"Estas células terroristas são instigadas, inspiradas e apoiadas por elementos do outro lado da fronteira, sem os quais não poderiam agir com tamanho efeito devastador", disse Singh em uma coletiva de imprensa em Mumbai, a maior cidade da Índia e também conhecida como Bombaim, três dias após bombas terem explodido em sete trens na hora do rush, matando 181 pessoas.

"Eu expliquei ao governo do Paquistão no mais alto nível que se os atos de terrorismo não forem controlados, se tornará cada vez mais difícil para qualquer governo prosseguir no que poderia ser chamado de processo de paz e normalização", ele acrescentou.

As autoridades indianas não apresentaram evidências que associem os atentados a qualquer organização em particular. Mas a polícia local e importantes autoridades do governo sugeriram o envolvimento do Lashkar-e-Taiba, um grupo militante banido, baseado no Paquistão, que está ativo na insurreição anti-Índia na Caxemira, um território reivindicado tanto pela Índia quanto pelo Paquistão.

O grupo é acusado de vários ataques em solo indiano nos últimos anos, apesar de ter negado responsabilidade por eles, incluindo os atentados desta semana.

A Índia e o Paquistão iniciaram negociações de paz há quatro anos, desde o final de um impasse militar por causa de um ataque terrorista contra o Parlamento indiano, em dezembro de 2001, que também foi atribuído ao Lashkar-e-Taiba.

No início desta semana, o Paquistão rejeitou as acusações indianas em relação aos ataques em Mumbai. O presidente paquistanês, o general Pervez Musharraf, ofereceu na quinta-feira ajuda na investigação dos atentados, que também feriram 700.

Na noite de sexta-feira, o Ministério das Relações Exteriores do Paquistão rejeitou a insinuação de Singh de um elo paquistanês nos atentados. "Nos últimos dois dias, a Índia não nos deu nada por escrito ou falou sobre qualquer evidência", disse Tasnim Aslam, um porta-voz do ministério, segundo a imprensa estatal paquistanesa. A próxima rodada de conversações, entre os ministros das relações exteriores de ambos os países, está marcada para começar na próxima semana.

Os comentários de Singh ressaltam as pressões políticas e oportunidades que os atentados apresentam a ambos os governos.

Por um lado, Singh, que tem sido um defensor obstinado da aproximação com o Paquistão, enfrenta críticas da oposição do partido nacionalista hinduísta Bharatiya Janata, assim como de partes da população indiana, de ser leniente demais com o Paquistão e com os grupos militantes que é acusado de abrigar.

Na sexta-feira, um editorial de um jornal inglês de Mumbai, o "DNA",
pressionou o primeiro-ministro a fornecer mais do que consolo em sua visita à cidade. "Bem-vindo, Primeiro-Ministro", dizia a manchete. "Agora vamos fazer algo."

O editorial concluiu incisivamente: "Pode ter chegado a hora de fazer com que os terroristas e seus patrocinadores saibam que a Índia é um país com paciência milenar, mas que enfurecida e provocada sabe jogar duro. Será que o primeiro-ministro fará o favor?"

Ao mesmo tempo, as explosões em Mumbai apresentaram ao governo de Singh um poço de solidariedade internacional para explorar, para exercer pressão sobre seu rival vizinho.

"Eu acho que após os atentados em Bombaim, especialmente se aparecer de fato algum elo estrangeiro, farão com que a cidade seja inevitavelmente vista como uma vítima do terror islâmico assim como Nova York, Madri ou Londres", disse Sumit Ganguly, um professor de política da Universidade Indiana, em Bloomington. "Isto só ajudará a causa da Índia na Caxemira."

Do outro lado da fronteira fortificada com o Paquistão, Musharraf enfrenta seus próprios desafios domésticos e internacionais. De seus aliados no exterior, especialmente os Estados Unidos, que têm se aproximado de Nova Déli, ele corre o risco de receber pressão adicional para reprimir os grupos militantes como o Lashkar-e-Taiba.

Mas tal repressão, disse Hasan-Askari Rizvi, um analista político de Lahore, Paquistão, poderá fazer com que o general perca o morno apoio que tem dos religiosos radicais de seu país, um eleitorado importante e volátil.

Os atentados em Mumbai também complicam sua capacidade de vender a paz com a Índia. "Os islamitas argumentarão que sabiam que o diálogo não funcionaria", disse Rizvi. "Outros que defendem a continuidade do diálogo o criticariam por permitir que os extremistas islâmicos minassem o diálogo."

As conversações de paz entre os países resultaram em linhas de ônibus e trem que cruzam a dividida Caxemira. A frustração entre os religiosos radicais aliados e os militares do país tem aumentado a pressão sobre Musharraf. A pressão é particularmente pesada à medida que o Paquistão se aproxima das eleições do próximo ano.

A Índia nega estar emperrando as negociações e acusa o Paquistão de fornecer treinamento, armas e refúgio para os guerrilheiros que estão combatendo o governo indiano na Caxemira desde 1989. O Paquistão diz que oferece apenas apoio político e moral.

Desde que as negociações de paz começaram, a violência diminuiu. Mas houve um aumento dos ataques às forças militares e civis indianos na Caxemira nas últimas semanas. Um dos mais ousados foi uma explosão de granada que atingiu um ônibus de turistas, matando oito e ferindo 40, tanto visitantes quanto moradores.

Apesar dos paralelos entre as explosões em Mumbai e as de Londres e Madri, há um amplo acordo neste país de que as raízes da recente experiência da Índia com o terrorismo são locais, não globais.

"Eles visam minar o processo de paz, não apenas entre a Índia e o Paquistão, mas entre a Índia e os caxemires alienados", disse Radha Kumar, um historiador que estuda o conflito na Caxemira, "e foram vis e desprezíveis mesmo em comparação à história vil e desprezível do terrorismo no Sul da Ásia".

Ainda assim, a julgar pela solidariedade e ultraje que os atentados em
Mumbai causaram em todo mundo, não há dúvida de que eles ressaltam a
vulnerabilidade da Índia. Se isto prejudicará ou ajudará a Índia a longo prazo é um assunto para debate.

Sejam quais forem os benefícios diplomáticos obtidos, eles terão que ser confrontados com os novos riscos que o país poderá enfrentar.

"Em um nível superficial, isto ajuda a posição da Índia porque a comunidade internacional está cada vez mais ciente da dimensão do problema no Paquistão", disse Kumar. "Mas em um nível mais profundo, isto prejudica a posição da Índia porque a impede de obter a paz com os grupos caxemires alienados, assim como com o Paquistão."

*Salman Masood, em Islamabad, e Hari Kumar, em Nova Déli, contribuíram com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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