UOL Notícias Internacional
 

18/07/2006

48 iraquianos mortos e um grande número de feridos em ataque contra área de mercado xiita

The New York Times
Edward Wong*

em Bagdá, Iraque
Dezenas de homens armados suspeitos de serem sunitas atacaram uma área de mercado de maioria xiita na cidade de Mahmudiya, na segunda-feira, matando pelo menos 48 civis e ferindo um grande número de pessoas, disseram autoridades policiais. Muitos dos agressores, que dispararam rifles de assalto, metralhadoras e granadas propelidas por foguete, vestiam uniformes das forças de segurança iraquianas.

"Não dá para distinguir amigo de inimigo", disse um oficial do exército
iraquiano enquanto tropas iraquianas se deslocavam para o local.

As mortes à luz do dia em Mahmudiya, a cerca de 30 quilômetros ao sul de Bagdá, aumentaram os temores entre os iraquianos de que o país pode estar mergulhando em uma guerra civil plena, o que levou um bloco xiita crucial a abandonar o Parlamento, em protesto pela falta de segurança.

O ataque e outros atos de violência na segunda-feira elevaram para quase 100 o número de civis mortos em dois dias no país, o tornando um dos períodos mais mortais desde a nomeação do novo governo iraquiano em maio.

As mortes mais recentes acentuaram a incapacidade do governo de deter os ciclos crescentes de violência sectária que, mais e mais, são caracterizados por mortes ao estilo de execução em represália.

Um grupo guerrilheiro obscuro, os Defensores do Povo Sunita, postou uma
mensagem na Internet dizendo que executou o ataque para vingar a morte de civis árabes sunitas por milicianos xiitas em Bagdá, em 9 de julho.

As mortes ampliaram os rachas políticos no governo liderado pelos xiitas do primeiro-ministro Nuri Kamal al Maliki. Os legisladores que deixaram o Parlamento na segunda-feira eram seguidores do clérigo radical xiita Muqtada al Sadr, cuja milícia tem se envolvido com freqüência cada vez maior em confrontos com as forças lideradas pelos americanos. Muitas autoridades iraquianas acreditam que a participação de Al Sadr no processo político é indispensável para obtenção da estabilidade no Iraque, citando seu grande número de seguidores.

As forças iraquianas e os soldados americanos pareceram impotentes para
impedir o derramamento de sangue em Mahmudiya, chegando ao local após os homens armados já terem matado dezenas, disseram as testemunhas. A cidade, um centro do conflito entre sunitas e xiitas, está sob vigilância do 1º Batalhão do 502º Regimento, 101ª Divisão Aerotransportada, a mesma unidade que teve seis soldados envolvidos no estupro de uma menina iraquiana em março e no assassinato dela, da irmã mais nova e de seus pais.

"Está se tornando óbvio que as forças de ocupação são responsáveis pela
devastação que está ocorrendo em nosso país", disse um importante legislador de Al Sadr, Bahaa al Aaraji, em uma coletiva de imprensa em Bagdá.

Ele disse que o bloco de Al Sadr, que detém pelo menos 30 das 275 cadeiras legislativas, não está boicotando permanentemente o Parlamento, mas que abandonou a sessão de segunda-feira enfurecida tanto com o massacre quanto com os recentes ataques americanos e britânicos contra os seguidores de Al Sadr.

Al Sadr, que liderou duas rebeliões contra os americanos em 2004, divulgou uma declaração na última sexta-feira, dizendo que os iraquianos "não se sentarão de braços cruzados" enquanto Israel enfrenta o Hezbollah, o grupo militante xiita, ao longo da fronteira libanesa.

Isto sugeriu a possibilidade de mais ataques de seus milicianos contra os americanos, freqüentemente criticados por Al Sadr de apoiarem Israel e conseqüentemente ampliarem a tempestade de fogo no Oriente Médio.

O ataque no mercado Mahmudiya ocorreu por volta das 9 horas da manhã,
enquanto as ruas estavam lotadas de compradores e homens a caminho dos cafés e casas de chá.

Primeiro ocorreram as explosões de morteiros ou granadas, segundo
testemunhas e o prefeito, apesar de algumas autoridades de segurança terem apresentado relatos iniciais de um carro-bomba. Então dezenas de homens armados desceram de carros e começaram a caminhar pelo mercado, atirando contra pessoas à direita e à esquerda. Pelo menos oito carros pegaram fogo. Os corpos se espalhavam pela rua e se amontoavam nas lojas e restaurantes.

Os homens armados entraram em uma casa e mataram seis pessoas, incluindo duas mulheres, disse uma testemunha, Maithem Muhammad Harrar.

Harrar, um xiita de 25 anos, disse que estava caminhando para o mercado para encontrar seu pai em um café quando o ataque teve início. Seu pai foi atingido perto do estômago por uma bala, ele disse. O pai estava
inconsciente em um leito de hospital em Bagdá, na tarde de segunda-feira, com sangue manchando sua veste branca e uma sonda intravenosa inserida em um braço.

"Eu não pude fazer nada", disse Harrar, olhando para seu pai de barba
branca, que tem 60 anos. "Nós não pudemos ajudar ninguém até depois dos
atiradores partirem." O ataque de segunda-feira lembrou o do bairro de
Jihad, em Bagdá em 9 de julho, quando milicianos xiitas mataram até 50 civis sunitas, arrancando pessoas de carros e casas e as executando com tiros na cabeça. Até recentemente, tais assassinatos em massa de civis eram relativamente raros na guerra no Iraque. Os mais recentes incidentes aumentaram os temores entre muitos iraquianos de que o atual conflito civil poderá se transformar em um grande derramamento de sangue, com rodadas de mortes por vingança.

Os moradores de Mahmudiya disseram que os assassinos de segunda-feira eram árabes sunitas em busca de vingança. A cidade se tornou uma área de combate sectário, com combatentes sunitas enfrentando milicianos xiitas que supostamente são membros do exército privado de Al Sadr. Harrar disse que o escritório de Al Sadr e o quartel-general local do Partido Islâmico Dawa, um grupo político xiita do governo, ficam localizados perto do mercado.

Outro morador, Hamid Mohsen, um operário sunita de 45 anos, disse por
telefone que o mercado estava cheio de membros da milícia de Al Sadr, o
Exército Mahdi. Os sunitas tinham o direito de matá-los, disse Mohsen,
porque o "Exército Mahdi lançou uma guerra sectária na cidade após as forças americanas terem transferindo a segurança para as forças iraquianas".

Ele disse que relatos corriam pela região de um episódio particularmente medonho, na semana passada, envolvendo o Exército Mahdi. No sábado, ele disse, milicianos seqüestraram um menino sunita de 14 anos e o levaram a um local remoto. Os combatentes enterraram Omar até o pescoço, então o mataram praticando tiro ao alvo contra sua cabeça, ele disse.

"Este incidente inflamou todas as tribos sunitas em Mahmudiya", disse
Mohsen.

Mouayid Fadhil, o prefeito da cidade, disse: "Os agressores se infiltraram na cidade à noite saídos de seus esconderijos fora de Mahmudiya. Nós conseguimos capturar três que ficaram feridos e uma investigação está em andamento".

As forças armadas americanas não têm conseguido domar a área de Mahmudiya, que fica em um acesso estratégico ao sul de Bagdá e é conhecida como "Triângulo da Morte" por causa de seu alto número de mortes. Saddam Hussein transferiu tribos sunitas leais a ele para a região e construiu fábricas de munição lá. As forças americanas patrulham a área agora, mas ela continua sendo uma fortaleza de seguidores leais de Hussein, gangues de criminosos e milícias beligerantes.

No mês passado, os rebeldes emboscaram três soldados americanos na cidade próxima de Yusufiya. Um foi morto imediatamente e dois foram seqüestrados. Os seqüestradores os mutilaram, decapitaram um e deixaram seus corpos ao longo da estrada armados com bombas.

Um grupo ligado à Al Qaeda divulgou um vídeo das mutilações e disse que as mortes foram uma vingança pelo estupro da menina iraquiana de Mahmudiya. Os soldados acusados na investigação eram da mesma unidade do 502º Regimento que as vítimas de Yusufiya. Na segunda-feira, as forças armadas americanas disseram em uma declaração que o 1º Batalhão do 502º e unidades do exército iraquiano responderam ao ataque no mercado após ouvirem uma série de explosões.

Em Bagdá, Aaraji, o legislador de Al Sadr, expressou frustração com a
incapacidade dos americanos de protegerem os iraquianos e atacou as forças lideradas pelos americanos pela sua recente investida contra a organização de Al Sadr.

Ele apontou para um ataque das forças armadas britânicas no domingo em
Basra, uma cidade do petróleo do sul. Um funcionário de Al Sadr disse
posteriormente por telefone que tropas britânicas investiram contra a cidade próxima de Al Garma e prenderam um seguidor de Al Sadr, Sajad Badr al Sukany.

Alguns temem que o aumento das tensões entre seguidores de Al Sadr e as
forças lideradas pelos americanos, especialmente no contexto da atual crise no Líbano, poderá se transformar em um combate aberto nas ruas, como em 2004. Al Sadr já invocou a luta entre Israel e o Hezbollah para incitar o apoio popular e promover a revolta contra os americanos. Tanto Al Sadr quanto o Hezbollah têm fortes laços com o Irã.

A violência também prosseguiu em Bagdá na segunda-feira, com atiradores
alvejando um carro de civis, matando duas pessoas e ferindo duas. Os
rebeldes mataram três civis e feriram outros três durante uma emboscada a um comboio da polícia, disse um funcionário do Ministério do Interior. Homens armados mataram um homem que organizava viagens para peregrinos xiitas aos templos no Irã.

As forças armadas americanas disseram que um soldado foi morto por fogo de armas leves no oeste de Bagdá, outro soldado morreu em um atentado a bomba no sul da capital e um terceiro foi morto por "ação inimiga" no oeste do Iraque.

*Qais Mizher, Mona Mahmoud e Omar al Neami, em Bagdá, contribuíram com
reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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