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17/07/2006

Criando identidade por meio das artes

The New York Times
Anne Midgette
São duas da manhã em Riga, e as ruas calçadas de pedra da Cidade Velha estão lotadas. A loja de "pelmeni", onde você pode se encher de macarrão (a resposta ao ravióli da antiga república soviética) por US$ 1 ou US$ 2 (entre R$ 2,20 e R$ 4,40) está vendendo muito. Uma fila de adolescentes, bem humorados e ligeiramente barulhentos, serpenteia para fora do templo da música alternativa Pulkevedim Neviens Neraksta (Ninguém Escreve ao Coronel).

John McConnico/The New York Times 
Prédio histórico restaurado em Riga, capital da Letônia

















As janelas enquadram pessoas dançando com música alta: em um restaurante, fechado para uma festa privada; em uma boate que reservou um espaço na vitrine para suas dançarinas stripper; e mais estranhamente, em uma sala de chá, onde corpos exuberantes cavaram um espaço para dançar no meio das mesas redondas e tilintar de xícaras.

Regras? Que regras? Riga, culta, energética e jovem, as cria na medida em que avança. A Letônia é o país mais pobre da União Européia, mas Riga, sua capital, é a cidade mais cosmopolita do Báltico, com lojas elegantes, museus novos, hotéis e restaurantes modernos e apenas traços do que a Letônia hoje chama de ocupação soviética (termo que gerou certo esfriamento nas relações do país com a Rússia).

Empresários estão descobrindo como novas idéias podem dar dinheiro. Por que, por exemplo, um restaurante não pode virar uma boate à noite? Por que os chefes de cozinha da cidade devem continuar presos a peixe, pão preto de centeio e ervilhas cozidas com bacon --prato tradicional da Letônia-- enquanto existem tantos novos ingredientes da cozinha de "fusão": lichia, jalapenos, molho hoisin e dim sum?

E por que, indagam os pais e mães da cidade (mulheres têm um grande papel nesta jovem sociedade), as instituições culturais de Riga devem continuar presas ao passado? A vida de concertos clássicos de Riga, que foi abruptamente cortada do sistema soviético, está em movimento, prestes a gerar outra orquestra; os curadores da cidade planejam a construção de um museu de arte contemporânea; e a ópera de Riga é reconhecida como uma das melhores do antigo Bloco Oriental.

A ópera é uma boa metáfora da nova Riga: sua fachada séria esconde uma exuberância subjacente. Pálida e neoclássica, fica na faixa de parque que divide as duas metades da cidade: a Cidade Velha, do mundo antigo, e a seção mais jovem que cresceu fora dos muros da velha fortaleza do século 19 e agora é conhecida como Centro, confundindo os visitantes.

O teatro foi restaurado ao seu esplendor de 1863, com piso de madeira resplandecente, detalhes folheados a ouro e reboco trabalhado; novas expansões deram mais espaço para ensaios e escritórios. A instituição foi dirigida nos últimos dez anos por um diretor carismático e pouco convencional, chamado Andrejs Zagars, que apresenta jovens diretores e cantores de vanguarda vindos de fora.

Zagars, do alto de seus 2 metros, com um olhar penetrante e mandíbula quadrada de astro de cinema e expressão de um gato satisfeito, traz ao cargo experiência artística e empresarial. Nos anos 80 e início dos anos 90, era ator de sucesso; depois do rompimento com a União Soviética, ele abriu e administrou uma série de restaurantes.

"Quero envenenar os letões com ópera", diz ele, falando em seu escritório antes da recente estréia da companhia de "Das Rheingold". "Quero criar um vício."

Certamente ele gerou um burburinho, especialmente com sua nova produção. A companhia de ópera de Riga apresentará o ciclo "Ring", de Richard Wagner, pela primeira vez em mais de cem anos. Cada uma das óperas foi entregue a um diretor diferente e será a atração anual até 2009, em co-produção com o Festival Internacional de Bergen, na Noruega. "Das Rheingold" é dirigida por um jovem alemão agradavelmente controverso chamado Stefan Herheim: em sua visão, os deuses aparecem como ícones culturais alemães, como Nietzche e Mozart e Bismarck; Wota e Alberich são Richard Wagner; e Rheingold e Valhahla são o cálice sagrado de Wagner da vida real, a casa de ópera em Bayreuth.

Apesar de o próprio Wagner ter morado em Riga por dois anos, não se sabe quantos cidadãos perceberam todas as referências inteligentes de Herheim. No entanto, produções como essa, apresentadas em festivais de ópera anuais em junho, certamente geraram interesse: as vendas subiram de 67% para 85%, disse Zagars. O diretor, na nova tradição letã de criar as próprias regras, até começou a dirigir ópera ele mesmo. Esta temporada receberá uma nova "Traviata".

A cultura pode ser tudo, menos tangencial em um país que busca criar uma identidade. A Letônia tem consciência disso desde o início de seu primeiro impulso de independência em 1919: imediatamente criou um sistema de museus estaduais e uma Academia de Belas Artes para promover a escola letã de pintura. (Sim, há uma escola letã de pintura. No Museu Estadual de Arte, ligeiramente surreal com estilos familiares, mas apenas artistas letãos, há trabalhos impressionantes de Jazeps Grosvalds, que ajudou a criar o Grupo de Artistas de Riga antes de sua morte aos 29, em 1920, ou Aleksandra Belcova, que mistura os vocabulários de cubismo e construtivismo russo em seus
retratos.)

A Letônia tornou-se um país por apenas um par de décadas antes de a União Soviética entrar, mas em 1991, com a liberdade veio um novo sentido de expressão artística. O Arsenal, espaço da moda na Cidade Velha que faz parte da rede de museus estaduais, recentemente montou a primeira retrospectiva de arte letã depois da Segunda Guerra Mundial. Construir uma casa permanente para essa coleção é uma prioridade da ministra da cultura, Helena Demakova.

Os planos de Demakova também incluem a realização de um projeto antigo de Biblioteca Nacional, do arquiteto expatriado letão Gunnar Birkerts, e uma sala de concertos para substituir a decadente Great Guild Hall, onde a Orquestra Sinfônica Nacional da Letônia se apresenta em um auditório acessível apenas depois de vários lances de escadas quebradas. Esses novos prédios -assumindo que Demakova consiga o patrocínio para construí-los antes das eleições nacionais no outono- darão forma tangível à questão de como a cultura letã deve ser integrada ao cenário de Riga. Por um lado, a cidade quer estabelecer-se em termos de centro europeu. Por outro, sendo uma capital antiga (celebrou seu 800º aniversário em 2001) em um país jovem, Riga tem várias camadas arquitetônicas e culturais que fazem parte de seu charme.

A arquitetura da cidade cobre vários séculos, desde casas tortas da Renascença Holandesa ao longo da Maza Pils Iela, na Cidade Velha, até monumentos da era soviética -a laje de concreto do Reval Hotel Lavija ou a Academia de Ciências com suas torres, pouco afetuosamente chamada de "bolo de aniversário de Stalin" -no Centro. Entre suas características distintas estão os prédios baixos de madeira do século 19, relíquias dos primeiros colonos fora dos muros da fortaleza que surpreendentemente surgem no Centro moderno; e as fachadas impressionantes Jugendstil nas ruas residenciais do centro, pesadas com volteios e esfinges, leões e rostos humanos de dois andares, como se o arquiteto estivesse canalizando algum antecedente europeu de Walt Disney. (Os arquitetos incluem Mikhail Eisenstein, cujo filho Sergei dirigiu "Encouraçado Potemkin").

Além disso, há as casas de madeira de Jurmala, no resort à beira do mar a meia hora de Riga: prédios escuros marcados pelo tempo escondidos entre florestas de vidoeiros e pinhos, logo acima das areias pálidas e planas das praias ao longo do Golfo de Riga. Este era um destino de férias de funcionários soviéticos, que construíram uma ampla estrada a partir do aeroporto de Riga que foi apelidada de "Dez minutos de EUA" por sua semelhança às auto-estradas americanas.

Talvez a melhor alegoria arquitetônica do período soviético esteja no coração da Cidade Velha, na praça da Prefeitura, onde a fachada graciosa com cume de ouro da renascença holandesa da House of Blackheads contrasta dramaticamente com o edifício preto, quadrado que parece uma pegada esmagadora no final da praça. O prédio da era soviética hoje abriga o Museu da Ocupação, que retrata a vida sob o domínio soviético (e brevemente, alemão), de 1940 a 1991.

Ópera, pintura, música clássica: Essas são formas de restabelecer a identidade nacional. Mas há um outro lado, mais folclórico, da cultura letã.

De dia, as ruas da Cidade Velha são ocupadas com barracas de artesanatos
tradicionais: âmbar, linho, tricô, produtos de cera abelhas. Mais sabores da Letônia são oferecidos no vasto Mercado Central, estabelecido em um conjunto de antigos hangares de Zeppelin, perto da estação de trem: peixe defumado vendido em baldes como se fossem flores secas; grandes rodas de pão preto de centeio adoçado, chamado laci; derivados do leite tradicionais como manteiga cannabis e queijo de cominho, prato tradicional da Noite do Meio do Verão, ou Jani. A enorme celebração esvazia Riga, pois todos vão ao campo para se unir em torno da música e da cerveja letã. Preocupados que essas tradições desapareçam em uma sociedade voltada para o consumo, o governo recentemente instituiu oficinas gratuitas para ensinar ou lembrar as pessoas como se celebra o festival.

Então qual deve ser a prioridade na nova Letônia: o Festival de Dança e Música Letão, evento enorme que atrai milhares de cantores letãos de todo o mundo a cada cinco anos (o próximo é em 2008), ou a dedicação à música clássica? Demakova, ministra da cultura, está determinada a montar uma nova orquestra de câmara, mas alguns músicos letãos questionam se há suficientes músicos qualificados, em um país de 2,2 milhões de habitantes. Salários mais altos levam os melhores músicos para o exterior; e a Orquestra Sinfônica Nacional Letã já emprega um conjunto completo de músicos, para uma temporada de apenas alguns concertos por ano.

A resposta estará nas mãos de quem tiver a visão e energia de criar um novo conjunto de regras. Na Orquestra Sinfônica Nacional da Letônia, o mais recente candidato é um clarinetista chamado Ints Dalderis, ex-gerente da orquestra da ópera, que foi nomeado para a sinfônica para alcançar o tipo de resultados que Zagars conseguiu com a ópera. É pedir muito -ou um desafio estimulante para um jovem letão que quer ajudar a guiar o país em sua nova direção.

"O que é estimulante de trabalhar aqui", disse Dalderis, "é que as coisas podem mudar rapidamente. Se eu fosse tocar em uma orquestra alemã, tudo estaria marcado por três anos; não haveria surpresas. Aqui, sinto que realmente posso fazer uma diferença."

Onde as regras são feitas ao longo do caminho

Chegando lá
Os vôos para Riga de Nova York envolvem baldeação na Europa. O bilhete da Continental de Newark com transferência em Bruxelas sai por cerca de US$ 1.000 (em torno de R$ 2.200) no início de agosto, por exemplo. A Ryanair anuncia vôos de US$ 16 (em torno de R$ 35) de Stansted, para Londres, a partir de setembro.

Acomodação
O principal hotel butique de Riga é o Hotel Bergs (83/85 Elizabetes Iela, em Berga Bazars, 371-777-0900, www.hotelbergs.lv, de US$ 200 a US$ 375, ou entre R$ 440 a R$ 825), projetado por um importante arquiteto letão. Na Cidade Velha, o Konventa Seta (9/11 Kaleju Iela, 371-708-7501, www.konventa.lv, US$ 115 a US$ 170 ou entre R$ 250 e R$ 375) é um convento medieval reformado e confortável. O Europa Royale Riga (Krisjana Barona 12, 371-707-9444; www.hoteleuropa.lv, US$ 220 a US$ 1.280, ou entre R$ 480 a R$ 2.800), inaugurou na primavera em uma mansão suntuosa que foi do editor magnata letão Anton Benjamin.

Restaurantes
A cozinha de Martins Ritins e os preços no Vincent's (19 Elizabetes Iela,
371-733-2634) no Centro estão na escala de Paris ou Nova York: Em torno de 30 lats -ou R$ 120- por pessoa por jantar. O foco é em produtos orgânicos locais. A cadeia Lido serve refeições tradicionais saborosas, estilo bufê a preços razoáveis (em torno de 5 lats, ou R$ 20, por jantar) em ambiente
agradável: tente o Alus Seta, na Cidade Antiga (6 Tirgonu Iela, 371 722-2431), ou Dzinavas (76 Dzirnavu Iela, 371-728-6204) no Centro.

Vida noturna
Os moradores começam sua noitada no Skyline Bar no alto do Reval Hotel Latvija (55 Elizabetes Iela, 371-777-2345), que tem vistas panorâmicas da cidade à noite. Para ouvir música letã o enorme Cetri Balti Krekli (Four White Shirts) (12 Vecpilsetas Iela, 371-721-3885) é o lugar para ir. Popular para a turma alternativa é o Pulkvedim Neviens Neraksta (26/28 Peldu Iela, 371-721-3886).

Cultura
É possível comprar ingressos para a Ópera Nacional em www.music.lv/opera. Há apresentações nas duas primeiras semanas de agosto; a temporada propriamente dita começa em meados de setembro e vai até o festival de ópera de duas semanas em junho. Outras informações musicais podem ser encontradas em Música na Letônia (www.music.lv/en) e no Centro de Informações de Música Letã (www.lmic.lv). Galerias de arte notáveis incluem Rigas Galerija (20 Aspazijas Bulevardi, 371-722-5887, www.riga-gallery.com); Bastejs (12 Bastejas Bulevardi, 371-722-5050); Maksla XO (8 Skarnu Iela, em um espaço subterrâneo no complexo do Konventa Seta, 371-948-2098); e Noass (AB Dambis, ancorado em uma margem do Daugava; 371-770-3240, www.noass.lv).

Um bom site de informações gerais é www.inyourpocket.com/Latvia/riga/en. Deborah Weinberg

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