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17/07/2006

O envelhecimento da loja de CDs

The New York Times
Alex Williams,
em Nova York
Então, este é o horário do pico das vendas do final da tarde?

Em uma segunda-feira recente, seis pessoas -- e, pouco depois, quatro, e, a seguir, duas -- examinavam as estantes de CDs na Norman's Sound & Vision, uma loja de música na Cooper Square, em East Village, em Manhattan, por volta das 18h, um horário que costumava ser considerado "a hora do rush" diária para as vendas. Uma década atrás, o número de clientes poderia ser de 20 ou 30, afirma Norman Isaacs, o proprietário. Seis pessoas? Este é o número de funcionários que ele costumava ter na loja.

Keith Bedford/The New York Times 
Norman Isaacs, dono de loja de CDs em Nova York, vende discos usados pela internet

















"Eu costumava ganhar em um único dia aquilo que atualmente demoro uma semana para ganhar", lamenta Isaacs, um homem de 59 anos, de cabeça raspada, dono da loja, cujas prateleiras cheias de discos de punk, jazz, música latina e uma infinidade de rock clássico o deixaram, após várias tardes, parecidos com uma versão em estilo rock and roll do reparador da Maytag. Algo que também preocupa Isaacs é a idade da clientela. "Eles estão com os cabelos bem mais grisalhos", disse ele melancolicamente.

A loja de discos da vizinhança já foi um ponto de encontro de adolescentes, um lugar para escaparem dos pais, gastarem as mesadas e absorver os últimos lançamentos da moda e da música. Mas, atualmente, ela está se transformando rapidamente em um templo da nostalgia para compradores velhos o suficiente para se lembrarem de "Frampton Comes Alive!", um sucesso do guitarrista Peter Frampton.

Na era do iTunes e do MySpace, a clientela que ainda vê a música gravada como um bem material (ou seja, um CD), e não como um arquivo digital a ser baixado da Internet, está diminuindo e envelhecendo, colocando em risco ainda maior a sobrevivência das lojas de discos, que já sofre pressão das lojas de descontos em massa, como como a Best Buy e a Wal-Mart.

A fatia que os downloads retiraram das vendas de CDs é bem conhecida -- o mercado de discos compactos sofreu uma redução de 25% entre 1999 e 2005, segundo a Associação da Indústria Fonográfica dos Estados Unidos, uma organização comercial. O que esta queda drástica indicada pelos números não revela é que esta tendência está transformando várias lojas de discos em nichos freqüentados por homens de cabelos grisalhos que usam rabo-de-cavalo.

E isto é uma realidade mais observável nas lojas das grandes cidades, que contam com um acervo de CDs maior do que o das grandes cadeias que vendem discos em promoções.

"Não vemos mais a garotada por aqui", afirma Thom Spennato, dono da Sound Track, uma loja aconchegante na Sétima Avenida, em Park Slope, no Brooklyn. "O mercado composto de adolescentes de 12 a 15 anos desapareceu nos últimos dois anos."

E sem essa geração de compradores, o futuro parece sombrio. "O proprietário do imóvel perguntou se eu queria assinar um outro contrato de dez anos, e eu disse que não", conta Spennato. "Restam-me quatro anos de contrato, e depois disto estou fora."

Desde o final de 2003, cerca de 900 lojas de discos independentes fecharam as portas em todo o país, fazendo com que o total desses estabelecimentos seja atualmente de 2.700, de acordo com a companhia de pesquisa de marketing Almighty Institute of Music Retail, de Studio City, na Califórnia. Em 2004, a Tower Records, uma das maiores redes de venda de discos compactos do país, entrou com um pedido de falência.

Greta Perr, uma das donas da Future Legends, uma loja de CDs novos e usados na Nona Avenida, em Hell's Kitchen, no West Side de Manhattan, conta que os jovens nunca mais retornaram à sua loja depois da onda de compartilhamento de arquivos do Napster no final da década de 1990. Ela respondeu a essa tendência enchendo as vitrines com discos de artistas como Neil Young e Bruce Springsteen. "As pessoas vêm e dizem: 'Me lembro de que, quando tinha 20 anos, o segundo disco de Steve Miller foi lançado. Posso ficar com este aí?", diz Perr.

As estatísticas do setor comprovam que o público comprador de CDs está ficando de fato grisalho. As compras realizadas por jovens de 15 a 19 anos representavam apenas 12% do total vendido pelas lojas em 2005, o que significa um declínio de 17% em relação a 1996, de acordo com a Associação da Indústria Fonográfica. As compras feitas por pessoas de 20 a 24 anos representavam menos de 13% do total em 2005, o que significa uma queda de cerca de 15%. Durante o mesmo período, a parcela de música gravada comprada por adultos com mais de 45 anos aumentou para 25,5%, em relação aos 15% registrados em 1996.

(Esses números incluem CDs e músicas baixadas da Internet, sendo que os CDs ainda representam uma fatia muito grande do mercado de música gravada, com 87% do total em 2005).

O predomínio dos compradores mais velhos é especialmente notável nas lojas independentes menores das áreas metropolitanas, nas quais os clientes mais jovens tendem a ser mais ligados em tecnologia, e os fãs mais velhos das músicas costumam exibir gostos mais esotéricos, explica Russ Crupnick, analista do Grupo NPD, uma firma de pesquisa de mercado.

Na loja Norman's, que foi inaugurada 15 anos atrás e que fica próxima do epicentro do movimento punk nova-iorquino, o Saint Marks Place, de vez enquanto aparecem clientes com piercings no nariz. Mas eles podem estar apenas desejando usar a máquina de saque automático de dinheiro.

Um par de adolescentes -- ele com o cabelo pintado de negro, ela usando shorts de tecidos de camuflagem rasgados -- andava recentemente pela calçada e parou subitamente em frente à porta da loja, ao ver um álbum de Isaac Hayes da década de 1970. A expressão dos dois era a de candidatos a crentes que foram parar na igreja errada. Eles logo foram embora.

A maior parte dos outros clientes da Norman's é velha o suficiente para se recordar das fitas de oito trilhas. Steven Russo, 53, por exemplo procurava CDs de jazz. Russo, professor de segundo grau em Valley Stream, Nova York, disse que aprecia a loja devido ao clima de camaradagem entre os conhecedores que a freqüentam, e também pelo seu acervo. "Gosto do fato de as pessoas serem capazes de falar umas com as outas sobre a música, de falar com gente que sabe das coisas", afirma Russo.

Richard Antone, um escritor freelance de Newark, Nova Jersey, cujo cabelo é repleto de cachos grisalhos, afirma que a sua visita semanal à loja é uma experiência visual e auditiva. "Lembro-me de como as pessoas apreciavam tanto o trabalho de arte visual na capa de um álbum como "Electric Ladyland" ou "Sgt. Pepper" tanto quanto a música", diz Antone.

A geração perdida de jovens compradores -- para os quais um CD é um disco prateado a ser queimado com os seus próprios sons, e, a seguir, rotulado com uma caneta negra -- provavelmente significará o fim da Norman's dentro dos próximos cinco anos, afirma Isaacs, o proprietário. Segundo ele, vários dos seus concorrentes do centro da cidade já desapareceram.

Alguns proprietários independentes estão resistindo a este desafio de natureza demográfica. Eric Levin, 36, dono de três lojas Criminal Store em Atlanta, e que fiscaliza um grupo comercial chamado Aliança das Lojas Independentes de Mídia, que representa 30 lojas de âmbito nacional, afirma que os estabelecimentos que estão perdendo os fregueses jovens são "dinossauros" que nada fizeram no sentido de atrair a nova geração.

De acordo com ele, por todo o país lojas como a Grimey's, em Nashville, a Shake It Records, em Cincinnati, e a Other Music, em Nova York estão mantendo os fregueses jovens ao diversificarem os seus negócios. Além de venderem CDs raros e até mesmo discos de vinil, muitas passaram a oferecer também à clientela jovem gibis, robôs japoneses de brinquedo e roupas. Algumas abriram clubes noturnos anexos, ou, no caso de Levin, cafés.

"A garotada não precisa ir até as lojas de discos, como as gerações anteriores", explica Levin. "Temos que fazer com que eles tenham tal desejo. É preciso que criemos um evento."

Mas a diversificação nem sempre é uma opção para as lojas menores que contam com pouco espaço extra, como a Norman's. A continuidade da sobrevivência de Isaacs como lojista se deve em parte a um negócio paralelos que ele administra vendendo CDs usados na Amazon e na eBay. Ele os compra de fregueses que aparecem na loja e que com freqüência se livram de coleções inteiras.

Ao contrário das ameaçadas livrarias independentes, com os seus tapetes rotos, as prateleiras empoeiradas e os gatos que soltam pêlos, as lojas de discos independentes que correm risco de desaparecer não inspiram a mesma preocupação, talvez porque não ocupem um lugar de tanto destaque na imaginação popular quanto os sebos

Mesmo assim, o fim dessas lojas será lamentado.

Danny Rields, o primeiro empresário do Ramones, conta que visitar a Bleecker Bob's na West Third Street no final da década de 1970 era "algo como experimentar o cenário musical de Nova York miniaturizado". A loja era um nicho cultural, um posto de trocas para todas as tendências punk posteriores. "Ir à Bleecker Bob's era como dar uma passada no clube CBGB's", afirma Rields (ainda é possível dar uma passada na Bleecker Bob's).

Dave Marsh, o crítico de rock e autor de livros sobre música popular, observa que roqueiros como Jonathan Richman e Iggy Pop aperfeiçoaram os seus gostos musicais trabalhando como vendedores de lojas de músicas.

"Isso faz parte da transmissão da música", afirma Marsh, que se lembra de ter ficado fascinado por bandas cult como o Fugs e o Mothers of Invention por meio de vendedores na loja local de discos, na sua cidade natal, Waterford, no Estado de Michigan. "Parece que não é possível haver um bairro sem uma dessas lojas." Danilo Fonseca

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