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16/07/2006

A temporada dourada em Helsinque

The New York Times
R. W. Apple Jr.
Isto me lembra o quadro "La Grande Jatte", diz minha mulher, Betsey, num dia ensolarado, observando os rapazes e moças louros que absorvem os raios de sol no gramado central salpicado de flores que divide a Esplanada, a melhor rua comercial de Helsinque. "Só faltam os guarda-sóis."

John McConnico/The New York Times 
No alto verão, luz do dia brilha 20 horas na capital finlandesa


















Não experimente Helsinque fora da temporada (não escute o que dizem os folhetos turísticos). O momento da capital finlandesa é agora, no alto verão, quando a luz do dia dura 20 horas, quando os terraços dos cafés e os mercados à beira da água estão cheios de pessoas bonitas e saudáveis, quando a época dos banquetes de lagostins se aproxima do auge e quando as águas azuis-claras dos lagos e do porto e a casca branca das bétulas combinam com a bandeira nacional.

Vista em seu melhor momento, Helsinque pode ser hipnótica. Ela me fascina há décadas com seu gênio para o design moderno, exibido nos tecidos de Marimekko, cerâmicas de Arabia e objetos de vidro de Iittala, criados por nomes como Kaj Franck, Timo Sarpaneva, Tapio Wirkkala, Alvar Aalto e Eliel Saarinen, para não falar nas excelentes tesouras feitas por Fiskars. Alguns nomes são menos conhecidos do que deveriam ser - Aalto se situa, pelo menos na minha opinião, ao lado de Wright, Mies e Le Corbusier no ápice da arquitetura do século 20 - mas certamente não por culpa deles.

Durante algum tempo, a tradição parecia moribunda, mas provou-se apenas adormecida. Marimekko, cujas roupas simples e chiques Jacqueline Kennedy valorizava, encontrou um novo surto de criatividade. O trabalho de estilistas jovens e não tão jovens de todo o mundo (como o inglês Tom Dixon na Artek) pode ser visto na cutelaria e no mobiliário finlandês, e um novo bairro de design foi criado para exibir tudo isso.

Um país de apenas 5,25 milhões de habitantes (menos que Wisconsin, com 5,53 milhões), onde a maioria das pessoas fala uma língua que é uma prima distante do húngaro e de modo geral incompreensível para outros europeus, a Finlândia - e Helsinque, seu centro cultural, comercial e político - teve de trabalhar duro para deixar sua marca. E conseguiu, além de quaisquer expectativas racionais, não em uma única esfera, mas em várias.

A sauna finlandesa conquistou o mundo, assim como os atletas finlandeses, desde o corredor em distância Paavo Nurmi ao astro do hóquei Teemu Selanne e o piloto de Fórmula 1 Mika Hakkinen. Os telefones celulares Nokia são usados em todos os cantos do planeta. Levando a tocha da música clássica do grande compositor Jean Sibelius, os músicos finlandeses foram longe de sua remota base nórdica - Esa-Pekka Salonen reina como diretor musical da Filarmônica de Los Angeles, Karita Mattila como prima-dona nas grandes óperas de Nova York, Londres, San Francisco, Paris e Viena.

No entanto, os finlandeses têm uma reputação não totalmente desmerecida como pessoas silenciosas, sem humor e melancólicas. Sua visão da vida se resume muitas vezes na palavra "sisu", que denota uma séria determinação a fazer o que deve ser feito, independentemente das circunstâncias - uma espécie de perseverança obstinada que ajudou a Finlândia a sobreviver durante décadas sob a nuvem negra da União Soviética.

O isolamento psíquico dos finlandeses é especialmente marcado durante os longos e tenebrosos invernos, quando milhares deles buscam alívio em uma espécie de tango tipicamente finlandês - não "a versão latino-americana, com seu apaixonado contato das coxas", como escreveu um dia Morley Safer, "mas um movimento triste em tom menor".

O sol dissipa tudo isso. Helsinque pode ser a segunda capital mais setentrional do mundo, depois de Reikjavik, e pode ser banhada pelo Báltico, mas pode parecer quase mediterrânea em um belo dia de agosto, com a luz dourada suave inundando os prédios de estilo italiano em cores pastel ao redor da Praça do Senado, um legado do domínio russo no século 19, e os ferry-boats, navios de cruzeiro e veleiros compondo uma animada paisagem marinha.

A história também pode estar mudando a personalidade nacional. Meu velho amigo Max Jacobson, um dos diplomatas mais renomados da Europa, acredita nisso. Durante muitos anos, ele me disse, os finlandeses e o resto do mundo tenderam a definir seu país em relação aos soviéticos. Mas agora, diz ele, "saímos da sombra do urso russo para um papel mais cosmopolita como europeus de fato".
Não que o resto da Europa tenha percebido isso totalmente. Por algum motivo insondável, os líderes dos grandes países gostam de diminuir a comida finlandesa; Jacques Chirac disse que é a pior da Europa, com exceção da inglesa, e Silvio Berlusconi caçoou porque os finlandeses não sabiam o que era "prosciutto".

Do que eles reclamam? Talvez não gostem do café finlandês. Os finlandeses bebem mais café per capita do que qualquer outro povo do mundo (quase 12 quilos de grãos por ano), mas não espresso, e realmente não é muito bom.

Pena; os cafés, como o animado Cafe Strindberg, na Esplanada, o Cafe Fazer, conhecido pelo sorvete, e o Cafe Ekberg, fundado em 1852 (Cafe Greco, Roma, 1760), são deliciosos.

Mas duvido que você leve muito a sério as críticas dos políticos depois de visitar o Kauppatori, na Praça do Mercado, que fica ao pé da Esplanada, onde ela encontra o porto. Barracas vendem uma variedade surpreendente de frutinhas silvestres, que na Finlândia, assim como na Suécia e na Escócia e em outros climas setentrionais, amadurecem lentamente até ficarem extraordinariamente doces. E os pescadores vendem peixe fresco e defumado diretamente de seus barcos, assim como delicadas ovas, truta, arenque e salmão.

O próximo passo é atravessar o Kauppahalli, o mercado coberto, construído em tijolos vermelhos e amarelos em 1888 e lotado de coisas expostas com arte, incluindo queijos franceses e azeitonas italianas, linguados, trutas e outros peixes apreciados, salmão marinado, salame de urso e churrasquinho de rena. Mais o pão redondo e crocante típico, muito apreciado, e irresistíveis grandes pães de centeio. Fiquei especialmente impressionado pela loja de queijos Tuula Paalanen, a padaria Hongisto e a imaculada peixaria E.Eriksson.

Peixe é o principal item da dieta finlandesa, e poucos o cozinham melhor que Hans Valimaki, que serve bacalhau desfiado com xarope de bálsamo e lagosta cozida em manteiga perfumada com baunilha no Chez Dominique, para não falar em seu pombo recheado com "foie gras" acompanhado de purê de salsinha temperada. Sobre o último, minhas anotações dizem: "o tipo de prato pelo qual você vai aos grandes restaurantes". Com paredes cinza e pequeno (dez mesas), e extremamente caro, o Chez Dominique fica a apenas uma quadra da Esplanada.

O guia Michelin lhe dá duas estrelas, mas o Michelin sempre prefere as coisas francesas, e eu acho algumas outras mesas de Helsinque quase tão boas, incluindo a de G.W. Sundmans, abrigada em uma magnífica casa de capitão num velho navio, que serve um sorvete improvavelmente delicioso com sabor de alcatrão; o discreto George, que apresenta um delicioso escalope e tortinha de alcachofra com molho holandês; e o moderno Mecca, onde Valimaki oferece caprichos como bolinhos de camarão com molho de limão e abacaxi e salmonete com risoto de salame e molho de melão.

Se você gostar desse tipo de coisa. Senão, talvez fique mais feliz no Bellevue, um enclave da tradicional cozinha russa e da animada música do país. Esse é o lugar para comer arenque (com picles, na mostarda, em creme azedo) e experimentar os espetaculares picles russos com creme azedo e mel, um borscht maravilhosamente autêntico e frango à Kiev feito como se deve, cheio de manteiga aromatizada com avelã, servido com ervilhas frescas. Os benefícios colaterais são generosos: girassóis em um grande vaso, um serviço caloroso, fatias de um pão fabuloso coberto de groselhas e amplas doses de Russky Standard Platinum, uma das melhores vodcas do planeta.

O Savoy, fundado em 1937 e projetado por Alvar Aalto, é a contrapartida local, muito mais barata, do Four Seasons de Manhattan, fundado em 1959 e projetado por Mies e Philip Johnson - lugar de recreio dos poderosos, defensor da culinária local, templo da forma clássica. No oitavo andar de um prédio de escritórios, em meio à copa das árvores da Esplanada, ele é mobiliado com cadeiras, luminárias e até porta-casacos do mestre, e cheio de seus vasos característicos, em formas livres que se repetem no bufê.

Esse era o restaurante favorito do herói nacional da Finlândia, o marechal C.G.E. Mannerheim, e seu prato favorito, "vorschmack", uma mistura de carne, carneiro e arenque moídos, está sempre no cardápio. Folclórico demais para mim, e confesso que não fiquei entusiasmado ao ver recentemente no menu uma "torta de laranja com espuma de canela doce do Sri Lanka". A Catalunha tem mais a ver com isso. Mas sempre há muitas coisas que Betsey e eu adoramos comer nesse ambiente sempre jovial, com violetas azuis e brancas nas floreiras das janelas: aspargos brancos frescos, musse de perdiz, arenques grelhados com manteiga de dill (aneto), carpa com manteiga de raiz-forte e salmão com cogumelos silvestres (caça e cogumelos das imensas florestas são as paixões finlandesas, e em 20 de junho, primeiro dia da temporada de patos selvagens, você pode encontrar pato no cardápio de muitos restaurantes).

No final de julho e agosto, muitos dos poderosos que almoçam no Savoy organizam banquetes de lagostins no jantar, muitas vezes no NJK Yacht Club na ilha Blekholmen. Por intermédio de Jukka Valtasaari, então embaixador da Finlândia em Washington, fizemos isso numa noite deliciosa alguns anos atrás, consumindo montanhas dos pequenos crustáceos vermelhos que tinham sido fervidos por apenas dez ou 12 minutos com sal, algumas pitadas de açúcar e dill (com um sabor poderoso, colhido depois da floração, e não do tipo mais conhecido, que parece fiapos) e deixados para esfriar durante horas, para absorver todo o sabor do líquido de cozimento.
Naturalmente, essas festas têm um ritual definido, que inclui babadores, facas especiais, lanternas de papel e muitos ruídos de chupar, feitos pelos comensais enquanto sugam avidamente os sucos do lagostim antes de retirar sua casca. A carne é colocada sobre torradas amanteigadas com mais dill e talvez um toque de suco de limão - empilhadas ou arranjadas em perfeita ordem por espíritos cuidadosos como Etel, a esposa do embaixador.

Pelo que me lembro, grandes quantidades de aguardentes - vodca e aquavit - foram consumidas antes do fim da festa, mas nada como o proverbial "um gole para cada pata". Na única vez que tentei, não consegui manter o rumo. Mas tive amlpa companhia.

Tudo isso parece muito distante da experiência ocidental dominante, mas pode ser enganador. Voltando ao mundo da arquitetura e do design, considere a estação ferroviária de Helsinque (1919), de Eliel Saarinen, com seus quatro guardiões de pedra, figuras estranhas e gigantescas que sustentam globos iluminados, diretamente tirados dos mitos nórdicos.
Ela levou à inscrição de Saarinen para o concurso da Torre do Chicago Tribune em 1922, no qual ficou em segundo lugar, o que por sua vez levou à sua indicação para diretor da Academia de Arte Cranbrook, perto de Detroit.

Lá ele ensinou toda uma geração de designers tipicamente americanos, como Florence Schust Knoll, Harry Bertoia, Ray e Charles Eames e seu próprio filho ilustre, Eero, criador de estruturas elevadas e otimistas com o Gateway Arch em St. Louis e o aeroporto Dulles perto de Washington.
Ou considere o Museu Kiasma de Arte Contemporânea, com sua pele de prata, o atual favorito de Helsinque, tão finlandês em seu espírito, reluzindo à noite qual uma lâmina de gelo ou uma peça de vidro de Sarpaneva ou Wirkkala, mas projetado por Steven Holl de Nova York, melhor conhecido, talvez, pela maravilhosa capela de Santo Inácio em Seattle.

O Finlandia Hall de Aalto, concluído em 1971, talvez seja sua obra-prima - é certamente uma das poucas câmaras de concerto contemporâneas onde a acústica funcionou perfeitamente desde o início - e seu edifício Enzo-Gutzeit (1962) em forma de cubo, branco como uma geleira, forma uma parte valiosa da paisagem do outro lado do porto. A casa dele pode ser visitada. Mas a qualidade definitiva do homem, sua simples humanidade, pode ser melhor apreciada na livraria Academic, uma das maiores da Europa, com mais de 500 mil títulos em estoque, em meia dúzia de línguas.

A livraria fica em um prédio de escritórios quase anônimo, mas o observador perceberá logo as maçanetas de bronze da porta, elegantemente esculturais e soberbamente ergonômicas - três em cada porta, para pessoas de diversas alturas. Lá dentro, o espaço de três andares com dois balcões é iluminado por clarabóias prismáticas gigantescas, embutidas no teto; nem banal nem grandioso, é um ambiente perfeito, na escala humana, para se folhear livros.

Mas Helsinque é uma festa para o amante de arquitetura e design, com seus prédios neoclássicos e art nouveau formando o cenário para suas jóias modernas. Os museus organizam exposições da obra de seus filhos e filhas favoritos, como a designer de tecidos Maija Isola (1927-2001), que criou os coloridos tecidos Poppy para a Marimekko, estampados com flores grandes e ousadas, amados nos anos 60 e hoje novamente em moda. A Esplanada, é claro, oferece as butiques sedutoras de Marimekko (quatro), Iittala, Arabia e Artek, onde você pode admirar não apenas as conhecidas banquetas de madeira de três pernas de Aalto, mas muito mais.

Os realmente sensíveis serão recompensados ao explorar as ruas ao norte da Praça do Senado, onde comerciantes como Kaunus Arki e Vanhaa ja Kaunista vendem objetos da idade de ouro do design finlandês.

Chega de passado. O presente está visível não apenas ao longo da Esplanada, onde designs do italiano Renzo Piano e do jovem finlandês Stefan Lindfors atraem o olhar, mas também no bairro do design, com museus, lojas e restaurantes. Em seu centro fica o Design Forum Finland, uma vitrine de produtos de firmas mais novas e de jovens talentos como Tonfisk e Saara Renvall. Na proximidade há uma grande diversidade de lojas como Ivana Helsinki e Limbo and Lux, que vendem moda moderna e jovem, e muitas outras, como Secco, que oferece produtos feitos de pneus reciclados e outros artigos, mais AERO Design e Ameba Design, especializadas em móveis clássicos.

E Chez Dominique e Mecca estão logo ali, virando a esquina.

ONDE FICAR
Hotel Kamp, Pohjoisesplanadi 29, (358-9) 576-111, www.hotelkamp.fi/en. Este é o Crillon ou o Connaught de Helsinque, construído em 1887 e renovado com carinho em 1999. Numa localização ideal, no coração da cidade, muito bem administrado e opulento em todos detalhes, desde a sauna (inclusive algumas nas suítes de luxo) à sua galeria comercial e seus quatro restaurantes. É a primeira opção óbvia, se você puder pagar. A partir de 280 euros (cerca de US$ 370).

Klaus K Hotel, Bulevardi 2, (358-20) 770-4700, www.klauskhotel.com. O primeiro hotel com design da Finlândia, fica no novo bairro do design, com 137 elegantes apartamentos contemporâneos em tons de branco, marrom e dourado, equipados com os últimos brinquedos eletrônicos. Vários bons restaurantes, incluindo Toscanini (italiano) e Ilmatar, onde o chefe sueco nascido na Etiópia, Marcus Samuelsson, do Aquavit de Nova York, dá consultoria. A partir de 115 euros.

ONDE COMER
Chez Doninique, que está de mudança para a Rikhardinkatu 4; (358-9) 612-7393; www.chezdominique.fi.
Mecca, Korkeavuorenkatu 34; (358-9) 1345-6200; www.mecca.fi. Jantar para dois com vinho, 175 euros.
Bellevue, Rahapajankatu 3; (358-9) 179-560; www.restaurantbellevue.com. Jantar para dois com vinho, 130 euros.
Savoy, Etelaesplanadi 14; (358-9) 684-4020; www.royalravintolat.com/savoy/index-eng.asp. Jantar para dois com vinho, 250 euros.
G.W. Sundmans, Etelaranta 16; (358-9) 622-6410; www.royalravintolat.com/sundmans/index-eng.asp. Jantar para dois com vinho, 250 euros.
George, Kalevankatu 17; (358-9) 647-662; www.george.fi. Jantar para dois com vinho, 150 euros. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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